Mentiras de Bolsonaro são ato de campanha

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A apresentação de 50 minutos sobre o sistema eleitoral que o presidente Jair Bolsonaro fez diante de algumas dezenas de representantes de missões diplomáticas estrangeiras na última segunda-feira variou, como era previsto, entre a mentira e o delírio. Bolsonaro é um político em campanha, cuja pontuação nas pesquisas tem sido sofrível. Essa é a razão para mais essa pantomima a que submeteu o Brasil. Seu desempenho foi constrangedor a ponto de ninguém aplaudir no final — e de o próprio Bolsonaro ter de lembrar à plateia que tinha terminado.

Prova de fraude eleitoral, obviamente ele não apresentou, pois prova não há. As urnas eletrônicas e o sistema de apuração já foram submetidos a toda sorte de teste e estão entre os mais seguros e eficazes do mundo.

A necessidade de criar um discurso que garanta sobrevida a seu grupo político diante de uma derrota provável é uma explicação mais plausível para o teatro diplomático do que a tantas vezes anunciada tentativa de golpe de Estado. Não que o cenário pós-eleitoral se desenhe tranquilo, mas Bolsonaro se revela incapaz de alinhar as forças necessárias para ter sucesso numa tentativa de virada de mesa.

O Legislativo não embarcaria na aventura, até porque a eleição de deputados e senadores depende das mesmas urnas eletrônicas que elegem o presidente. São veementes as declarações em apoio ao sistema eleitoral do presidente do Senado e do Congresso, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). E, apesar de silenciar diante das mentiras de Bolsonaro, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), comandou a votação em que as teses bolsonaristas sobre o voto impresso foram derrotadas.

O Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), escolhidos como nêmesis por Bolsonaro, têm reagido com energia e propriedade a todas as tentativas de deslegitimar o sistema eleitoral. Basta lembrar a declaração do ministro Edson Fachin, presidente do TSE, depois do discurso aos diplomatas: “É hora de dizer basta à desinformação e hora também de dizer basta ao populismo autoritário”. O TSE também desmentiu uma a uma as mentiras de Bolsonaro.

Bolsonaro, ao contrário do que pretendia, não conseguiu nenhum tipo de apoio no exterior e enfrenta resistências fortes no setor produtivo. As Forças Armadas são a instituição em que o bolsonarismo deposita suas esperanças, diante da adesão aparente do ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, às teses estapafúrdias sobre as urnas eletrônicas.

Mas há uma diferença entre a decisão política — absurda, é verdade — de apoiar o discurso mentiroso do presidente e uma quartelada. A perspectiva de que a cúpula militar se mobilize para evitar a votação ou para impedir a posse de outro presidente que não Bolsonaro hoje não passa de especulação sem lastro na realidade.

Bolsonaro é um político que trabalha na cizânia, depende dos inimigos para se justificar. Ele prepara tudo para, em caso de fracasso, tornar um inferno a vida de seu sucessor, com apoio da base aguerrida convencida de suas mentiras (era ela a audiência almejada do discurso, não os diplomatas). Tal comportamento promete gerar uma tensão institucional jamais vista. Mas a democracia brasileira tem condições plenas de resistir. As reações ao discurso de Bolsonaro demonstram que o Brasil é muito maior e muito melhor que ele.

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