Megaexercício naval opõe EUA e Ucrânia à Rússia no mar Negro

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em meio a uma escalada militar perigosa, Estados Unidos e Ucrânia lideram a partir desta segunda-feira o maior exercício naval ocidental já feito no mar Negro, área de intensa presença russa.

Serão 32 os países integrantes da edição 2021 do Brisa Marinha, que ocorre anualmente desde 1997. São 32 navios, 40 aviões e mais de 5.000 militares envolvidos, a maioria deles integrante da Otan (aliança militar ocidental).

Apesar de ter sido marcado desde o ano passado, o exercício ocorre em um momento de altíssima tensão na região. Na quarta passada (23), a Rússia disparou pela primeira vez desde a Guerra Fria tiros de advertência contra um navio da Otan.

Era o destróier britânico HMS Defender, que rumava da Ucrânia para a Geórgia por uma rota desenhada para provocar a reação russa: passando 3 km dentro de águas territoriais da Crimeia, península ucraniana reabsorvida pela Rússia em 2014.

Além dos tiros de um barco de guarda costeira, caças-bombardeiros Su-24 circundaram o navio e, segundo Moscou, jogaram quatro bombas à frente do navio britânico. Londres nega essa parte do relato, mas é isso é irrelevante ante a gravidade geral do caso.

A incursão foi desenhada para mostrar que o Reino Unido não reconhece a soberania russa sobre a Crimeia. Até aí, as Nações Unidas também não, mas entrechoques militares só ocorriam entre navios da Frota do Mar Negro do Kremlin e da Ucrânia.

O Ministério das Relações Exteriores criticou a manutenção do Brisa Marinha, o classificando de provocação. Já a pasta da Defesa afirmou que está monitorando tudo, a começar pela chegada a região do destróier americano USS Ross.

O comandante da Marinha ucraniana, por sua vez, não mediu as palavras ao lançar as manobras nesta segunda. "O exercício é uma mensagem poderosa para manter a estabilidade e paz na nossa região", disse Oleksii Neijpapa.

O mar Negro é uma das encruzilhadas estratégicas mais complexas do mundo. De um lado, há a Rússia e a Crimeia, que foi militarizada com sistemas antiaéreos poderosos e mísseis balísticos, além de sediar a frota russa desde o fim do século 18 --ela ocupava uma grande área de Sebastopol sob licença de Kiev até a anexação.

Do outro, há a rival Ucrânia e seus aliados da Otan, notadamente a Turquia, que ocupa a margem sul do mar e os estreitos que o conectam ao Mediterrâneo. Para Moscou, é a única saída direta para o teatro de operações naquele mar, que incluem suas bases na Síria conflagrada.

Com o Brisa Marinha, as forças ocidentais treinarão resistência a invasão anfíbia, bloqueio de área, operações de assalto, entre outras.

Nada diferente do que a Rússia faz com grande frequência na mesma região, de resto, e está treinando neste momento no Mediterrâneo, num exercício visto largamente como resposta ao incidente no mar Negro.

Galeria Crimeia Região vive limbo geopolítico cinco anos depois de anexação pela Rússia https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/nova/1628127424576494-crimeia *** Ali a ação é de menor escala, só com cinco navios, mas utilizando forças baseadas na Síria e incluindo pela primeira vez caças MiG-31K, capazes de disparar os novos mísseis hipersônicos Kinjal.

Isso foi um recado ao Reino Unido, que está exercitando seu novo porta-aviões, o HMS Queen Elizabeth, na região --incluindo ataques ao grupo Estado Islâmico na Síria. É a primeira viagem do navio e seu grupo de apoio, do qual o Defender faz parte.

Ela faz parte da nova doutrina de projeção de poder de Londres, baseado no Queen Elizabeth e no seu navio-irmão, o Prince of Wales, que ainda está em testes.

"Isso visa ser um símbolo do foco estratégico do Reino Unido no Indo-Pacífico", escreveram Nick Childs e Jonathan Bentham no blog do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres.

A região será a próxima parada da viagem do grupo de ataque, que transporta caças avançados F-35B britânicos e americanos. "Contudo, há dúvidas sobre o longo prazo", completam.

De toda forma, a assertividade demonstrada na semana passada mostra que a relação entre o mais pró-EUA dos membros da Otan e a Rússia desceu alguns degraus, três anos depois do quase rompimento devido ao envenenamento de um ex-espião russo e sua filha na Inglaterra.

O conflito ucraniano voltou às manchetes neste ano. Ele começou em 2014 quando o governo pró-Moscou foi derrubado em Kiev, levando o presidente Vladimir Putin a absorver a região étnica russa da Crimeia e a fomentar separatistas pró-Rússia no leste do país.

A guerra civil está congelada, tendo matado 14 mil pessoas, mas a Ucrânia sinalizou que poderia tomar uma ação militar ao deslocar forças para a região no começo do ano. Putin reagiu e mobilizou dezenas de milhares de soldados na fronteira ucraniana, gerando alarme na Otan em abril.

A isso se soma a renovada agressividade dos EUA sob Joe Biden contra Putin, com sanções devido à repressão da oposição local, e o apoio do russo à ditadura de Belarus -que até interceptou um avião civil europeu para prender um dissidente que voava em seu espaço aéreo.

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