Membros da elite russa fazem críticas duras a Putin na Guerra da Ucrânia

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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 16.07.2014 - O presidente russo, Vladimir Putin. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Apesar do apoio maciço registrado em pesquisas ao presidente Vladimir Putin, quase dois meses após o russo ter invadido a Ucrânia, sinais de dissenso surgem mesmo entre a elite política e econômica do país.

Nesta terça, o magnata Oleg Tinkov foi ao Instagram fazer um violento ataque à chamada operação militar especial, eufemismo russo para a guerra que, desrespeitado pela mídia independente, gerou a virtual extinção desses meios na Rússia.

"Acordando de ressaca, os generais perceberam que têm um exército de m...", escreveu. "E como um exército pode ser bom se tudo no país é uma m... e atolada em nepotismo, bajulação e servilismo?", completou.

Ele apelou ao "Ocidente coletivo" para que "dê ao senhor Putin uma saída para ele livrar a cara e parar esse massacre". "Noventa por cento dos russos são contra essa guerra insana", afirmou. "Dez por cento pintam o Z [símbolo da invasão] porque são idiotas, mas todo país tem 10% de idiotas."

Tinkov, que mora em Londres e outras capitais europeias, é um dos empreendedores mais famosos da Rússia. Esteve envolvido em iniciativas que vão de redes de restaurante e marcas de cerveja a empresas de tecnologias, e, até deixar o banco que leva seu nome em 2020, era um dos 15 homens mais ricos da Rússia.

Playboy à moda antiga, disputou provas de ciclismo na Europa. Apesar do perfil, nunca foi considerado um oligarca clássico, que fez carreira à sombra de associação com o Estado, apesar de ter sido acusado de fraudes. Ainda assim, desde 2017 está no lista de oligarcas americana e, com a guerra, sofreu sanções que impediram acesso a seus bens, como o megaiate La Datcha.

Já na terça (19), outra dura crítica veio de uma política muito próxima do Kremlin. Natalia Poklonskaia morava na Crimeia ucraniana quando Putin a anexou, em 2014. Ela virou a procuradora-geral da nova região russa e, depois, foi eleita deputada pelo Rússia Unida, o partido de sustentação do governo Putin.

Em uma entrevista ao popular canal de YouTube Jivoi Gvozd (unha ao vivo, em russo), Natalia disse: "Essa letra Z simboliza tragédia e luto tanto para a Rússia quanto para a Ucrânia. Pessoas estão morrendo, casas e cidade foram destruídas, deixando milhões de refugiados. Meus dois países nativos estão se matando, e não é isso que eu quero", disse.

Ela foi repreendida pelo seu chefe na agência russa de relações internacionais, onde ela é diretora-adjunta. "O Z é símbolo da libertação da Ucrânia", disse Ievguêni Primakov nesta quarta. O Z latino não existe no alfabeto cirílico adotado pelo russo, e o Ministério da Defesa fez anúncios de que ela simbolizava frases como "pela vitória", que usa a letra russa equivalente no começo.

Há outros sinais de descontentamento, menos evidentes, aqui e ali. O mais famoso e incendiário apoiador de Putin na TV estatal, o apresentador de talk-show Vladimir Soloviev, questionou as circunstâncias da perda do cruzador Moskva, afundado na semana passada ou por mísseis ucranianos ou por um incêndio a bordo.

"Você tem de me dizer como conseguiu perdê-lo. Me diga, o que vocês estavam fazendo naquela área particular do mar Negro naquele momento?", afirmou, sem nomear seu acusado --obviamente, a Marinha da Rússia.

Soloviev continua um fiel soldado de Putin, contudo, mas a crítica específica reflete sugestões acerca da insatisfação no próprio Kremlin acerca dos rumos da guerra. Naturalmente, há muita especulação e pouquíssima informação, em especial na imprensa ocidental pró-Kiev.

Seja como for, na avaliação de observadores próximos como Sam Greene (King's College de Londres) e o cientista político russo Konstantin Frolov, essas fraturas no edifício de apoio a Putin ainda não significam um risco estrutural.

A elite do país está, após anos vivendo em comensalismo com o presidente, amarrada a suas decisões por ora. Além disso, a resistência do país ante as duras sanções aplicadas devido à guerra de certa foram deram uma plataforma retórica para Putin em seu embate contra o Ocidente.

Enquanto isso, o russo médio, segundo pesquisas estatais e também do independente Centro Levada, segue apoiando o presidente, com níveis acima de 80%.

Ele também aprova a guerra, mas aí os números são mais duvidosos pelo próprio ambiente público: lei aprovada logo depois do começo do conflito promete até 15 anos de cadeia para quem disseminar o que o Kremlin achar ser fake news sobre os militares e sua ação.

O grosso da população russa se informa pela TV estatal, enquanto a mídia independente foi ou fechada ou censurada. A classe média urbana, por sua vez, apela a sites baseados no exterior por meio de VPN, provedores remotos que escapam do jugo do governo, e a redes sociais como o Telegram.

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