Mercado prevê queda de preços para próximos meses e menor inflação desde 1998

Patricia Valle
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Alimentos in natura devem desacelerar a alta de preço nos próximos meses, já os industrializados estão com pressão de alta

Com a economia em pé de guerra contra o novo coronavírus, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou uma queda de 0,31% — bem maior do que a esperada pelo mercado. Com isso, todas as expectativas estão sendo revistas para abaixo, e estima-se que, nos próximos meses, o indicador geral registrará deflação (queda de preços). No entanto, para especialistas, a redução pode não ser sentida pelas classes mais baixas.

As duas instituições que mais acertaram a previsão sobre o IPCA no curto prazo no ano passado estão esperando queda nos preços por mais três meses.

— A queda do preço do petróleo está, agora, sendo repassada para as bombas, e os combustíveis, no geral, estão mais baratos, empurrando o índice para baixo, assim como o resto da economia, que está parada — disse Gustavo Arruda, economista chefe do BNP Paribas.

Os preços dos alimentos e das bebidas, porém, de uma forma geral, devem continuar subindo.

— Passamos do momento de alta dos preços de alimentos frescos, que deverão se estabilizar agora. Mas vemos que os alimentos industrializados estão com demanda mais alta e também sofrem impacto do câmbio, que está nas suas máximas históricas. Além disso, no segundo semestre, poderá haver um novo aumento de preços dos alimentos frescos, já que os produtores estão tendo incentivo a exportar pelo câmbio mais alto, o que poderá levar a uma alta de 7% no ano neste segmento — afirmou Pedro Ramos, economista-chefe da Sicredi, cooperativa de crédito.

Por conta disso, apesar de 2020 ter a menor inflação desde 1998, nem todos vão sentir isso no bolso.

— Já vemos nas prévias das coletas um IPCA negativo para maio, mas isso envolve uma cesta. Os itens mais essenciais, como comida, vão ter altas. Assim, famílias de até três salários mínimos não deverão ver a deflação — disse André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do FGV IBRE.

Ao contrário do que se possa imaginar, o fato de a inflação estar tão baixa é um sinal muito ruim para a economia. Isso mostra que o país está indo para um recessão. O governo recentemente revisou a queda do Produto Interno Bruto (PIB) para -4,7%. 

— A questão é que a economia do país já estava mal e foi afetada por esta crise mundial. O planeta deverá entrar em recessão. As pessoas estão sem dinheiro — afirmou o economista André Braz, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

A paralisação da economia é tão significativa, segundo ele, que está sendo até difícil apurar alguns índices de preços:

— Fora educação on-line e delivery, não tem mais nada funcionando. É dificil até medir dados sobre serviços, segmento que sempre teve alta de preços.

Já uma parte do aumento de preços é ditado pelo próprio governo, como reajustes de medicamentos, plano de saúde e transportes públicos. Por enquanto, está tudo travado.

Sem gente para consumir e com estabelecimentos fechados, os especialistas apontam que apenas o câmbio — que está próximo de R$ 6 — poderá levar a elevações de custos de itens que têm algum componente importado. 

Entre os alimentos, o que mais é afetado pela alta do dólar é o trigo, que geralmente tem grande parte importada. Com isso, pode haver aumento nos preços de pães e massas.

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Com a expectativa de deflação para os próximos meses, a inflação anual ficará muito longe da meta do Banco Central (BC), de 4%. Assim, os economistas já projetam um corte na taxa básica de juros (Selic) para 2,5% — patamar nunca visto — como aponta o Boletim Focus da autoridade monetária. E há quem pense que pode ser até menor.

—  Acreditamos que os juros poderão chegar a 2,25% já na próxima reunião e ficar neste patamar por um tempo, para tentar estimular a economia e levar os empresários a investirem — afirmou Pedro Ramos, economista-chefe da Sicredi.

Com juros básicos mais baixos, as taxas de crédito também devem cair como aconteceu nos últimos cortes. Os bancos têm reduzido principalmente as taxas de crédito pessoal e de capital de giro para as empresas. No entanto, a queda não segue as proporções da diminuição da Selic.

Com as incertezas da crise, o risco de crédito aumentou no mercado, e os bancos estão receosos de emprestar e sofrerem calotes. Isso é visto principalmente no crédito de mais curto prazo, como cartão de crédito e cheque especial.

Com isso, a recomendação dos planejadores financeiros é que se aproveite as vantagens dos juros baixos, mas pesquisando as linhas de crédito mais indicadas, e não as de curto prazo, e avaliando o quanto se pode pagar a cada mês. É importante pesquisar em diferentes instituições financeiras, como fintechs, e negociar as melhores condições de pagamento, inclusive com carência.