Mentor espiritual e instrutor da ONG Arte de Viver são suspeitos de assédio e importunação sexual

Denúncias trazem à tona que práticas filosóficas milenares como ioga e meditação podem ter sido usadas por instrutores da ONG Arte de Viver, que tem sede em mais de 156 países, para atos de assédio e de importunação sexual contra frequentadoras. Duas vítimas relataram ao GLOBO terem sido abusadas por um mesmo líder religioso, que chegou a representar a instituição na América Latina, e uma terceira acusa um instrutor da escola, que deu cursos em Belo Horizonte, cidade em que ela morava. A seguidora que foi vítima em São Paulo já registrou queixa na Promotoria de Justiça Criminal de Santo Amaro.

O caso cuja apuração está mais avançada aconteceu em São Paulo, no Brooklin, e está sob investigação sigilosa da polícia. O denunciado é Swami Paramtej, ex-mentor espiritual da ADV na América Latina. Swami é um título dado a discípulos que podem fazer a escolha de viver em celibato para espalhar o conhecimento e a “graça do mestre”. Ele era um dos homens de confiança do guru indiano Ravi Sankar, uma referência na Índia, fundador da entidade e que não foi denunciado por conduta inapropriada.

No último sábado, ele foi interpelado publicamente sobre os casos durante evento no Centro de Convenções do Hotel Windsor, na Barra da Tijuca, e disse que fatos semelhantes nunca aconteceram em 41 anos de existência de sua escola e que já tomou providências para afastar os integrantes colocados sob suspeita. Com muito medo de sofrer represálias, C., de 35 anos, prestou queixa online detalhando ter sido abusada em 2017 por Paramtej. Cumprindo uma rotina que, segundo ela, é normal na entidade, C. tinha sido encarregada, à época, de preparar o dhoti (vestimenta típica) do líder religioso e de servir a ele o chá às vésperas de uma aula de meditação. Hospedados na mesma casa, ela conta que ele a convidou para assistir a um filme e, ao chegar ao quarto, foi convidada a se sentar ao lado dele na cama, quando, de acordo com a seguidora, teve o corpo tocado. Traumatizada, ela confirmou o relato feito às autoridades policiais, mas não quis entrar em detalhes. Observou apenas que, ao ser questionado sobre a atitude, Paramtej disse que “não se tratava de um ato libidinoso e sim de um ensinamento”.

— Ele sabia que eu pensava em ser instrutora em tempo integral, mas dizia que para isso acontecer eu precisava me fortalecer com mais cursos da ADV. Quando ele me chamou para ver o filme, lembro que olhei pra cama onde ele estava sentado com o notebook aberto e pensei “onde eu vou ficar?”. O quarto onde ele dormia era limpo, cuidado, era como um templo. Ele me chamou para sentar na cama ao seu lado, o que foi um choque, eu juro que pensei que ficaria no chão. Essa proximidade com um swami é algo inimaginável. E lá estava eu, a “best” daquele ser incrível. Ele relacionou o ato a uma lição sobre febrilidade, com o intuito de provar sua condição de swami — detalha a vítima, que frequentou a ONG por mais de 10 anos e afirmou ter denunciado o caso em abril deste ano.

Assim como C., outras mulheres que alegam terem sido vítimas dentro da ADV, mas teriam sido orientadas pela direção a manterem sigilo. Ex-integrante da ONG, Thaís Santos conta ter tomado conhecimento de pelo menos oito casos semelhantes envolvendo integrantes da Arte de Viver, no período em que atuou na ONG. Para ela, os gurus — entre os quais não incluiu Shankar — usavam de sua superioridade espiritual pra obter vantagens sexuais. Segundo ela, a proximidade com os líderes espirituais é vista como um privilégio concedido a poucas pessoas. Muitas mulheres eram convidadas a fazerem massagens e a alimentá-los. Eram nesses momentos que, de acordo com ela, os abusos aconteciam.

— Quanto mais próximo você está dos líderes que são considerados seres iluminados e se doa a eles, tanto homens quanto mulheres, mais terá carma positivo. O frequentador abusado é ensinado a servir por amor — acusa ela, acrescentando que está disposta a depor formalmente se as vítimas levarem as denúncias adiante.

As denunciantes, diz Thaís, eram orientadas pela Arte de Viver a fazer um relato por escrito e enviá-lo por e-mail a um Comitê de Ética, criado em abril deste ano pela própria ONG. Na época, após serem criticados sobre uma possível parcialidade nas apurações, o escritório de advocacia Machado Meyer foi acionado. Procurado, informou que não presta mais o serviço e por isso não comentaria o caso. C. conta que chegou a ter uma reunião com Ravi Shankar porque ele estaria ouvindo as vítimas, mas diz ter ficado decepcionada ao ouvir dele que não deveria levar a denúncia adiante para que Paramtej não atentasse contra a própria vida.

Procurado, Swami Paramtej disse ter sido expulso da organização e que a ação tem causado "muito sofrimento em todos". Ele não quis comentar sobre as acusações.

Na última quinta-feira, a coordenadora internacional na América Latina da Arte de Viver, Beatriz Goyoaga, afirmou que a ONG recebeu apenas quatro queixas em toda América Latina e que não houve denúncia criminal. Segundo ela, os dois suspeitos citados foram afastados e não têm mais nenhum tipo de vínculo com a instituição. Também informou que prestam apoio e suporte psicológico aos “afetados”.

— As queixas são de comportamento impróprio — afirmou a coordenadora.

A uruguaia K., de 32 anos, também diz ter sido vítima de Swami Paramtej em 2012, quando ele esteve em seu país para encontros de ioga e meditação. Numa noite, o religioso pediu que ela fizesse uma massagem nele e tentou colocar um filme de sexo explícito na TV, tendo sido impedido por ela. Passados anos de incompreensão sobre o que havia lhe acontecido, só em março ela enviou o relato para a direção da ONG, após três meses de terapia:

— Naquela época eu achava que os swamis não sentiam desejo sexual, e em nenhum momento me passou pela cabeça que poderia ser diferente. Quando vi o que ele queria, eu congelei.

A segunda brasileira que diz ter sido abusada falou sob a condição de anonimato e afirma ter levado a ocorrência até a direção da ADV. Ela acusa um instrutor da escola, que deu cursos em Belo Horizonte, Minas Gerais. B., de 30 anos, disse ter feito sexo sem seu consentimento após uma festa, quando foi dormir na casa dele para um evento no dia seguinte. De acordo com ela, ele a obrigou a dormir no quarto dele.

— Ele tomou o banho e deitou ao meu lado e passou a me abraçar e a tocar meu corpo. Me beijou algumas vezes e colocou a mão entre as minhas pernas, e eu tirava e falava que não. Até que parei de tentar segurar e me deixei levar. Ele me penetrou — detalha B. — Estava cega de fé, acreditando que esses gurus eram iluminados. Decidi falar depois de anos porque vi que acontecer com outras pessoas.

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