Por que o mercado financeiro faz pesquisas eleitorais

Lula e Bolsonaro (Fotomontagem Yahoo Notícias, com imagens de Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images; e REUTERS/Adriano Machado)
Lula e Bolsonaro (Fotomontagem Yahoo Notícias, com imagens de Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images; e REUTERS/Adriano Machado)

Até 21 de junho, 62% (40 das 65) das pesquisas eleitorais divulgadas foram financiadas por bancos e corretoras. No total, instituições financeiras investiram R$ 4 milhões para a realização dos levantamentos. Já em 2018, o mercado pagou 21% das sondagens nacionais registradas até 20 de junho. A informação é do portal Poder 360, com base nos dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Esses números fazem muitos se questionarem os motivos pelos quais empresas financeiras desembolsam um dinheirão para realizar as sondagens, e até mesmo duvidar dos resultados.

Três especialistas ouvidos pelo Yahoo, no entanto, não veem com estranheza a participação do setor financeiro como patrocinadores de pesquisa eleitoral.

A advogada Clotilde Monteiro, membro da Abradep (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político), diz que as pesquisas eleitorais para consumo interno são feitas há bastante tempo. Além disso, não enxerga problema nesse movimento porque "política e economia andam de mãos dadas". Portanto, para ela, é natural que agentes do setor financeiro tenham interesse nas informações obtidas nos levantamentos para fins de planejamento.

"Afinal, a depender do candidato que está propenso a se eleger, seu plano de governo e sua forma de lidar com diversos setores e até mesmo com crises que influenciam na economia, como foi o caso da pandemia da covid-19, vai ter reflexo nas movimentações de bancos, instituições financeiras e investidores", avalia.

De acordo com Clotilde, a divulgação de pesquisas bancadas pelo setor financeiro tem dois lados: o aspecto informativo, para clientes, investidores e cidadãos em geral, e o aspecto do marketing, uma vez que a divulgação dessas pesquisas colocam o nome das empresas que as patrocinam sob um holofote constante em ano eleitoral.

Leonardo Paz, analista de Inteligência Qualitativa no Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional (FGV NPII), vai na mesma direção, e esclarece que empresas financeiras trabalham com um tipo de mercado que demanda avaliar como está o cenário político para saber como vai ficar o comportamento econômico do país.

"É importante para eles [empresas financeiras] saber que tipo de governo pode ser o próximo e a visão que as pessoas têm de determinados políticos, por exemplo. Assim, podem ajustar as suas expectativas com relação à economia, porque é aí que eles ganham dinheiro."

Paz também esclarece que quando uma pesquisa eleitoral é divulgada, a preocupação da maioria das pessoas é ver qual candidato está na frente, mas afirma que há uma riqueza nos levantamentos, que são os chamados microdados.

"Isso dá um poder de conhecer melhor os vários grupos de pessoas nas várias regiões do país. Quando se financia uma pesquisa, você tem acesso a esses microdados".

A única ressalva do analista é quando uma instituição ou pessoa tenta influenciar o levantamento. "Existem técnicas para realizar pesquisas de opinião, como a maneira que se formula uma pergunta e a ordem que o questionário é criado."

Ele lembra, porém, que instituições de credibilidade sabem eliminar essa probabilidade de viés dentro da pesquisa.

Tipos de pesquisa

Sérgio Praça, professor e pesquisador do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (FGV CPDOC), não se preocupa que instituições financeiras banquem pesquisas eleitorais. Mas alerta para o número excessivo de levantamentos, e também para o fato de serem feitos a partir de vários métodos de pesquisa: uma faz por telefone ou com robô, outra presencialmente, e os resultados podem ser muito discrepantes.

"O problema de ter muito instituto de pesquisa é que facilita a desconfiança. Mas também pode ser bom porque a competição é a coisa básica do capitalismo. É bom que empresas façam competição no mercado para melhorar a qualidade do produto."

Pensamentos conspiratórios

A XP Investimentos parou de divulgar pesquisas eleitorais semanais, em parceria com o Instituto Ipespe, no início de junho. Isso ocorreu porque a empresa foi alvo de ataques por parte de militantes bolsonaristas após o presidente Jair Bolsonaro (PL) aparecer em segundo lugar na sondagem e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em primeiro. O resultado da pesquisa acabou sendo retirado do site do TSE.

A desconfiança de quem tem pensamentos conspiratórios é inevitável, independentemente de quem está por trás da pesquisa, diz Clotilde. Para ela, esse recuo da XP de cancelar o levantamento e mudar o número de divulgações mensais agradou uma parcela do eleitorado, mas certamente desagradou outro, que tomou esse movimento como prova de favorecimento político.

"O que devemos prestar atenção é nos institutos contratados para tais pesquisas, na sua seriedade, nos seus dados e no seu histórico. Por outro lado, as empresas patrocinadoras devem saber, de antemão, que em algum momento vão desagradar algum grupo, e isso é natural do jogo político."

Leonardo argumenta que até pouco tempo atrás as pessoas não se preocupavam em quem financiava a sondagem, e que o importante mesmo era o resultado.

"Hoje o cenário está muito polarizado, então se um candidato tiver vantagem, quem se sentir em desvantagem obviamente vai dizer que há interesse por trás, e isso é mais fácil quando o financiamento vem de uma instituição financeira."

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