Menos médicos, mais dificuldades

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Como os profissionais de saúde indígenas ficaram à própria sorte com o desmonte do programa e escalada bolsonarista no CFM

Dezesseis horas atravessando a barco o Rio Madeira, bacia do Amazonas (AM), é o tempo que Cristiano Ferreira, 38 anos, leva da aldeia Coatá-Laranjal, localizada no município de Borba até Manaus. Ele percorre esse trajeto até a capital amazonense porque em sua aldeia o acesso à internet é limitado e o percurso tem um objetivo importante: estudar para o Revalida, exame nacional exigido para brasileiros que cursaram medicina no exterior. Ele é um médico indígena formado pelo Mais Médicos em Cuba, por causa da obrigatoriedade do certificado, implementada no governo de Jair Bolsonaro (PL), precisa da validação para continuar a exercer a profissão que foi interrompida com o fim do contrato em 5 de julho de 2021 — data que ele sabe de cor. Desde então, se dedica integralmente aos estudos acompanhando canais de concursos de medicina no YouTube, solução mais viável para ele que não tem recursos financeiros para pagar por um curso preparatório.

O programa Mais Médicos foi criado em 2013, pela então presidente Dilma Rousseff (PT), com o objetivo de enviar profissionais da saúde para regiões pobres e carentes de cobertura médica. Segundo um relatório da Sesai divulgado em 2019, a média de atendimentos realizados por essas equipes aumentou de 1,56 atendimento por habitante, em 2014, para 6,32, em 2017.

Ubirajara é o nome indígena de Ferreira e significa “senhor da lança”, como ele me explica. Nascido na comunidade Munduruku, constituída por cerca de 14 mil pessoas que habitam as margens do rio Tapajós e dos seus afluentes nos estados do Pará e Amazonas, no norte do Brasil, viu no programa a janela para um futuro melhor ao ser a primeira pessoa em sua família a ingressar no ensino superior. Ao ser questionado sobre a data da formatura da sua graduação ele nem hesita, responde de prontidão: 14 de outubro de 2014. “Larguei a família, tudo para ficar praticamente oito anos em Cuba. E o que aconteceu, moça? Estávamos com a expectativa de realizar um sonho, se tornar médico. Passei todo esse tempo lá com muita dificuldade, como sempre e consegui me graduar”, desabafa ao falar da experiência de estudar fora e das dificuldades que enfrenta para passar no exame.

Um estrangeiro no próprio país

De volta ao Brasil, Ferreira trabalhou no atendimento médico nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) Alto Solimões e Manaus. Atuou na linha de frente contra a Covid-19 e, também, por causa da barreira sanitária imposta para conter o avanço do vírus nas comunidades aldeadas, foi por alguns meses o único médico a trabalhar no atendimento primário em Coatá-Laranjal durante a pandemia.

O isolamento em hospitais tem consequências devastadoras para os indígenas e também para a sua comunidade. Mesmo que eles tenham aprendido com as experiências anteriores de epidemias — como a de rubéola, propagada por agentes do Serviço de Proteção ao Índios (SPI) em 1960, e a segunda, de sarampo, em 1967, trazida pela filha de um dos pastores da New Tribes Mission, estabelecidos entre os Yanomami também na década de 60 — que em momentos de enfermidades é importante procurar um local seguro, a concepção de isolamento para os povos originários é diferente do que os não-indígenas estão acostumados: a ideia de ficar sozinho para eles é algo quase incompreensível.

É bicho? É gente? Como é transmitido algo que não se pode enxergar? Como vamos nos isolar do nosso parente no momento em que ele mais precisa? Foram algumas das perguntas que chegaram aos profissionais de saúde. A atividade de frentes religiosas também apareceu como entrave à campanha de imunização contra a Covid-19. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) lançou a campanha "Vacina, parente!". Para reverter o cenário de desinformação, os médicos indígenas foram de porta em porta em suas aldeias para alertar a comunidade sobre a importância da vacina.

“O meu primeiro paciente de Covid-19 era um indígena de 82 anos da minha aldeia. Começou com febre e tosse, fui fazer o exame nele e o pulmão estava com falta de ar, sinais de pneumonia. A gente já sabia que a Covid tinha estourado no Brasil. Como ele era idoso, foi mandado para Manaus e nessa época tinha uma crise de oxigênio. Ele nunca tinha saído da aldeia dele, ficou isolado e morreu em Manaus longe de sua família”, relembra Ferreira.

Cristiano Ferreira durante atendimento em sua comunidade (Foto: Arquivo pessoal)
Cristiano Ferreira durante atendimento em sua comunidade (Foto: Arquivo pessoal)

Aparecida Vilaça é graduada em Biologia com especialização em Ecologia, mestre e doutora em Antropologia Social no Museu Nacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Autora dos livros “Paletó e eu - memórias de meu pai indígena” e “Morte na floresta”, publicados pela editora Todavia, conta como as relações sociais indígenas são impensáveis sem a proximidade física, imposta pelo isolamento social da Covid-19, já que as demonstrações de afeto e carinho, concebidas por eles como constituintes de pessoas saudáveis e plenamente humanas, tornaram-se, com a pandemia, vetores da enfermidade e, muitas vezes, da morte. “A ideia de isolamento, se isolar dos seus parentes é inconcebível porque a vida social é essencial para a constituição da pessoa. As relações se fazem em contato, em troca de comida, em dormir, comer junto”, afirma Vilaça.

Os indígenas também sofrem as consequências do desmonte no sistema público de saúde. O atendimento aos povos indígenas é uma atribuição da Sesai, subordinada ao Ministério da Saúde. O órgão administra 35 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), responsáveis pelos cuidados de cerca de 765.600 indígenas em todo o Brasil.

Mas após seis anos exercendo a profissão e atendendo aos seus, Ferreira foi impedido de continuar a trabalhar porque o vínculo da prestação de serviços como médico pelo Mais Médicos chegou ao fim. Januário Carneiro da Cunha Neto, coordenador Distrital de Saúde Indígena em Manaus, acompanhou o trabalho de Ferreira durante esse período: “fez um trabalho exemplar, importante e relevante para a comunidade indìgena e cumpriu os seis anos previstos no edital prestando um grande serviço”, elogia.

"O governo Bolsonaro nos deixa totalmente fora. A gente tem que lutar com o que tem”, diz ao falar sobre a exigência do exame Revalida e as ofensivas contra os povos originários promovidas pelo atual governo brasileiro. “A gente fez um trabalho perfeito, por mais que a gente não tenha o nosso CRM [registro profissional para médicos, a sigla é uma derivação de Conselho Regional de Medicina], a gente tem um diploma verdadeiro. A gente precisa que o governo nos apoie nisso. A gente é um estranho no nosso país. O que me deixa orgulhoso é saber que eu não virei uma estatística no mundo, não virei um drogado, não virei um traficante. Lutei muito para estudar. Às vezes bate a depressão porque a gente luta e o nosso governo, o nosso país, não nos apoia”, afirma.

A desigualdade brasileira, potencializada pela crise econômica, fruto da instabilidade política e da pandemia de Covid-19, coloca os indígenas ao lado dos pobres e pessoas em situação de vulnerabilidade. Publicado em julho de 2020, relatório do Banco Mundial “A América Latina Indígena no século 21”, revelou que a redução sem precedentes da desigualdade no continente — mesmo possibilitando que mais de 70 milhões de pessoas saíssem da pobreza em 10 anos — não alcançou da mesma forma os povos indígenas. Como resultado de um padrão persistente de exclusão social, afirma o Banco Mundial, os povos indígenas representavam à época cerca de 14% dos pobres e 17% dos extremamente pobres na América Latina, apesar de somarem menos de 8% da população.

Embora o dado esteja defasado, o censo de 2010, produzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicava que a população indígena brasileira era composta por 896,9 mil pessoas, de 305 etnias. No entanto, mesmo eles sendo parte do grupo prioritário de vacinação, o Ministério da Saúde ainda não foi capaz de completar a imunização nem da metade dos indígenas aldeados.

“Lutei muito para estudar”, afirma Cristiano Ferreira que passou oito anos em Cuba para estudar Medicina pelo programa Mais Médicos  (Foto: Arquivo pessoal)
“Lutei muito para estudar”, afirma Cristiano Ferreira que passou oito anos em Cuba para estudar Medicina pelo programa Mais Médicos (Foto: Arquivo pessoal)

A população indígena desenvolve suas formas de autonomia, sendo o acesso à educação o principal agente dessa transformação. É o caso de André Baniwa, nascido na comunidade Tucumã Rupitáàs, à beira do Rio Içana, na fronteira do Brasil com a Colômbia e Venezuela, liderança na reunificação do seu povo, sua escrita e sua fala, que foram divididas pelas religiões católicas e evangélicas. “A educação é fundamental como instrumento de luta, para a reconstrução do nosso bem viver. Porque o Estado, o capitalismo nos desvalorizaram muito, por muito tempo. A gente precisa desenvolver as nossas próprias iniciativas. A educação é uma maneira da gente construir esse sistema de sustentabilidade”, afirma Baniwa.

O povo Baniwa, habita a bacia do rio Içana no município de São Gabriel da Cachoeira, também no Amazonas, e acredita que o mundo e a humanidade foram criados na cachoeira de Hipana, o umbigo do mundo, “onde tudo começou e onde tudo vai acabar”, como relata Baniwa em seu livro “Bem viver e viver bem: segundo o povo Baniwa no noroeste amazônico brasileiro”. A comunidade, assim como outras aldeias indígenas, convive com a presença de missionários católicos desde 1657. Entre as missões que se perpetuaram ao longo dos séculos, está a Missão Salesiana que chegou ao rio Negro, com apoio do do governo federal, para “educar” e catequizar os indígenas.

“Reconstruir o bem viver dos povos indígenas. Essa é a ponte de contribuição para combater a mudança climática, o aquecimento global e melhorar o serviço de saúde dos povos indígenas. O Estado não é ruim, as pessoas que dirigem os cargos é que são pessoas más”, comenta o líder Baniwa, referindo-se ao desmonte dos órgãos de fiscalização ambientais e indigenistas no Brasil.

Sildo Gonzaga, o médico ticuna

Sildo Gonzaga, tem 35 anos, é da etnia Ticuna, seu nome indígena é Yagacü. Ele vive na Terra Indígena (TI)I Betânia, no município amazonense de Santo Antônio do Içá, no Alto Solimões.

O Mais Médicos também foi uma oportunidade única em sua vida e, pôde assim, ter uma profissão e atender a sua comunidade. Depois da graduação em Cuba, cursou especialização em saúde indigena na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Por quatro anos atendeu as comunidades indígenas do Polo Base Filadélfia, no município de Tabatinga (AM). Após esse período voltou para a sua aldeia em Vila Betânia.

Em 2017, Gonzaga recebeu a Ordem do Mérito Médico. Na ocasião, ele e mais 11 profissionais foram condecorados pelo então presidente da República, Michel Temer (MDB), em cerimônia no Palácio do Planalto, como reconhecimento pelo trabalho desenvolvido por esses profissionais. O episódio também ficou marcado por uma fala preconceituosa de Temer ao dizer que o médico indígena tinha sido "muito aplaudido, como um integrante do Ministério da Saúde". Durante a formação dos ministérios, o governo Temer foi criticado pela falta de pluralidade na composição dos gabinetes.

Gonzaga conta que o atendimento aos pacientes durante a pandemia de Covid-19 marcou a sua vida. "A gente não parava. Fizemos uma visita na comunidade, teve dia que chegamos a ir em umas 40 casas para atender pacientes em situação de emergência. Tinha uma idosa que estava com dificuldade para respirar e diabete mellitus. Fui com ela até o hospital, mas não resistiu. O que eu pude fazer eu fiz, mas, infelizmente, teve gente que chegou ao hospital e não resistiu. Isso marcou”, desabafa.

Sildo Gonzaga atendendo aos pacientes em meio a pandemia de Covid-19 (Foto: Arquivo pessoal)
Sildo Gonzaga atendendo aos pacientes em meio a pandemia de Covid-19 (Foto: Arquivo pessoal)

O edital do programa teve fim em julho de 2021 e desde então ele, assim como Ferreira — que estudaram juntos em Cuba — estão sem exercer a profissão.

Ambos relataram que, embora a maioria das populações indígenas tenham se vacinado, o negacionismo promovido pelo governo federal, reforçado por pastores que atuam em algumas comunidades, contribuiu para a desinformação sobre a imunização contra o coronavírus.

No imaginário de alguns povos indígenas a possibilidade de um homem se transformar em animal é real, e muitas vezes, temida. A combinação desse medo é um terreno fértil para a proliferação de informações falsas, e potencializada, pelo ingrediente religioso: a influência evangélica entre esses povos. Pastores que trabalham próximos aos indígenas vêm reforçando narrativas antivacina com mensagens falsas de que o imunizante seria “coisa do demônio” ou que uma pessoa poderia “virar jacaré” ao tomar a vacina. Essa última mentira foi dita pelo presidente Bolsonaro, que desencorajou a vacinação contra a Covid-19 compartilhando informações falsas e recomendando remédios comprovadamente ineficazes contra a doença, como cloroquina e ivermectina.

"Enfrentamos uma desinformação muito grande, muita fake news no sentido da inutilidade da máscara, questionamento sobre a vacina. Entre os povos indígenas havia as ações antivacina feitas por pastores de igreja. Circulou áudio de pastores desencorajando a vacinação", diz Adriana Ramos, assessora política e de direito socioambiental do Instituto Socioambiental (ISA).

Um medicamento é considerado eficaz após passar por estudos clínicos e metodológicos que atestem seus benefícios e riscos. Estudo publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em março de 2021 sobre medicamentos preventivos “faz uma recomendação forte contra o uso de hidroxicloroquina”, após a análise de seis estudos.

Até o momento, não há estudos suficientes que comprovem o benefício da ivermectina na prevenção ou tratamento em qualquer estágio da doença. Em outro documento, a OMS diz que não existem “evidências persuasivas de um mecanismo de ação da ivermectina na Covid-19” e não recomenda o uso medicamento para esses fins, exceto no contexto de um ensaio clínico.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é responsável pela avaliação e aprovação de medicamentos no Brasil. Para um imunizante ser liberado no país o órgão analisa como ele foi produzido, os estudos e embasamentos técnicos que concluíram pela segurança e eficácia do medicamento. Após a liberação do uso em seres humanos, a Anvisa também faz o monitoramento para possíveis eventos adversos

Mariana Varella, jornalista especializada em saúde e editora-chefe do Portal Drauzio Varella, comenta sobre o cenário da desinformação no Brasil em meio a pandemia de Covid-19. “Sabemos que a área da saúde tem muita desinformação, não é um fenômeno novo. Mas teve uma proporção surreal nessa pandemia. Esse tem sido o principal desafio: fornecer informação qualificada”, afirma. E complementa sobre as atitudes adotadas pelo Poder Executivo: “o governo não foi omisso, ele foi bem ativo. Ele escolheu um caminho completamente contrário ao que era indicado por quem pensa política pública em saúde. O governo jogou contra o tempo inteiro, negou evidências científicas e gerou mais insegurança.”

Diante desse cenário, como explicar para o seu povo a importância do isolamento e proteção contra algo que não é palpável? Gonzaga afirma que no início da pandemia encontrou resistência de alguns parentes que se opunham ao isolamento — medida recomendada pelas autoridades de saúde para conter a propagação do vírus. “Imagina só, você está com o seu filho, companheiro, pai e mãe sofrendo com a doença. Eles davam a orientação de ir para o hospital, fazer a quarentena e seguir com as medidas de isolamento, mas preferiram ficar unidos com os familiares”, rememora sobre o atendimento à população indígena durante o período.

Quando perguntado sobre os seus sonhos, Gonzaga silencia por alguns segundos, e afirma: “era fazer o que estava ao meu alcance para a minha comunidade, atender as pessoas”. No entanto, esse sonho está suspenso porque, após pressões das classes médicas, o governo Bolsonaro decidiu acabar com o programa Mais Médicos e exigir o exame Revalida para os profissionais brasileiros, que assim como Gonzaga e Ferreira, se formaram no exterior.

Bolsonarismo e o Conselho Federal de Medicina

“Desde o início da pandemia, apoiamos a autonomia do médico na busca do tratamento precoce, seguindo recomendação do nosso Conselho Federal de Medicina (CFM)”, discursou o presidente Bolsonaro na 76ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) em Nova York, no dia 26 de setembro de 2021.

Na ocasião, assim como em outros momentos de seu mandato, defendeu o uso de medicamentos comprovadamente ineficazes contra a Covid-19 e, para isso, ancorava-se em uma suposta anuência do CFM, que havia autorizado o uso de medicamentos off label (fora da bula) no início da pandemia no Brasil. Até hoje, apesar de não existir evidência científica sobre o uso do chamado “Kit Covid” no combate ao coronavírus, o órgão não mudou a orientação.

O discurso adotado por Bolsonaro tampouco foi questionado pelo órgão — responsável por fiscalizar as práticas médicas no Brasil. Diante da escalada negacionista, a entidade segue em silêncio e, dessa forma, validando a narrativa falsa do presidente.

A Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia, também conhecida como CPI da Pandemia, teve como objetivo apurar as omissões do Ministério da Saúde e do governo nas medidas de enfrentamento ao coronavírus no país. Em seu relatório final, divulgado em outubro de 2021, foi pedido o indiciamento do presidente da entidade, Mauro Luiz de Britto Ribeiro. O texto final da CPI afirma que a postura adotada pelo CFM durante a crise sanitária de saúde no Brasil foi "temerária, criminosa e antiética" por endossar o uso de medicamentos sem comprovação científica contra a doença.

O próprio CFM já reconheceu a ineficácia da cloroquina e hidroxicloroquina contra a Covid-19. No entanto, sob a justificativa de uma “autonomia médica” na relação do médico com o paciente, dá liberdade para a prescrição do tratamento conforme autorização do doente. No Parecer 4/20, publicado em abril de 2020, o CFM afirma que médicos receitando tais medicamentos comprovadamente ineficazes não estariam infringindo a ética da profissão. Esse argumento, inclusive, foi usado como escudo de Bolsonaro para defender a cloroquina.

O “racha” do Conselho é apontado pela comunidade médica como resultado da polarização política no Brasil. Em suas costumeiras lives semanais, o presidente Jair Bolsonaro exibiu os medicamentos ineficazes contra a doença e praticamente defendeu o uso de remédios fora da bula como uma política pública. Ainda, em algumas transmissões, o presidente contou com a participação de membros do CFM, defendendo a autonomia médica e a prescrição do “Kit Covid”.

Mas como explicar o alinhamento do CFM à política errática de Bolsonaro? As últimas eleições das diretorias dos conselhos regionais e federal de Medicina ocorreram em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, na esteira de uma catarse de sentimentos alimentados pela ascensão da extrema direita com o recente pleito. O conselho, contudo, não é originalmente um sindicato ou uma associação de classe. Trata-se, na verdade, de uma autarquia federal que tem como papel regular a aplicação do Código de Ética Médica e os registros de medicina no Brasil.

A Associação Médica Brasileira (AMB), que no ano início da pandemia, assim como o CFM, havia defendido a "autonomia do médico", pediu o banimento da cloroquina, ivermectina e azitromicina no tratamento contra a Covid. “A verdade é que a utilização de tratamentos já comprovadamente ineficazes pela ciência não é autonomia e, sim, má prática médica”, pontuou a AMB.

Em 2018, Cuba havia anunciado o fim do acordo com o Brasil para enviar médicos cubanos ao Mais Médicos, criado pelo PT para garantir atendimento nas áreas mais remotas do Brasil, o programa recebia oposição da classe médica. O CFM, por exemplo, se contrapunha à dispensa do Revalida, prova necessária para permitir a prática médica no país que Ferreira e Gonzaga se preparam para fazer.

Bolsonaro, que já era crítico do programa, foi alçado ao poder sob o manto do antipetismo e estreitou os laços com a classe médica em seu mandato. Meses depois de Cuba deixar a cooperação com o Brasil por conta de críticas do presidente e ordenar o retorno de mais de 8.300 profissionais que atuavam no Mais Médicos, o Governo Federal estabeleceu uma data para encerrar de vez o programa. Bolsonaro criou o Médicos pelo Brasil, que está em fase de transição. O desfecho da iniciativa, criada no governo petista, foi considerada uma vitória para as entidades da classe que se opuseram ao Mais Médicos e se aproximaram do bolsonarismo.

A exigência do Revalida, exame solicitado a todos os profissionais formados no exterior para o exercício da medicina no Brasil, está no centro desse impasse. A prova não era exigida para integrantes do Mais Médicos no governo Rousseff, a gestão petista argumentava que apenas dessa forma seria possível atender a carência de atendimento médico em regiões mais distantes no Brasil com histórico de dificuldade para manter profissionais.

No entanto, o CFM e outras entidades médicas sempre se opuseram a esse modelo. A médica pediatra Mayra Pinheiro, famosa por hostilizar os médicos cubanos no Ceará, assumiu a coordenação do programa em 2019 e ficou conhecida como “capitã cloroquina” por insistir no uso do remédio comprovadamente ineficaz para o tratamento da Covid-19.

Com o programa rebatizado sob Bolsonaro, foi prorrogado pelo período de dois anos, sem exigir o Revalida ou qualquer outro tipo de certificação, o contrato dos médicos cubanos e dos brasileiros, como é o caso dos indígenas Gonzaga e Ferreira, que desde julho de 2021 viram-se impedidos de atuar na área.

Medicina tradicional e as cosmologias da floresta com o povo Zó'é

Erik Jennings é médico do DSEI Guatoc, localizado em Belém do Pará. Desde 2002 trabalha com o povo Zó'é, etnia considerada de recente contato externo. De acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai), o termo "povo de recente contato" se refere a grupos que têm algum convívio com segmentos da sociedade nacional, mas preservam suas formas de organização social e possuem um alto grau de autonomia em suas relações com o Estado brasileiro.

A Terra Indígena (TI) Zo'é tem cerca de 669 mil hectares e está regularizada desde 2009. Por se localizar em uma região remota, o atendimento é complexo, mas para driblar as dificuldades de acesso, Jennings aprendeu também a pilotar aviões pequenos. Responsável pelo assessoramento médico dos Zo'é há quase duas décadas, ele e sua equipe chegam próximo à comunidade em um avião e prestam atendimento em uma base criada dentro da TI.

Erik Jennings aplicando a vacina contra a Covid-19 na TI Zó'é (Foto: Arquivo pessoal)
Erik Jennings aplicando a vacina contra a Covid-19 na TI Zó'é (Foto: Arquivo pessoal)

Mas a floresta impõe outro grande desafio à medicina: a diversidade cultural de seus povos. Para o médico, o grande problema é que, com exceção de iniciativas isoladas, as políticas de saúde para os indígenas ainda são desenvolvidas para o homem branco. “O desafio é dar assistência sem destruir a cultura e a autonomia desse povo”, diz. "É preciso não só levar em consideração a parte física, biológica, humanitária, mas a cultura. Estamos salvando muitas vidas hoje, mas a gente também está matando muita cultura. Se você mata a cultura, a pessoa perde muitas vezes a forma de sobreviver no território como ela gostaria”, complementa.

Por isso, é necessária uma política de saúde que leve em consideração a cultura desses povos. “Não é tão difícil se você tiver um diálogo constante e esse diálogo não é algo apenas passivo: você faz o que a sua medicina, a sua pajelança manda e eu faço a minha. Eu acredito no movimento de articular conhecimento e ações. Eu não posso pensar que a minha forma de resolver as coisas, a minha ciência é superior a forma de responder os mesmos problemas que esses povos indígenas têm há muito tempo. É preciso também ouvi-los, observá-los”, diz Jennings.

Jennings fez questão de receber a sua primeira dose da vacina contra a Covid-19 com os Zó'é (Foto: Arquivo pessoal)
Jennings fez questão de receber a sua primeira dose da vacina contra a Covid-19 com os Zó'é (Foto: Arquivo pessoal)

O projeto de destruição da Amazônia se intensifica também com as grilagens, mineração ilegal e invasões de todos os tipos, produzindo mais contaminação e doenças. Estima-se que 20 mil garimpeiros ainda estejam em território yanomami. O relatório “Cicatrizes na Floresta - Evolução do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami (TIY) em 2020” denuncia como a atividade criminosa se prolifera na terra indígena, poluindo os rios, levando doenças e destruição, dentre elas a Covid-19. A primeira vítima indigena do vírus foi um adolescente Yanomami, de 15 quinze anos.

Uma imagem foi compartilhada milhares de vezes nas redes sociais nas últimas semanas: o registro de Tawy Zó'é, de 24 anos, se esforçando para carregar seu pai, Wahu Zó'é, de 67. Ele percorreu a floresta para chegar até o atendimento da equipe de saúde. O registro foi feito por Jennings, ele estima que os dois levaram pelo menos seis horas pela floresta até chegar ao local da imunização.

Tawy Zó'é carregando seu pai, Wahu Zó'é, para tomar a vacina contra a Covid-19 (Foto: Arquivo pessoal)
Tawy Zó'é carregando seu pai, Wahu Zó'é, para tomar a vacina contra a Covid-19 (Foto: Arquivo pessoal)

“Eu fiquei muito sensibilizado com essas últimas pressões e resolvi publicar a foto para conscientizar e incentivar as pessoas. Eu não esperava a repercussão que a foto teve. Os Zó'é estão sofrendo com a pandemia. Eles se preocupam conosco. Por que o branco está morrendo? Por que não se vacina?”, são os questionamentos feitos pela comunidade ao médico.

A imagem foi feita em janeiro de 2021, no início da campanha de vacinação contra a Covid-19 no Brasil. Mas o registro só foi compartilhado pelo médico quase um ano depois. Mesmo sem essa pretensão, a foto também eternizou o amor entre pai e filho. Wahu morreu em setembro de 2021, em decorrência de problemas crônicos que vinha enfrentando nos últimos anos. Já Tawy permanece com a sua família em sua TI e recentemente tomou a terceira dose do imunizante contra o coronavírus.

Casos vividos pelo médico, reflexões pessoais sobre a medicina e a vida trabalhando com os povos indígenas na Amazônia foram relatados nos livros “Paradô: Histórias de um Neurocirurgião do Interior da Amazônia” e "Olhando o Rio”.

De acordo com o serviço de saúde local, a população Zo'é é composta por 315 indígenas, que vivem dispersos no território, morando em cerca de 50 aldeias. Até o momento, não foi registrado nenhum caso de Covid entre os Zo'é, o que Jennings atribui às estratégias adotadas pela comunidade para evitar a propagação do vírus.

Mas essa realidade é diferente de outros povos indígenas do Brasil. Segundo o último boletim epidemiológico da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), o coronavírus chegou a atingir cerca de 70 povos indígenas de diferentes partes do Brasil. Os DSEIs, localizados no Leste de Roraima e Mato Grosso do Sul, registraram o maior número de indígenas vitimados pela doença.

De acordo com as informações obtidas pela Fiquem Sabendo, agência especializada no acesso a dados públicos, via Lei de Acesso à Informação (LAI), em 2021 o programa Mais Médicos registrou o menor número de novos contratos desde o início do programa, em 2013.

Em nota enviada à reportagem, o Ministério da Saúde afirma que, atualmente, o Mais Médicos possui “15.481 médicos no programa. Destes, 3.146 são profissionais estrangeiros (20%); 12.335 são profissionais brasileiros (80%); 6.438 são médicos intercambistas (profissionais formados no exterior [42%)] e 9.043 profissionais têm registro no CRM (58%)”. Foi solicitada também a descrição dos profissionais cadastrados por etnia, mas ainda, segundo a pasta, não é possível localizar essa informação, pois o preenchimento do campo raça/cor não é obrigatório no cadastro.

Este trabalho foi possível graças a uma bolsa para a produção de trabalhos jornalísticos em temas de ciência, concedida à Caroline Farah pela Fundação Gabo e pelo Instituto Serrapilheira, com o apoio do Escritório Regional de Ciências da UNESCO para a América Latina e Caribe.

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