As melhores rodas de samba gratuitas do Rio de Janeiro

Foi no século XIX, no quintal de Hilária Batista de Almeida, a tão popular quanto imprescindível Tia Ciata, que as rodas de samba do Rio de Janeiro ganharam corpo e voz. Os encontros que reúnem, atualmente, pequenas multidões em praças, ruas e bares por todas as regiões da cidade continuam a preservar o legado desta baiana santamarense. Com dinheiro curto nos últimos dias do mês, conferir uma das rodas gratuitas que rolam neste que ó último final de semana do mês pode ser uma boa pedida para se divertir sem gastar.

— O samba é libertário e rebelde por natureza. As rodas são como jam sessions, baseadas nos improvisos. É esse libertarismo que nos move e atrai o público — diz Henrique de Souza, fundador do Centro Cultural Arteiros da Glória e responsável pelo movimento que tem feito do bairro o principal palco de rodas de samba gratuitas da cidade.

Há no Rio de Janeiro, atualmente, cerca de cem coletivos mapeados, segundo a Rede Carioca de Rodas de Samba (RS), associação que tem como meta resguardar e promover as rodas da capital como vetores de desenvolvimento socioeconômico nos territórios. De acordo com o geógrafo João Grand, que defendeu tese de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sobre o tema, em parceria com o Instituto Pereira Passos (IPP) e com a RS, apesar do hiato provocado pela pandemia as rodas continuam a desempenhar um importante papel de protagonismo e democratização de acesso à arte popular na cultura carioca.

— As rodas não são mais frequentadas apenas por um público historicamente marginalizado. Há uma nova geração composta por universitários. E também merece ressaltar que as mulheres vêm ocupando cada vez mais um lugar de destaque nesses encontros, seja como público ou musicista — destaca Grand, que até dezembro apresentará a atualização de sua pesquisa com a divulgação do Relatório do Mapa da Economia das Rodas de Samba

A seguir, um roteiro das principais rodas gratuitas dedicadas a sambas tradicionais que agitarão as quatro regiões cidade neste final de semana.

Roda do Ed Samba

Umas das oito rodas de samba que estão movimentando o bairro da Glória, o É de Samba parte do repertório clássicos de expoentes do gênero, como Cartola, Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola para dialogar com compositores da nova geração, entre esses Ferrugem, Mumuzinho e Thiaguinho. Praça do Russel, Glória. Dom, às 16h. Todo quarto domingo do mês.

Samba do Trabalhador no Amarelinho

A tradicional roda comandada Moacyr Luz no Clube Renascença tem aterrissado no Bar Amarelinho, na Cinelândia, em encontros gratuitos regados a chope gelado, ótima comida e muito samba. Neste sábado, haverá transmissão da final jogo do Flamengo. Compositor dos mais celebrados na cena das rodas de samba, Moacyr Luz lança mão de repertório autoral, apresentando canções feitas em parceria com Aldir Blanc, Wilson Moreira, Nei Lopes, Paulo César Pinheiro e Martinho da Vila. Bar Amarelinho. Cinelânia. Sáb, às 14h.

Samba do Nem e Banda Família Tia Doca

Herdeiro da saudosa Tia Doca, pastora da Velha Guarda da Portela, Nem da Doca está à frente da mais tradicional roda de samba da Zona Norte do Rio de Janeiro. Bebendo desde sempre na fonte do quintal da própria casa, ele passeia por composições de ilustres portelenses, como Monarco, Manacéa, Candeia, Paulinho da Viola, João Nogueira sem, no entanto, deixar de reverenciar a geração posterior integrada por Arlindo Cruz, Reinaldo, Jorge Aragão, Almir Guineto, entre outros. Centro Cultural Tia Doca, Rua João Vicente 219, Madureira. Dom, às 18h.

Samba da Cabeça Branca

Idealizado em 2013, o Samba da Cabeça Branca veio se consolidando ao longo desses nove anos como uma das mais atuantes rodas da Zona Oeste do Rio. Após encontros informais para tocar sambas tradicionais entre amigos de Padre Miguel e bairros adjacentes, o coletivo passou a ganhar notoriedade no território, o que tornaria evidente a importância do projeto no resgate e na preservação da memória dos expoentes do gênero. Nova Arena do Clube Recreativo Industriários de Bangu (CREIB). Rua H, Padre Miguel, próximo ao Ponto Chic). Sáb, às 13h.

Roda do Bip Bip

Inaugurado em 13 de dezembro de 1968, data em que foi decretado o AI-5 no Brasil, o Bip Bip é ponto de encontro dos amantes dos compositores clássicos do samba e do choro. Há 54 anos preserva a tradição de aliar música à gastronomia. Em 2019, após a morte de Alfredo Jacinto Melo, o inesquecível Alfredinho, cogitou-se o fechamento do bar, mas um movimento liderado por amigos e frequentadores, mantém o local vivo e sempre lotado. O violonista Tiago Prata é quem comanda a programação, que tem o samba como ponto de partida no diálogo com as novas gerações. Bip Bip: Rua Almirante Gonçaves 50, Copacabana. Dom, às 20h.