O medo na Rússia de um aumento do alcoolismo durante o confinamento

Por Andrea PALASCIANO
Paciente em clínica particular de reabilitação para dependência química em Moscou, em 25 de abril de 2020

Confinados em apartamentos pequenos e dominados pelo medo do coronavírus e seu impacto econômico, muitos russos estão preocupados com o retorno de um velho demônio: o alcoolismo.

"Quando me encontrei em casa sozinha, a primeira coisa que pensei foi 'ah, é um bom momento para ficar bêbada'", diz Tatiana, 50 anos, que está sóbria há quase sete anos e está confinada na região de Moscou.

"Nem todo mundo pode resistir durante o confinamento", comenta ao se conectar a uma reunião on-line dos Alcoólicos Anônimos.

Desde a primeira semana de isolamento, as vendas de álcool aumentaram 65% na Rússia, de acordo com o instituto de pesquisa de mercado GFK.

Segundo uma investigação da associação Rússia Sóbria, 75% dos entrevistados compram mais álcool do que o habitual, tanto quanto nas festas de final de ano.

Esse aumento se deve em parte ao acúmulo de provisões, mas também a crenças populares perigosas: "80% dos entrevistados pensam que o álcool imuniza contra a COVID-19, quando é o contrário, reduz a imunidade e agrava as doenças crônicas", diz Sultan Khamzaev, chefe da organização Rússia Sóbria.

O consumo de álcool no país caiu mais de 40% entre 2003 e 2016, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), graças a uma campanha agressiva das autoridades.

Os russos agora bebem em média menos que os franceses ou os alemães.

Os estragos do álcool, exacerbados em tempos de crise, permanecem na mente de todos.

"No confinamento, o nível de ansiedade em pacientes frágeis aumenta" e a população de risco "começa a beber" para relaxar, diz Vasili Shurov, psiquiatra especializado em vícios.

Ele afirma que a clínica particular que ele administra em Moscou tem recebido uma avalanche de ligações.

Nos corredores do estabelecimento, onde todas as camas estão ocupadas ou reservadas, os pacientes vão para um quarto onde podem fumar.

É o caso de um homem na casa dos trinta que chegou há três dias e garante, sob anonimato, que "é melhor assim para todos em casa".

Associações de combate à violência de gênero têm visto um aumento nas agressões desde o início do confinamento.

- "O álcool desperta o diabo" -

Embora seja muito cedo para estabelecer uma correlação com o aumento do consumo de álcool, Anna Rivina, diretora do centro "Não à violência", afirma que "o álcool desperta o diabo".

Mari Davtian, advogada de direitos humanos, observa um aumento nas reclamações relacionadas ao álcool.

Como a que recebeu de Irina, uma mulher de 32 anos com um filho de dois anos, da região de Moscou: "Meu marido foi demitido, começou a beber e a bater em nós. Queria ir para a casa dos meus pais, mas ele ameaçou me denunciar às autoridades e dizer que coloco a criança em perigo saindo de casa".

O mesmo aconteceu com Ksenia, de 26 anos, e seu filho de 8 meses: "Meu marido começou a beber todos os dias e me bate por qualquer coisa. Eu não sei o que fazer, os tribunais estão fechados e eu nem consigo me divorciar", diz.

"O álcool e a pobreza aumentam a violência doméstica", afirma Aliona Popova, ativista que apoia a adoção de uma lei de emergência durante o confinamento, que descriminaliza as mulheres agredidas que fogem de casa, enquanto o deslocamento é proibido.

Enquanto isso, a Rússia Sóbria pede às autoridades que limitem a venda de álcool por pessoa ou fechem lojas especializadas.

"Um imenso trabalho foi realizado nos últimos anos. Mas agora estamos em uma situação de emergência. Corremos o risco de perder o que alcançamos se as pessoas estiverem desempregadas, deprimidas. E quando a quarentena terminar, uma longa e profunda crise econômica nos espera", diz Khamzaev.

Shurov também teme o desconfinamento: "As pessoas perderam a Páscoa, o Primeiro de Maio. E de repente poderão sair, beber (...) como se não houvesse amanhã".