Menino que morou 13 anos na rua vira massagista do CRB: “Hoje posso construir a minha vida”

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Cajuru em treino do CRB. Foto: Victor Martiniano/CRB
Cajuru em treino do CRB. Foto: Victor Martiniano/CRB

O menino que morou 13 anos na rua hoje trabalha no CRB como massagista. Alexandre da Silva Santos, o Cajuru, deixou a própria casa aos cinco anos de idade porque vivia em um ambiente difícil. Sem renda e sem a possibilidade de conseguir uma, teve de batalhar no meio de outros tantos meninos de rua.

E, se no meio disso tudo já enfrentava a fome, eram inimigos também os garotos mais velhos e as ameaças de não ter um teto para dormir. Era comum sofrer agressões para entregar o dinheiro ou passar três dias sem andar porque os mais velhos queimavam guardanapos nas solas dos pés de Cajuru.

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Mas o menino que saiu da rua nunca se viu como menino. Aos oito anos de idade, ele descobriu o CRB e começou a andar pelo clube. Como não podia desempenhar função alguma, se contentava em ajudar a pegar as bolas ao redor do campo durante os treinos e até pulava o muro das instalações para dormir escondido sob as arquibancadas. Quando o vigilante descobria, é claro, tinha que sair.

"É difícil olhar para trás e imaginar tudo isso que passou. É impossível esquecer das coisas, mas que bom que a minha história pode ajudar a inspirar outras pessoas. Os meninos de rua sofrem muito preconceito. Eu mesmo já ouvi que não passaria dos 18 anos e hoje estou aqui aos 29. Já fui chamado de ladrão e de tanta coisa. Estou aqui e garanto o meu sustento", diz Cajuru.

Cajuru só saiu da rua em 2008. Morou junto do lateral-direito do Palmeiras, Marcos Rocha, que em entrevista ao Yahoo já revelou as dificuldades que passou na carreira durante a época em Alagoas, e ambos pularam refeições e batalharam juntos. Marcos foi embora e Cajuru teve de dar seu jeito. Arrumou emprego em uma barraca e morava nela mesmo.

De 1999 a 2010, ele esteve ajudando o CRB. Não tinha função própria, mas trocava o serviço por comida ou por um auxílio. Na rua se aprende sobrevivência, diz ele, e se tem muitos motivos para entrar no caminho errado. Em 2009, durante uma viagem que surgiu do acaso, apenas para acompanhar um amigo que iria levar alguns garotos para teste no Cruzeiro, Cajuru tornou-se massagista.

"Esse meu amigo, o Gustavo, só queria alguém para voltar com ele se os meninos ficassem na base. Quando chegamos ao Cruzeiro, falamos com algumas pessoas e descobrimos esse curso de massagista. Eu só estudei até a 6ª série, mas fui lá, fiz o curso e voltei para Maceió com o curso de massagista."

As coisas só engrenaram de verdade em 2013, com a ajuda de Daniel Paes, a quem Cajuru considera um pai, e Thiago Paes, que também é um grande amigo. Trabalhando na base do CRB e em busca de um massagista, foi o nome de Cajuru que apareceu no topo da lista. Dali, ele passou por clubes menores de Alagoas até 2017, quando ficou desempregado. Foram quase quatro anos sem renda fixa.

"Até dois meses atrás eu estava sem emprego. Eu não tinha o dinheiro de comprar o pão. Tinha estresse em casa com minha esposa, não comprava fraldas para a minha filha… Meu Deus, como era difícil. Então recebi esse convite para voltar ao CRB como massagista. Aceitei na hora. Agarrei a oportunidade. Hoje vejo o mês fechar e tenho condições de dar o melhor à minha família. Fiz muitos bicos, onde tinha oportunidade eu estava, mas agora estou no clube que amo e fazendo o que me profissionalizei", diz.

Durante a entrevista ao Yahoo Esportes, Cajuru se emociona. Apesar de ter uma grande história, essa havia sido a primeira vez em que parou para se tornar eterno em uma matéria de jornal. Para quem ouvia que não teria sucesso na vida, o menino que saiu da rua destruiu os discursos preconceituosos.

"Meu grande sonho é ter a minha casa própria. Hoje posso construir a minha vida. Sou abraçado por todos. Os jogadores do clube olham para mim, sabem o que passei e me valorizam. Sou valorizado pela torcida. É bom demais receber esse carinho. Faço 30 anos daqui a pouco e agora estou começando a ver os frutos do que tanto perseverei. Já chorei tantas vezes que você não faz ideia."

Cajuru tem histórias com jogadores nacionais e internacionais. Além de Marcos Rocha, o massagista do CRB também conviveu com Luiz Gustavo, ex-Seleção Brasileira e atualmente no Fenerhbaçe, e com o alagoano Otávio, que está no Bordeaux. No plantel do CRB, que eliminou o Palmeiras na Copa do Brasil e derrotou o Cruzeiro na Série B, o massagista é querido. Até já viajou com os jogadores.

"Já havia viajado de avião em outras oportunidades, mas contra o Goiás (pela Série B) foi a primeira vez com os profissionais. Me ligaram no domingo e eu passei meus dados. Quando cheguei ao avião, fiquei olhando para baixo e vendo tudo isso que passei. Bateu uma emoção, sabe? É engraçado que viajei como roupeiro, mas isso mostra o quanto já fiz no CRB. Eu quero sempre ajudar. Não consigo ficar parado".

O menino que saiu da rua andava muito sozinho. Hoje não mais. Se está no CRB, é abraçado pelos colegas de trabalho. Quando chega em casa, se agarra nos braços da esposa e das filhas. Ser sozinho na rua é algo que não se esquece, mas que bom que Cajuru agora sabe o que é ser acompanhado.

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