Meio ambiente tem de voltar ao topo da agenda global

A forte onda de calor que atinge a Europa desde junho, com temperaturas na faixa dos 40 oC em cidades improváveis como Londres, é apenas a última evidência da urgência em deter as mudanças climáticas. Secas severas — a estiagem mais grave em 1.200 anos na Península Ibérica —, quebra de safra com preços em alta trazem uma outra faceta do aquecimento global: menos alimentos, comida mais cara, mais fome.

A Europa já enfrentara em 2021 outros eventos extremos. A Alemanha foi varrida por inundações, incêndios como os que agora atingem Espanha, Portugal e França destruíram florestas na Grécia. Numa cidade da Sicília, os termômetros chegaram a 51 oC. O tórrido verão europeu fortalece a convicção de que será necessário perseguir metas mais ambiciosas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. A COP 26, a reunião na Escócia no fim de 2021, deu prazo até o final deste ano para que os países as apresentem.

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O Acordo de Paris, de 2016, fixou em 2 oC o limite máximo de aumento da temperatura da Terra neste século em relação à era pré-industrial. Em Glasgow, criou-se o compromisso de tentar limitá-lo a 1,5 oC para evitar cenários catastróficos (estima-se que já tenha alcançado 1,1 oC). Mas de nada adianta apresentar metas e não cumpri-las. Infelizmente, o engajamento necessário está distante. Num momento em que a agenda global foi capturada pelos efeitos deletérios da guerra na Ucrânia na energia, na segurança alimentar e no equilíbrio geopolítico, o meio ambiente ficou em segundo plano.

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Nos Estados Unidos, segundo maior emissor de gases (atrás da China) e peça-chave para cumprir a meta global, a Suprema Corte limitou as ações da Casa Branca para conter emissões de usinas a carvão ou gás natural. Também fracassou o plano do presidente Joe Biden de aprovar um ambicioso pacote socioambiental no Congresso, graças à resistência do senador democrata da Virgínia Ocidental, estado dependente da produção de carvão mineral.

Na Europa, os países assumiram o compromisso de, até 2030, reduzir em 55% as emissões em comparação aos níveis de 1990. Para isso, pretendem investir € 1 trilhão em energia limpa, mas ainda dependem de consumir o gás natural russo nos volumes anteriores à guerra na Ucrânia. Como a Rússia não tem mantido o fornecimento em razão das sanções econômicas, países europeus se veem obrigados a reativar usinas termelétricas a carvão e a óleo, mais poluentes.

No Brasil, o desmatamento quebra recorde sobre recorde. Mesmo que a oposição vença as eleições em outubro, a situação ambiental na Amazônia não mudará de uma hora para outra. A devastação tem sua bancada política. Basta lembrar que a Assembleia de Roraima aprovou por unanimidade um Projeto de Lei proibindo destruir equipamentos apreendidos na fiscalização de garimpos ilegais — um absurdo.

Enquanto isso, eventos climáticos extremos como a canícula europeia têm se tornado mais frequentes e mais violentos. Sem o aquecimento global, a força das tempestades e inundações no Nordeste brasileiro entre maio e junho teria sido 20% menor, revelou estudo do World Weather Attribution. As vítimas ainda estão sobretudo na população de baixa renda, que mora em encostas ou áreas insalubres. A tendência, a continuar a falta de atenção com a agenda global do meio ambiente, é que em breve ninguém mais esteja seguro.

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