Mensagens de babá de Henry indicam que Jairinho também agredia sobrinho

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RIO DE JANEIRO, RJ, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mensagens extraídas pela polícia no celular da babá do menino Henry Borel, morto aos 4 anos em março, indicam que o vereador Jairo Souza Santos, conhecido como Dr. Jairinho, também batia em seu sobrinho.

"Minha mãe fala que ele [Jairinho] faz isso com [nome da criança] também, e que [nome da criança] só obedece a ele. Mas sou super contra essa teoria de que tem que aprender na marra, sabe?", escreve Thayná Ferreira, 25, ao seu noivo em 2 fevereiro, quando narra as primeiras agressões a Henry.

O menino a quem ela se refere não teve a idade divulgada e é filho da irmã do político, Thalita Fernandes Santos. Ele mora com a mãe e os avós em um sobrado em Bangu (zona oeste do Rio de Janeiro), onde o vereador também residia há alguns meses. A mãe de Thayná é babá do garoto há cerca de dois anos.

Jairinho e a mãe de Henry, Monique Medeiros, estão presos temporariamente desde o início de abril. Nesta segunda (3), eles foram indiciados por homicídio qualificado e por episódios de tortura que aconteceram em outras ocasiões.

A conversa entre a babá e seu noivo consta no relatório final do delegado Henrique Damasceno, da 16ª delegacia (Barra da Tijuca), que pede à Justiça a conversão das prisões em preventivas, sem prazo para soltura. Agora, o Ministério Público deve decidir se apresenta ou não acusação do casal.

No documento, a polícia conclui que as mensagens de Thayná "demonstram claramente que ela em muito suavizou os episódios de violência em seu segundo depoimento, bem como, mais uma vez, omitiu e mentiu sobre aspectos extremamente relevantes". Por isso, agora ela está sendo investigada por falso testemunho.

Nessa conversa com o noivo, em 2 de fevereiro, ela diz frases como "eu tô é apavorada", "família de doido real" e "a criança vai ficar perturbada" antes de contar que Henry agarrou seu pescoço e chorou muito para não ir para o quarto com o padrasto, que o chamou de mimado.

Ela também afirma que "parece [que ele] tá tapando a boca do menino" e que Henry estava no quarto "chorando e gritando 'prometo'". Indica ainda que aquela não foi a primeira vez que algo do tipo aconteceu, dizendo que "da outra vez fez a mesma coisa".

Nesse caso, Monique não foi indiciada por tortura porque, pelo que as mensagens indicam, ela só foi avisada depois. Mas a mãe foi enquadrada no crime por omissão numa segunda ocasião, ocorrida em 12 de fevereiro, quando a babá narrou os acontecimentos em tempo real a ela, que estava num salão de beleza.

Naquele dia, Thayná contou ao noivo que estava escondida com Henry no carro após as agressões: "O menino me agarrou demais. Me enforcou. Rasgou minha blusa. Um doideira. Quando viu o outro [Jairinho]", escreveu, acrescentando que o vereador lhe deu R$ 100 para não contar o porquê da blusa rasgada.

Em outra conversa com o pai em 3 de março, cinco dias antes da morte do menino, a babá relata uma briga grande do casal na qual Monique chegou a dizer que o vereador sairia de casa, mas continuaria pagando as suas contas, caso contrário ela o prejudicaria.

Ela fala: "Bateu nela. Enforcou. E aí ela disse que ele vai sair. Mas que vai ficar pagando as coisas dela. Senão ela vai f... ele. Aí ele tá com o rabo entre as pernas. E disse que tá. Passou o dia todo ligando pra ela. Conversando. Chamando de amor. Como se nada tivesse acontecido".

Para a polícia, "tal conversa se mostra extremamente relevante, pois, além de evidenciar agressão sofrida por Monique, também revela que ela não se sentia subjugada por Jairinho", escreve o delegado. "No que se refere à coação ou ameaça supostamente sofrida por Monique, as provas demonstram exatamente o contrário."

No relatório, os investigadores também destacam que mensagens obtidas em um segundo celular da professora, apreendido quando ela foi presa, "os indiciados se mostraram preocupados em serem localizados pelas autoridades, tendo Monique chegado a indagar se a polícia teria acesso à localização do aplicativo Instagram".

Os dois, que foram encontrados dormindo no mesmo quarto em um endereço não informado à polícia, "procuravam por uma residência, fora da cidade, tendo trocado diversos anúncios de casas de luxo disponíveis para aluguel e venda, evidenciando a intenção de se furtarem à aplicação da lei penal", diz o texto.

OUTRO LADO

Após a conclusão do inquérito, os advogados de Monique divulgaram nota dizendo que as investigações foram finalizadas prematuramente, com erros, e que a Polícia Civil do Rio de Janeiro promoveu vazamentos seletivos de informações à imprensa.

Os defensores apontam que "a reconstituição dos fatos, baseada em versão irreal de Monique sob coação e dissimulação, é imprestável" e que "o inquérito não aprofundou investigação sobre receitas, obtenção e uso de medicamentos, relatado pelas vítimas, embora esta defesa tenha expressamente requerido".

Argumentam ainda que não tiveram acesso integral à investigação. "[A polícia] estranhamente promoveu vazamentos seletivos apenas do conteúdo do celular de Monique e não deu acesso à defesa a integralidade da investigação, com graves violações à prerrogativas profissionais e dispositivos processuais penais".

A defesa de Jairinho também se manifestou, afirmando que "todos estão com muita pressa, esquecendo da legalidade, da regularidade do inquérito policial. Estão desprezando toda a garantia que mesmo na fase inquisitorial é assegurado aos acusados em razão do clamor público, do sentimento das pessoas".

Em áudio encaminhado à reportagem, o advogado Braz Sant'Anna disse que esse "é um caminho muito errado" e que "a defesa vai mostrar no curso do processo que a história não é essa, que a verdade é completamente diferente do que a polícia e o Ministério Público estão querendo mostrar".