Mercado projeta alta da Selic para 2,5% hoje, e não descarta ritmo maior de aperto ao longo do ano

Vitor da Costa
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RIO — O Comitê de Política Monetária (Copom) anuncia hoje sua decisão sobre a Selic, a taxa básica de juros, que está na mínima histórica de 2% ao ano há sete meses. Levantamento feito pelo GLOBO com 16 instituições financeiras e consultorias mostra que a maior parte aposta numa alta de 0,5 ponto percentual.

Caso as perspectivas se confirmem, será a primeira elevação da taxa desde 2015, num momento em que a economia está fragilizada, com agravamento da pandemia e desemprego elevado. Entre as explicações para a retomada da alta dos juros estão o aumento da inflação e a escalada do dólar.

A elevação dos juros já está precificada pelo mercado, restando saber qual será o ritmo do aperto. Por esse motivo, não somente a decisão de hoje é importante, mas também o comunicado que o Copom, ligado ao Banco Central irá emitir.

O aumento da Selic para 2,5% é esperado por 15 das instituições consultadas pelo GLOBO. Um delas, a Novus Capital, projeta aumento de 0,75 ponto percentual.

Para o fim do ano, o patamar de 5% é estimado por seis consultorias. A marca de 4% é mencionada por quatro e a de 4,5% é estimados por três.

O Boletim Focus divulgado na segunda-feira pelo Banco Central, que reúne expectativas de analistas de mercado, prevê a Selic em 4,5% ao fim de 2021.

O peso da inflação

A inflação medida pelo IPCA surpreendeu ao ficar em 0,86% em fevereiro, bem acima das expectativas do mercado. Foi o maior resultado para o mês desde 2016. Com isso, as projeções para a inflação e Selic para o fim do ano também foram elevadas.

No Boletim Focus desta semana a projeção é que o IPCA feche o ano em 4,60%, ante alta de 3,98% na semana anterior, bem acima do centro da meta para 2021, de 3,75%.

— Anteriormente, a minha perspectiva era de que o Copom começaria a subir a Selic após o primeiro semestre de 2021, de forma gradual. Contudo, isso era embasado com expectativa de inflação que não ameaçaria a meta — afirma Paloma Brum, analista de investimentos da Toro Investimentos.

Segundo a especialista, fatores domésticos e externos contribuem para pressão inflacionária e para a desvalorização do real, como o risco-país mais elevado e o aumento das expectativas de alta na inflação americana.

Isso porque, um possível aumento dos juros nos EUA - que também decide hoje se vai subir ou não sua taxa - eleva o rendimento dos títulos de longo prazo do Tesouro americano, o que costuma levar a uma fuga de capital de ativos de risco e das economias emergentes, como o Brasil.

Com a saída de dólares do Brasil, a moeda americana se valoriza contra o real, o que afeta preços de insumos importados, por exemplo, com impacto para o custo da produção de bens pela indústria e outros setores.

Preços das commodities

Para o superintendente executivo de pesquisas macroeconômicas do Santander, Mauricio Oreng, as pressões inflacionárias também ocorrem devido a um forte choque no preço das commodities, em especial no setor agropecuário.

— Estes choques de preços de matérias-primas e custos de produção se propagam de maneira ainda mais intensa que o usual na economia brasileira, dada a tendência de depreciação cambial, e contando ainda com alguma contribuição adicional da postura expansionista das políticas fiscal e monetária — afirma.

Em relatório, o BTG Pactual avalia que o quadro geral da economia piorou desde a última reunião do Copom, em 20 de janeiro, “alterando as expectativas do mercado em relação não apenas ao início do ciclo de alta da Selic, mas também o debate sobre a velocidade adequada desta retomada”.

Para o BTG, entre os fatores que contribuíram para esse novo cenário estão a piora da pandemia do coronavírus e a retomada da economia americana numa velocidade maior que a esperada, em meio ao avanço da campnha de imunização.

Para o banco, que aposta em uma alta de 0,5 ponto percentual, o BC não terá tanto tempo para fazer ajustes graduais, precisando agir para conter a depreciação do real e a aceleração das expectativas de inflação.

Em janeiro, a aposta do BTG era de uma Selic a 3,75% e no fim do ano. A Bradesco e a Guide Investimentos esperavam altas na taxa, mas não a partir do encontro do Copom em março.

Ritmo da alta

Para Oreng, que também acredita em aumento de 0,5 ponto percentual na reunião de hoje, um ritmo mais acelerado de altas pode ser visto mais à frente, a depender do cenário econômico.

— Reconhecemos que não são desprezíveis uma elevação de 0,75 ponto percentual. É possível que esse ritmo seja observado em reuniões subsequentes, dependendo da evolução do cenário.

Ele continua:

— Ainda que o BC possivelmente indique intenção inicial de calibrar os juros de forma a manter algum estímulo ao final do processo, acreditamos que o Copom deverá explicitar que a velocidade e intensidade do ajuste será condicional à evolução do cenário prospectivo para a inflação e o balanço dos riscos.

Para Paloma, da Toro Investimentos, pode-se esperar novas altas em 2021. Ainda que isso não signifique a retomada dos juros em patamares tão elevados quanto em outros momentos. Resta saber, nos próximos meses, o quanto as pautas econômicas do governo conseguirão avançar e o quão prejudicada estará a situação fiscal do país

— Caso o BC demore a iniciar o movimento de alta da Selic, estará incorrendo no risco de ter que fazê-lo tardiamente, o que pode causar uma disparada inflacionária mais forte, levando ao aumento do nível de preços a um patamar mais difícil de se controlar no futuro.