Vidas salvas e poder para a autoestima: o futebol de várzea é preto

Yahoo Notícias estreia hoje, em parceira com o Alma Preta, uma série de cinco episódios chamada MELANINA - AUTOESTIMA NA LUTA CONTRA O RACISMO.

No primeiro episódio, mergulhamos na várzea do futebol paulistano e acompanhamos o Inajar, tradicional time amador da zona norte de São Paulo, e o Angolanos FC, time composto apenas por imigrantes do país africano.

Futebol é muito mais que um jogo: é autoestima, é empoderamento. E para acompanhar nosso episódio, poeta Akins Kintê nos brinda com esse ensaio sobre futebol de várzea e o povo preto.

Várzea: o coração dentro e fora do campo

Foto: Mariana Prudência/Yahoo Notícias

Por Akins Kintê

É a música, a batucada, os cantos da cidade, do Grajaú a Ferraz de Vasconcelos, da Divinéia para os extremos campos varzeanos nas periferias de São Paulo. É a cor e a melanina - os pretão mesmo - vestindo a camisa do Índio, o nosso Inajar de Souza.

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O time nasceu em 28 de Agosto de 1978 e desde então a batucada e o batimento cadenciado do coração são o décimo segundo jogador da equipe.

futebol tem uma dignidade ancestral, resgatado a cada final de semana dentro das quatro linhas e nas beiradas do campo. Há um brilho na melanina e um sol gigante nos olhos desses atletas que resistem e põem sentido na vida.

Foto: Mariana Prudência/Yahoo Notícias

Os jogadores do Angola F.C também vêem no futebol o motivo para o encontro, celebrar suas músicas e cultura. É a reunião de imigrantes que aqui em São Paulo moram distantes e no domingão fazem aquilo mesmo: alegria e responsabilidade dentro de campo. Fora das quatro linhas, diversão e a memória afetiva, sempre celebrada nas beiradas do terrão.

O futebol brasileiro, aquele campeão de outrora, que punha medo no adversário, era um futebol com sua base nas ruas, nos campinhos, na improvisação. Nós, os apaixonados pela “bola véia”, dificilmente trocamos uma partida profissional por um pega na várzea. Aliás, peço gentileza com o termo várzea: não nos compare com suas bagunças, desorganizações e falcatruas, o varzeano nessa guerra maravilhosa de uns 70 minutos traz na sua proposta a responsabilidade.

A equipe do Inajar de Souza, time da favela da Divinéia, localizado na Vila Nova Cachoeirinha, representa 41 anos ininterruptos dessa história de beirada de campo. A Copa Negritude, torneio que acontece anualmente desde 1987, é outro exemplo dessa tradição.

Foto: Mariana Prudência/Yahoo Notícias

Quando nos aprofundamos nas periferias de São Paulo, encontramos times centenários, lutas intermináveis para manter os campos, organizações intensas dos times para a solidão não afagar a comunidade nos dias da Páscoa, Crianças e Natal. Está ali a favela buscando motivo para ficar em pé e encarar essa luta diária.

Não vejo presunção do pessoal de fazer o papel do “Estado”, mas a busca por uma vida digna é grande. É a corrida pela identidade nos nomes dos times, nos cabelos dos jogadores, nas cores do uniforme, nos gritos da torcida.

É também a certeza de que quanto mais essa identidade busca semelhança com o negro, quanto maior essa afinidade entre o time e a favela, maior a tensão com Estado. Quem já tomou geral com a camisa do time de várzea do coração sabe do que estamos falando.

Foto: Mariana Prudência/Yahoo Notícias

O futebol marcante brasileiro, aquele que ainda brinca com nossa memória, aquele campeão mundial, aquele de bagunçar adversários, tem sua base na criatividade.

É a ginga de quem teve que se virar com muito pouco, improvisar em dias chuvosos, instalar traves de paus no campo de terra.

E assim eu me criei, nas beiras dessa movimentação. Se pegar a maioria das fotos dos times antigos das décadas de 1980 e 1990, vai ver como era marcante a cor, o cabelo, o sorriso, a garra, alegria e a responsabilidade de quem carrega dentro dos olhos o orgulho da melanina e vê no futebol jogadas bonitas e leais para manter a dignidade de ser negro. Só vamos.