Menina de 6 anos vivia rotina de privações e violência com mãe e madrasta, diz testemunha

WALESKA BORGES
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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A menina de 6 anos que está internada em estado grave no Rio de Janeiro vivia uma rotina de violência e privações com a madrasta, Brena Luane Barbosa Nunes, 25. É o que conta a dona de casa Rosangela Nunes, 50, mãe de Brena. Segundo ela, a companheira de Brena e mãe da menina, Gilmara Oliveira de Farias, 28, também batia na menina. O casal, preso sob suspeita de tortura, foi transferido nesta sexta-feira (23) de Volta Redonda para o Instituto Penal Santo Expedito, em Bangu, na capital fluminense. Até o fim da manhã desta sexta, a criança continuava internada em estado grave em um hospital particular de Resende. A criança estava em estado gravíssimo, "mantendo coma arreflexo [ausência de reflexos]. Com deterioração das funções vitais nas últimas 12 horas, apresentando hipotermia, hipotensão arterial e queda do volume urinário. Mantido com dieta por sonda. Controle laboratorial”, informa o último relatório médico. A Defensoria Pública do Rio informou que participou da audiência de custódia do casal. No entanto, como ainda não há ação penal em curso, o órgão não foi formalmente constituído para o caso. O crime é investigado pela 100° DP, de Porto Real, que autuou as duas mulheres em flagrante pelo crime de tortura. Testemunhas estão sendo ouvidas e as investigações continuam. De acordo com Rosangela, que responde em liberdade por omissão, a menina já teve bonecas queimadas, os brinquedos quebrados e era impedida de comer pela madrasta como formas de castigo. Rosangela disse ainda que Brena impedia a criança até de transitar pela cozinha da casa e que Gilmara, a mãe da menina, era conivente com os maus-tratos. “Ela [a criança] vivia deitada no colchão do quarto, onde fica a minha mãe, de 86 anos. Ela é muito bobinha. Recebia os castigos sem reclamar, apenas chorava. Não pedia socorro para mãe porque ela também ajudava a bater”, diz. A dona de casa conta que, no último fim de semana, quando ocorreram as agressões mais recentes, como castigo por abrir três caixas de leite, a criança foi agredida com pedaços de pau, um cabo de fibra óptica e chegou a ser impedida de ir ao banheiro. “A Brena só deixava dar para a menina café com farinha.” Segundo Rosangela, as agressões iniciaram na sexta-feira. “A mãe dela [Gilmara] deu uma chinelada primeiro na menina, mas, depois, a Brena [a madrasta] deu chutes, bateu nela com um pau, com um cabo e ainda bateu a cabeça dela na parede. A Gilmara também batia. Quando as duas se trancavam no quarto, eu dava comida escondida para a menina”, disse Rosangela. Na segunda-feira, depois das agressões, a menina estava sem reação, segundo Rosangela. Ela ficou mole, sem falar e com o olho meio aberto e Gilmara pediu socorro ao Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). A dona de casa lembrou que a mãe da menina chegou a falar para os médicos que pedaços de madeira tinham caído nela. “Os médicos pediram para eu falar a verdade, mas, naquela hora, eu não podia. Disse que depois contaria tudo.” Rosangela não denunciou a filha por medo. Ela conta que sempre era agredida por Brena —a última vez teria sido no Ano Novo. “Ela me bateu com pedaço de pau. Bateu na minha barriga e tive até hemorragia na vagina. Também precisei dar pontos no dedo. Ela também deu socos no rosto da minha mãe de 86 anos. Dizia que, se a polícia aparecesse, mataria a gente.” A criança vivia em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e veio a Porto Real com a mãe em julho do ano passado. “Eu disse para a Gilmara não trazer a criança para minha casa. A Brena não gostava de criança. Quando viu o caso do menino que morreu no Rio [Henry Borel], ela me disse ‘esses demônios [as crianças] têm que morrer mesmo’”, contou Rosangela, revelando que começou a apanhar da filha quando ela completou 18 anos. Ainda conforme a dona de casa, Brena e Gilmara não trabalhavam. A casa era mantida com os recursos da pensão da avó dela. “A Brena chegou a receber o auxílio emergencial, mas gastava tudo com cachaça. Vivia bêbada”, conta. Rosangela disse ainda que, depois da prisão, não teve mais contato com a filha. Outro caso de violência contra criança no Rio que ganhou repercussão é o do garoto Henry Borel Medeiros, 4, que morreu com sinais de violência em março, na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio. Foram presos a mãe dele, a professora Monique Medeiros, e o padrasto, o vereador Jairo Souza Santos, conhecido como Dr. Jairinho. O laudo de necropsia de Henry mostrou que a criança já chegou morta ao hospital e que as causas do óbito foram “hemorragia interna" e "laceração hepática" (lesão no fígado), produzidas por uma "ação contundente" (violenta). Já a investigação sobre o caso dos meninos Lucas Matheus, Alexandre e Fernando Henrique, desaparecidos em Belford Roxo, também no Rio, desde o final de dezembro, ainda patina.