Médicas contam como é equilibrar o ser mãe com a batalha contra o coronavírus

Dra. Natally com as marcas no rosto de tanto usar os equipamentos de proteção. Foto: Arquivo Pessoal

“A sensação é horrível. Porque eu não vou estar nem com minha mãe nem com minhas filhas. Eu tenho emagrecido, não consigo comer, estou muito ansiosa. Tenho momentos de muita tristeza, vontade que isso acabe logo, mas penso nisso de focar em um dia de cada vez e que tudo vai passar”. Esse é o desabafo da médica Natally de Oliveira Morais ao falar sobre o Dia das Mães que provavelmente passará sozinha neste 2020.

Formada desde 2008, ela teve de se separar das filhas para poder trabalhar na linha de frente do combate ao coronavírus no Hospital 9 de Julho, em São Paulo. Separada e com a guarda unilateral de Sofia, de 6 anos, e Valentina, de 4, a profissional precisou deixar as filhas com a mãe, que mora em outro Estado.

“Me sinto dividida, mas essa é minha missão e o exemplo que quero deixar pras minhas filhas. Quero que elas entendam que a vida é isso, o equilíbrio entre o outro e nós mesmos, o outro e nossa família. No meu Dia das Mães eu gostaria de ir até Campo Grande ficar com elas, mas não sei se vou conseguir. Se não der, talvez passar o dia todo em vídeo com elas”, explica.

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Essa mistura de sentimentos também está representando a rotina da infectologista Cristhieni Rodrigues, que se dividia entre os trabalhos no Hospital das Clínicas e no Hospital Santa Paula quando descobriu que tinha contraído a Covid-19. Confinada desde a última segunda-feira (4), ela tenta trabalhar de casa e lida com o sentimento de medo.

Dra. Cristhieni com os filhos Pedro e Lucas. Foto: Arquivo Pessoal

“Eu sempre achei que algum dia eu ia acabar sendo contaminada. Aliás, esse é objetivo do isolamento: que as pessoas se contaminem aos poucos e que tenha leito para todo mundo. Então, eu sempre estive preparada para me contaminar em algum momento. Eu não tenho nenhum fator de risco. Apesar disso, deu medo. Na hora que eu soube, eu chorei”, diz.

O marido de Cristhieni também contraiu o vírus e, agora, os dois precisam ficar em um isolamento domiciliar pelo fato de seus filhos Lucas, de 13 anos, e Pedro, de 19, estarem saudáveis e estarem na mesma casa que os pais contaminados. Por conta disso, o Dia das Mães na casa dela será sem grandes abraços e beijos.

“Eu vou estar aqui em casa, com meus filhos, mas sem grandes toques e esperando que ano que vem a gente esteja em uma situação melhor”, diz. Segundo ela, o que mais está machucando é não poder ver os pais idosos que moram em Santos, no litoral de São Paulo. 

“Como mãe, eu sei que esse é um momento difícil e que a gente tem que abrir mão de algumas coisas por um bem maior. O que me incomoda mesmo é não poder dar atenção para a minha mãe”, lamenta.

Dra. Natally com as filhas Sofia e Valentina. Foto: Arquivo Pessoal

No entanto, as duas médicas entendem como o trabalho delas é fundamental em tempos de pandemia e, por isso, se sacrificam para dar assistência à população. Mesmo assim, a violência do vírus assusta até as profissionais treinadas. Natally, por exemplo, ficou impressionada com a velocidade com que o Covid-19 se manifesta. "O que mais assusta é a evolução dos pacientes, que rapidamente ficam muito mal", diz.

Já Cristhieni, que sentiu a violência da doença, diz que os sintomas são fortes. “Você não sente o cheiro de nada. Você pode colocar um vidro de perfume no nariz que você não sente nada. Você sente seu nariz ardendo, mas não sente o cheiro de nada. Eu já sabia que meu teste viria positivo quando eu não senti nenhum odor”, afirma.