Em meio à COVID-19, islandeses sofrem com fechamento das piscinas

Por Jeremie RICHARD
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Maior piscina ao ar livre da Islândia, Laugardalslaug, em Reikiavik, fechada ao público

O fechamento das piscinas, devido ao coronavírus, é um drama para os islandeses, fanáticos por natação, que são privados de seus exercícios favoritos e de um local de interação social.

Como a sauna na Finlândia, ou o pub na Inglaterra, a piscina está no coração da vida islandesa.

Nem mesmo as nevascas de inverno impedem os islandeses de nadarem ao ar livre.

As 134 piscinas municipais e outras piscinas de água quente, incluindo a icônica Lagoa Azul, particularmente popular entre os turistas estrangeiros, são um local de exercício, mas também formam uma ágora, um espaço público de encontro e vida social.

As pessoas vêm "para se encontrar, conversar, ou simplesmente relaxar após um dia duro no trabalho", disse à AFP Hulda Bjarkar, que oferece aulas de natação em Laugardalslaug, a maior piscina da Islândia.

Este gigantesco complexo, que recebia 1.800 visitantes diários, localizado no centro da capital, Reykjavik, fechou, como todos os outros, em 24 de março, em razão das medidas tomadas pelo governo para combater a propagação da COVID-19.

A água continua balançando nas grandes piscinas, mas os quatro banhos quentes (com temperaturas de 40°C a 44°C), agora vazios, não dão mais boas-vindas a quem frequenta o local para trocar ideias.

"Para mim, é muito, muito difícil, porque é o nosso modo de vida", admite Robert Spanó, que chegou da Itália meio século atrás pelo amor de uma islandesa e acabou se apaixonando pelas piscinas.

Este empresário aposentado de 80 anos transferiu o provérbio "em Roma, como os romanos" para a capital da Islândia.

Por esse motivo, nada todos os dias com sua esposa e encontra seus amigos na jacuzzi para conversar.

Política, esporte e clima: nada escapa às conversas que às vezes duram até uma hora, algo que eles não puderam transferir para outro lugar, devido à medida de distanciamento social.

Mais do que o vínculo social, "é especialmente do contato com a água que mais sinto falta", diz Kristinn Thórarinsson, de 23 anos, grande esperança da natação islandesa. Ele costuma treinar duas vezes ao dia.

Na pequena ilha do Atlântico Norte, a prática de banhos públicos é recente, facilitada pela abundância de água quente proveniente de fontes geotérmicas.

No início do século XX, pressionada por um aumento vertiginoso dos preços do petróleo e do carvão, a Islândia iniciou sua transição energética por necessidade.

- Natação obrigatória -

"Começamos a construir piscinas para higiene pessoal, atividade física e sobrevivência", diz Valdimar Hafstein, professor de Etnologia da Universidade da Islândia, em Reykjavik.

Nesse mesmo período, a ilha subártica, cuja economia era baseada na agricultura, optou pela pesca.

"Ninguém sabia nadar, então houve muitos afogamentos", diz Hafstein.

Por esse motivo, em 1940, o governo tornou a natação obrigatória nas escolas e lançou um plano de construção de piscinas que abrangia até as menores vilas.

Agora, a natação está profundamente enraizada na cultura islandesa, e o país tem uma piscina para cada 2.700 habitantes, uma das taxas mais altas do mundo.

A partir dos seis anos, no ambiente escolar, as crianças praticam natação várias vezes por semana, tornando esse esporte uma rotina diária.

Em 2019, o Comitê de Investigação de Acidentes de Transporte não lamentou nenhuma morte no mar pelo terceiro ano consecutivo e apenas pela sexta vez em mais de um século.

Embora longe do continente europeu, está a 1.472 quilômetros da Noruega, a ilha de 364.134 habitantes não foi poupada da nova pandemia de coronavírus.

A Islândia registrou oficialmente 1.799 casos de contaminação, incluindo dez mortes, desde o início da pandemia, mas o número de novas infecções diárias é quase zero desde 23 de abril.

E, embora tenha iniciado um desconfinamento gradual na segunda-feira, as piscinas, que geralmente fecham menos de cinco vezes por ano, permanecerão fechadas até 18 de maio.

A partir dessa data, apenas 50 pessoas serão admitidas ao mesmo tempo.

Enquanto isso, Spanó se refugia na cozinha: "Passo pelo menos duas horas por dia cozinhando, porque adoro comer comida italiana", conta.