Menino Henry é retratado como anjo em mural em rua da Zona Norte do Rio

Carolina Callegari
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RIO — O menino Henry Borel, de 4 anos, que morreu há um mês, foi homenageado com um mural feito por artistas e grafiteiros em Rocha Miranda, na Zona Norte do Rio, neste sábado, dia 10. O grafiti, num muro na Estrada do Barro Vermelho, traz a criança representada como um anjo, com asas e uma auréola. As cores contrastam com o fundo que traz o padrasto, o vereador e médico Dr. Jairinho, e a mãe de Henry, Monique Medeiros, desenhados como demônios, com chifres, olhos vermelhos e um tridente. O casal é acusado pela morte do menino, e foi preso na última quinta-feira.

A ideia para o desenho surgiu a partir de uma foto sobre o caso estampada nas capas dos jornais, na sexta-feira, e que foi vista por Murilo Lemos, de 33 anos. Na hora o convite de fazer o mural foi enviado para os amigos do coletivo de grafiti 400ml Crew. O projeto foi iniciado e concluído no sábado, com a pintura no muro de cerca de 6 metros de comprimento e 3 metros de altura, feito das 7h às 18h, com ajuda dos amigos e grafiteiros Thiago Harynk e Alex Bomb.

O local para receber a obra foi estratégico, mesmo que a quilômetros do apartamento na Barra da Tijuca onde Henry morreu. O amplo muro em Rocha Miranda é em frente a um sinal de trânsito demorado, numa via com circulação de ônibus para diversos bairros. Mesmo antes de ser finalizado, o desenho chamava a atenção.

— Eu nunca tinha pintado da forma como foi. Com a pintura do muro, os ônibus paravam, as pessoas com o celular de fora da janela, pediam "pelo amor de Deus, tira a escada" para fotografarem, Os carros buzinando, sem saber porque o ônibus não andava, e depois eles paravam para tirar fotos também — conta Murilo, pintor há mais de 20 anos e grafiteiro há 4 anos, incluindo na Comlurb, empresa onde trabalha.

Antes que o mural fosse finalizado, a imagem tomou as redes sociais, com elogios e críticas negativas. Thiago Harynk, de 36 anos, — grafiteiro e dono de uma loja destinada à atividade — não esperava a repercussão, incluindo as dezenas de pessoas que paravam para conversar sobre a obra e sobre o caso. Pai de três filhos, com o caçula com 4 anos, vê a obra como um alerta.

— Muita gente achou a imagem pesada, outras concordaram. As pessoas não entenderam muito a nossa proposta, que é mostrar a realidade, o bem e o mau, o sofrimento daquela criança com a família. Não foi só uma homenagem, foi um protesto — destaca Thiago. — Nossa intenção foi chocar, chamar a atenção. Se fizesse só o menino, ia ficar bonito, mas não iria passar a realidade.

Entre os transeuntes, um tio de Henry se deparou com a homenagem. Numa conversa rápida, um click e o número de telefone de Murilo anotado renderam o contato do pai do menino, Leniel Borel de Almeida Jr., quase que imediatamente.

— Um tio do Henry passou na hora e falou que queria bater uma foto, enviar para o pai do Henry. Em questão de minutos o pai dele entrou em contato comigo, elogiando a pintura, chorando bastante, disse que quer que a gente se conheça — conta Murilo.

O impacto da notícia da morte do menino de apenas 4 anos foi maior quando o artista pensou no próprio filho, João Gabriel, que tem a mesma idade.

— Me impactou bastante, o Henry tinha a idade do meu filho. Eu não queria nem imaginar como é estar na pele desse pai. É complicado demais — diz.

Thiago, que é pai de três meninos — um de 15, outro de 9 e o caçula de 4 anos —, também se sensibilizou ao pensar em Leniel Borel. O artista se dedicou a pintar Henry, e espera que a obra sirva como alerta:

— Impossível não sentir a dor de um pai. Isso me comoveu muito — afirma. — A imagem impactando pode abrir o olho de um parente, de um vizinho que às vezes não desconfia de uma pessoa, mas a criança vem dando sinais, Tem que observar mesmo.