Mercado imobiliário patrocina Covas às vésperas de SP rever regras do setor

ARTUR RODRIGUES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em ano que antecede discussões urbanísticas importantes para a cidade, a campanha de Bruno Covas (PSDB) à Prefeitura de São Paulo têm se mostrado queridinha do mercado imobiliário, e empresários ligados ao setor estão entre os principais doadores do prefeito. A irrigação de recursos desta área econômica ocorre às vésperas de um ano estratégico para o mercado imobiliário: em 2021, por lei, deve ser feita a revisão do Plano Diretor, conjunto de regras que define como a cidade vai crescer. Dono da campanha mais rica, Covas já arrecadou quase R$ 13 milhões, a maioria vinda do fundo partidário --verba pública a que os partidos têm direito. Por volta de R$ 1,8 milhão vêm de pessoas físicas e, desse total, a reportagem identificou ao menos R$ 880 mil que saíram do bolso de doadores ligados a grupos de construtoras e incorporadoras, entre executivos e proprietários. Para se ter uma ideia, o valor que Covas recebeu de nomes do mercado imobiliário equivale a praticamente tudo que Celso Russomanno (Republicanos) arrecadou até agora, somando o fundo eleitoral --verba pública que os partidos recebem em ano de eleição--, o fundo partidário e doações de pessoas físicas. O maior doador do tucano até o momento é o médico Jorge Mitre, fundador do Hospital dos Olhos e membro da família que dirige a incorporadora Mitre Realty. Ele doou R$ 230 mil a Covas. Também fazem parte do rol de doadores José Ricardo Rezek, do Grupo Rezek, que doou R$ 200 mil; Ernesto Zarzur e Samir Zakkhour El Tayar, da Eztec, que doaram R$ 175 mil e R$ 25 mil, respectivamente; Elie Horn, da Cyrela, com R$ 100 mil; e Antonio Setin, da Setin, com R$ 50 mil, entre outros. A gestão na prefeitura iniciada sob João Doria (PSDB) e terminada por Covas já fez acenos ao setor imobiliário. No ano passado, por exemplo, a proposta de revisão da Lei de Uso e Ocupação de Solo previu a possibilidade de prédios mais altos nos miolos dos bairros e flexibilização de algumas restrições a vagas de garagem, demandas do mercado que foram atendidas parcialmente --a lei, porém, foi judicializada e ainda não foi votada. No projeto, o setor não foi atendido na demanda de obter descontos na chamada outorga onerosa, taxa que se paga pelo direito de construir na cidade. Se a gestão mantiver o atual entendimento, não há "amparo técnico" para diminuir o valor pago. As atuais regras das outorgas foram definidas pelo Plano Diretor de 2014, aprovado na gestão de Fernando Haddad (PT). A partir desta lei, foi aberto caminho para maior arrecadação para o Fundurb (Fundo de Desenvolvimento Urbano), usado para melhorias urbanísticas --em 2020, até setembro, a cidade já havia arrecadado R$ 406 milhões com outorgas onerosas. O plano de governo de Covas não tem referências explícitas ao Plano Diretor. Questionada, a campanha ressaltou ser a favor de novas centralidades, "que permitam aos moradores de cada região dependerem cada vez menos do transporte coletivo para ir de casa ao trabalho, além do fortalecimento dos empreendimentos locais". "Vamos ainda pensar em alternativas que permitam uma ocupação equilibrada da região do centro expandido da cidade, possibilitando sua reabilitação. E investir, cada vez mais, em programas de habitação social e regularização fundiária, sempre tendo como parâmetros o desenvolvimento econômico, social e a sustentabilidade", diz a campanha. Sobre os doadores do mercado imobiliário, "há doações de nenhum setor da economia, todas elas são somente de pessoas físicas, dentro dos limites estabelecidos em lei". Entre os candidatos, quem apresenta propostas mais explicitamente favoráveis ao mercado imobiliário é Arthur do Val (Patriota), o Mamãe Falei. Entre as propostas dele está zerar o ITBI, imposto sobre transmissão de imóveis, cuja alíquota hoje é de 3%. Do outro lado, Guilherme Boulos (PSOL), que também é líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, promete aumentar impostos de mansões, entre outros pontos. Além de nomes do mercado imobiliário, Covas também recebeu generosas doações de empresários de outros ramos. O dono da Crefisa e da Faculdade das Américas (FAM), José Roberto Lamacchia, doou R$ 200 mil para a candidatura do tucano. Para além de sua carreira empresarial, Lamacchia ganhou notoriedade nos últimos anos por ter se tornado patrocinador do Palmeiras, clube no qual atua como conselheiro. Outro doador de Covas é Rubens Ometto, presidente do conselho de administração da Cosan. Ele é quinto maior doador destas eleições, com R$ 1,7 milhão, distribuídos entre diversos candidatos. A Cosan é a acionista majoritária da Comgás, concessionária que presta serviço de gás encanado na capital paulista. Nos últimos anos, a Comgás esteve envolvida em disputas com a prefeitura devido aos buracos feitos nas ruas para obras de manutenção. A lista de pessoas que colaboraram com Covas também traz três secretários municipais: Vitor Aly (Obras), com R$ 20 mil; Edson Aparecido (Saúde), com R$ 15 mil; e Berenice Gianella (Assistência Social), que doou R$ 3.000. Os 10 maiores doadores de Covas Jorge Mitre (Mitre Realty)"‚R$ 230 mil José Ricardo Rezek (Grupo Rezek)"‚R$ 200 mil José Roberto Lamacchia (Crefisa)"‚R$ 200 mil Rubens Ometto (Cosan)"‚R$ 200 mil Ernesto Zarzur (Eztec)"‚R$ 175 mil Elie Horn (Cyrela)"‚R$ 100 mil David Joseph Safra (Banco Safra)"‚R$ 75 mil André Kissajikian (AK Realty)"‚R$ 50 mil Antonio Setin (Setin)"‚R$ 50 mil Marcello Gambardella Arduin (Inloop)"‚R$ 50 mil