Memorial na Lagoa às crianças mortas por bala perdida recebe placa em homenagem ao menino Kaio

Pedro Madeira
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Após o enterro nesta terça-feira do menino Kaio, quarta vítima fatal de disparo de arma de fogo no Rio, a ONG Rio de Paz adicionou uma placa em homenagem ao menino no memorial da Lagoa. Só neste ano, foram incluídos na instalação os nomes de Kaio Guilherme, Ray Pinto, Ana Clara Gomes e Alice Pamplona. Para coordenador de projetos da ONG, Lucas Louback, o ato é um protesto contra essa realidade que acumula a morte de 87 crianças desde 2007. Em 2021, já são quatro casos, uma média de uma por mês.

Segundo Louback, as placas estão localizadas na Lagoa justamente para mostrar o drama que ocorre em comunidades e favelas à população da área nobre da cidade. Ele ressalta que, com o crescimento no número de crianças vítimas da violência na cidade, não foi possível manter homenagens anteriores ao ano de 2020 por falta de espaço.

- Um dos sinais que apontam a tragédia social no Rio de Janeiro é o número de crianças mortas por balas perdidas. Cada novo caso nós fazemos as seguintes perguntas: por que e como há tanta arma e munição espalhada no Rio de Janeiro? Por que a grande parte desses casos não são elucidados? Por que o estado permanece com a mesma política de segurança pública de décadas? E, por fim, por que não há o acolhimento pelo estado dessas famílias, a maioria delas pobre? - disse Louback

Situado na Curva do Calombo, na altura do 3666, as placas do memorial contém inscrições com o nome, idade e as causas da morte. A iniciativa começou após o médico Jaime Gold, de 55 anos, ser morto a facadas por dois jovens enquanto andava de bicicleta no local.

Louback recorda que a omissão do estado em dar suporte às famílias das vítimas levou à ONG a pagar pelo enterro do adolescente Ray Pinto Faria, de 14 anos, que foi morto em fevereiro deste ano durante uma operação polícial em Campinho, Zona Norte do Rio. No caso das meninas Emily Victoria, de 4 anos, e Rebeca Beatriz Rodrigues, de 7 anos, ambas vítimas em Duque de Caxias após tiroteio na comunidade do Santo Antônio, o Rio de Paz doou aos familiares um ticket refeição. Outros movimentos sociais também organizaram campnhas de auxílio.

- Se não fosse a sociedade civil e as entidades dando assitência psicológica e apoio jurídico, a maioria dos familiares ficariam desamparados - afirma Louback.

O menino Kaio foi a centésima criança baleada na Região Metropolitana fluminense nos últimos cinco anos, seis delas apenas nestes primeiros meses de 2021, segundo levantamento do Fogo Cruzado. O garoto, atingido por uma bala perdida na cabeça, morreu no último domingo após oito dias internados. A família do garoto decidiu que vai doar os órgãos de Kaio.