A melancolia de Messi e o frescor de Mbappé numa noite de contrastes

Carlos Eduardo Mansur
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A noite de terça-feira pode entrar para a história de Messi e do Barcelona. Salvo uma reviravolta inesperada em Paris, o astro argentino terá feito seu último jogo de Liga dos Campeões no Camp Nou pelo clube. Nesta mesma noite, o futuro — ou mesmo o presente — se exibiu.

Não que Mbappé seja uma revelação. Aos 22 anos, é campeão do mundo, autor de gol em final de Copa e, após os três que marcou nos 4 a 1 de ontem, chegou a 24 gols e 17 assistências em 41 partidas de Champions. Mas o contraste era inevitável. De um lado, aos 33 anos, Messi se via impotente em meio à dificílima reconstrução de time num Barcelona em crise política e econômica. Do outro, o jovem francês era a imagem do frescor.

Mbappé, cobrado nas últimas semanas pela falta de uma atuação como a que teve no Camp Nou, é artigo raro. É destes jovens atacantes velozes, rápidos, mas que em seus melhores momentos se revelam pouco ou nada dependentes de espaço. É evidente que sua capacidade de correr o torna imparável em campo aberto, ainda mais somada à sua técnica. Assim foi o terceiro gol dele, quando o Barcelona já se desmanchara em campo e oferecia espaços.

Mas o jovem representante da interminável linha de produção francesa é também conhecedor da área, como mostrou ao pegar o rebote de Piqué para marcar seu segundo gol. Ele se destaca demais pela capacidade de receber uma bola parado e acelerar, ir de zero a cem em fração de segundo, pela técnica e habilidade para resolver problemas em espaço curto. Seu primeiro gol do jogo é o mais notável. Após o passe de Verratti, recebeu na área cercado de marcadores, controlou a bola até driblar Lenglet e fuzilar Ter Stegen no gol do 1 a 1, seis minutos após Messi ter marcado de pênalti.

Fez tudo isso num jogo em que seu time não teve Di María e, claro, Neymar, o grande craque e protagonista do time, jogador de um nível acima do jovem francês. Caso o brasileiro se recupere para o jogo de volta, a já quase impossível tarefa do Barcelona ganha ares de inviabilidade.

Quanto ao Barcelona, o jogo parece reafirmar que estava correto o diagnóstico de Messi quando pediu para sair antes da última temporada de seu contrato: este Barcelona atual não é uma equipe de elite. A sensação de um time que progredia no Campeonato Espanhol sucumbiu de forma flagrante no primeiro mata-mata europeu. Koeman, de trabalho ainda embrionário, tenta implantar ideias. Mas há jogadores ou muito jovens ou numa curva descendente. O jogo deste terça-feira pareceu competitivo em excesso para Busquets e Piqué, por exemplo. A rigor, o Barcelona não estava à altura. É desafiadora demais a reconstrução de um time num ambiente de expectativas tão altas, de status tão elevado nesta era dos superclubes.

Ao fim desta temporada, talvez antes, espera-se que Messi anuncie seu destino. Resta saber se o jogo de ontem, diante de um rival que mistura jovens e jogadores perto do auge das carreiras, foi uma boa coleção de argumentos em favor do PSG. Além da possibilidade de competir de novo na Europa, Messi teria em Paris uma liga doméstica que, ao menos em teoria, não o obrigaria a 38 rodadas de um desgaste insustentável.

Em 2017, um 4 a 0 do PSG em Paris foi devolvido num histórico 6 a 1. Mas, desde então, vieram o 3 a 0 da Juventus, outro 3 a 0 da Roma, o 4 a 0 do Liverpool e, claro, o 8 a 2 do Bayern. Peso demais para um clube gigante.

Dois movimentos marcaram o duelo tático do jogo. Koeman fazia Messi recuar para organizar as jogadas, enquanto Griezmann partia da esquerda para o centro do ataque, com o lateral Jordi Alba ocupando o lado do campo. Enquanto isso, um dos meias atacava a área. Foi assim que Messi lançou De Jong e surgiu o pênalti.

Mas a movimentação de Mbappé da ponta para o meio, mais a pressão organizada do PSG e o ótimo jogo de Verratti iam, aos poucos, deixando o Barcelona sem respostas. Os catalães defendiam muito mal as jogadas dos laterais do PSG. Marquinhos buscava o tempo todo os passes longos para a esquerda, para Mbappé ou Kurzawa, jamais acompanhado pela marcação de Dembélé. Assim nasceu o gol de empate. Pela direita, Florenzi infiltrou sem marcação e criou o 2 a 1 para Mbappé. De cabeça, Kean fez o terceiro e, no contragolpe, Mbappé completou.

Em jogo disputado na Hungria, por causa das restrições à entrada de ingleses na Alemanha, o Liverpool fez 2 a 0 no Leipzig, gols de Salah e Mané. Hoje, às 17h, a Juventus enfrenta o Porto (transmissão no Facebook) e o Sevilla enfrenta o Borussia Dortmund (na TNT).