Medo de vacina causou febre e convulsões em jovens do Acre, diz análise da USP

Elisa Martins

SÃO PAULO — O objetivo era imunizar jovens contra o HPV, sigla para o papilomavírus humano, que pode causar lesões e aumentar a incidência de câncer de colo de útero, pênis e garganta. Mas a reação foi de polêmica e desinformação depois que dezenas de adolescentes apresentaram reações como febre, desmaios e convulsões após serem vacinados no Acre.

Os casos aconteceram entre 2014 e 2017 e ficaram sem diagnóstico definido até este ano, quando uma avaliação médica feita por especialistas do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Universidade de São Paulo (USP) concluiu que o quadro não tinha como causa os componentes da vacina, mas o medo e a desconfiança que os adolescentes sentiam em relação às imunizações.

— É um efeito pós-vacina, mas não tem origem imunobiológica da vacina. Tem a ver com o ato de vacinar — diz o psiquiatra José Galucci, coordenador da Unidade de Videoeletroencefalografia do IPq.

Os especialistas do instituto foram procurados pelo Ministério da Saúde em março deste ano, depois que o caso já tinha sido denunciado em serviços de saúde e no Ministério Público do Acre por mães de adolescentes afetados.

Até então, 74 jovens haviam apresentado reações diversas depois de vacinados contra HPV no estado. Destes, 16 tinham os sintomas mais extremos, como convulsões, e por isso foram priorizados para análise por uma equipe de psicólogos, enfermeiros e psiquiatras do IPq.

O instituto examinou 12 deles até outubro no Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da USP. Os jovens passaram por ressonância magnética, avaliação neuropsicológica e exames de videoeletroencefaografia, considerado essencial para diagnóstico de doenças neurológicas.

— Os exames mostraram uma doença funcional, e não da estrutura do cérebro. Ela está associada ao estresse emocional, que desencadeia uma reação psicológica automática do sistema nervoso — afirma Galucci.

Segundo ele, os exames descartaram problemas de origem neurológica.

— Quando a crise é neurológica, o exame detecta uma descarga elétrica cerebral anormal. E isso não aconteceu.

Fake news sobre vacinas criam temor

No relatório entregue ao Ministério da Saúde, os especialistas indicaram que os jovens tiveram uma "crise não epilética de origem psicogênica", induzida por sugestão.

— Hoje, para grande parte da população, até por conta das fake news, as vacinas são uma espécie de ameaça compartilhada socialmente. Essa história de que vacina causa autismo, de que vacina faz mal, leva as pessoas a se vacinarem menos, por medo de que a vacina provoque algum malefício. Esse medo compartilhado é o que dá origem a essa reação psicológica, que tem fundo emocional — diz Galucci.

Para efeitos de comparação, acrescentou o especialista, é como os pacientes que chegam a uma emergência de hospital relatando sofrer um infarto, quando na verdade têm uma crise de pânico ou ansiedade. Eles apresentam sintomas reais de falta de ar ou taquicardia, mas não por problemas cardiológicos, e sim associados a questões emocionais e mentais.

Casos semelhantes de reações psicogênicas com a vacina contra HPV foram relatados em 2014 na cidade de Bertioga, em São Paulo. Três adolescentes foram hospitalizadas com fraqueza muscular nos membros inferiores horas depois de serem vacinadas. Exames descartaram qualquer consequência física ou orgânica.

A conclusão foi a de que os casos também eram de reação psicogênica, conforme relatório assinado pelas Sociedades Brasileiras de Imunizações (SBIm), de Pediatria (SBP), de Infectologia (SBI) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

"As vacinas que previnem o HPV são seguras, eficazes e, na prática, podem ser consideradas vacinas capazes de prevenir o câncer. Ações que tentem desacreditá-las, especialmente partindo de profissionais da saúde, devem ser vistas com grande preocupação, pois se tratam de um desserviço e de uma ameaça à saúde pública", destaca o mesmo relatório.

Casos de reação psicogênica à vacina também já foram relatados no exterior, em países como Colômbia, Austrália e Reino Unido. O tempo médio de atraso de diagnóstico de crise psicogênica é de sete anos.

Não há uma exatidão sobre a previsão de melhora. Sem tratamento, os jovens podem continuar apresentando as reações mesmo alguns anos após a vacinação, como acontece nos jovens do Acre.

— Esses jovens têm um problema médico, que não pode ser desconsiderado. Não é fingimento, nem simulação. Mas também não podemos ter preconceito contra problemas médicos. Não é porque a razão é emocional que deve ser menos importante do que se fosse neurológico.

Segundo Galucci, existe tratamento para esse tipo de mal, mas não é farmacológico:

— Tem de ser baseado em uma terapia cognitivo-comportamental, específica para esse tipo de crise.

Mães vão à Brasília

Na semana passada, mães de adolescentes que apresentaram reações adversas participaram de uma audiência pública na Câmara dos Deputados. Elas atribuíram o quadro à vacina.

— Minha filha não tem mais concentração para estudar. Hoje, no terceiro bimestre, ficou de recuperação em três matérias, e isso a abalou profundamente. Hoje, ela tem um problema psicológico — disse a mãe de uma menina de 15 anos, na sessão em Brasília.

Depois do ocorrido, acrescentou, ela passou a desconfiar da imunização e parou de vacinar a filha menor contra doenças, por exemplo, como o sarampo — doença que voltou a matar no país. Só em São Paulo, já foram contabilizados mais de seis mil casos de infecção e ao menos 14 mortes em decorrência do sarampo em 2019.

O consenso entre especialistas e famílias é que a demora no diagnóstico prejudicou os jovens do Acre.

O exame de videoeletroencefaografia, por exemplo, não está disponível no sistema público do estado. As mães relataram também terem sido hostilizadas em serviços de saúde locais.

Com a comoção, o caso parou recentemente na Assembleia Legislativa do Acre.

Na última segunda-feira (25), foi lançada uma Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família, com ênfase nos casos de jovens com reações após a vacina contra o HPV.

Médica diz que estudo é inconclusivo

Os deputados não chegaram a um consenso sobre o problema. Para a sessão, convidaram a médica Maria Emília Gadelha Serra, presidente da Sociedade Brasileira de Ozonioterapia Médica, que diz que o estudo da USP sobre o caso é inconclusivo.

Ela apresentou um estudo próprio em que afirma que algumas das adolescentes foram afetadas em áreas mais profundas do cérebro, que não teriam sido detectadas nos exames feitos até agora.

Apontou também a presença de metais como chumbo na vacina, que teriam contaminado as jovens.

O psiquiatra José Galucci, da USP, diz, no entanto, que não há estudos que mostrem a presença de chumbo na vacina contra HPV, e sim de alumínio, mas em doses mínimas, usadas como conservantes em frascos multidoses da vacina.

O Ministério Público do Acre, que acompanha o caso das famílias, explicou que os doze pacientes foram encaminhados à USP de acordo com os critérios de gravidade.

"O diagnóstico foi fechado com relação esses doze pacientes e não há correlação com a vacina. Esse diagnóstico é seguro", disse o órgão, em nota enviada ao GLOBO, citando o promotor Glaucio Oshiro, titular da Promotoria Especializada de Defesa da Saúde.

O próximo passo, diz o MP do Acre, é discutir alternativas terapêuticas com o Ministério da Saúde e a Secretaria de Saúde do estado.

Segundo o Ministério da Saúde, 49.959 jovens já foram vacinados contra HPV no Acre em 2017 e 2018 —os dados de 2019 só serão divulgados no ano que vem.

O esquema de vacinação inclui duas doses de imunização. No estado, a taxa de cobertura vacinal da segunda dose entre meninas de 9 a 14 anos está em 50%. Entre meninos de 11 a 14 anos, que começaram a ser vacinados em 2017, está em 16,8%.

O GLOBO tentou contato com a médica Maria Emília, com a Assembleia Legislativa do estado do Acre e com a Secretaria Estadual de Saúde, mas não teve retorno até o fechamento da reportagem.