Mercado questiona se crises de 1997 e 2008 estariam se repetindo

Um investidor observa o preço das ações em painel, em Xangai, no dia 26 de agosto de 2015 (AFP/Arquivos)

O medo do futuro da China, que jogou o mercado financeiro em uma montanha-russa, trouxe à tona velhos pesadelos: as crises mundiais de 1997 e 2008 estariam se repetindo?

Analistas descartam crises dessa magnitude devido às reformas econômicas realizadas desde então. Entretanto, alertam que a turbulência desatada pela desaceleração da economia da China influenciará o crescimento da economia mundial, especialmente aos países emergentes.

A queda de 8,5% da Bolsa de Xangai na segunda-feira fez despencar as bolsas de todos os continentes e provocou a queda dos preços das matérias-primas e de moedas do mundo todo. As perdas das bolsas na Europa e nos Estados Unidos foram de tamanha magnitude que se perdeu tudo o que foi ganho ao longo do ano.

O desastre foi grande para os países emergentes, tornando inevitáveis as lembranças sobre o pavor da crise de 1997. Nessa ano, as economias do leste e sudeste asiático afundaram e tiveram que pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

Na época, a China era sólida como uma rocha. Hoje, por outro lado, é fonte de pânico.

Pequim não conseguiu acalmar seu próprio mercado de capitais, nem frear a desaceleração econômica. Os problemas pioraram com a desvalorização do iuane há duas semanas, levando investidores a se livrarem de ativos.

A maioria das economias emergentes sofreu o golpe da desvalorização do iuane e também desvalorizaram suas moedas para defender sua competitividade.

Crescente preocupação

A preocupação pela ineficácia das medidas tomadas por Pequim diante de seus problemas está crescendo.

"O que vemos agora é a crescente falta de confiança na capacidade das autoridades chinesas para operar a transição da economia", disse à AFP o economista Angel Ubide do Peterson Institute for International Economics em Washington.

As intervenções ineficazes de Pequim no mercado só aumentaram as dúvidas sobre se os chineses "estão à altura do problema", acrescentou.

Devido aos problemas da China e de outros emergentes, o FMI já reduziu em julho de 3,5% a 3,3% a previsão de crescimento anual da economia mundial.

"Há problemas persistentes que implicam um persistente impacto na economia mundial", disse Charles Collyns, economista-chefe do Instituto Internacional de Finanças de Washington.

Ele observou que há um mal-estar generalizado nos mercados emergentes e mencionou as crises políticas de Brasil e Turquia, as reformas estagnadas da Índia, o impacto das sanções à Rússia e as menores receitas em países exportadores de petróleo, como a Nigéria.

Apesar disso, Collins e outros analistas não veem uma crise financeira mundial no horizonte.

Após a crise da Ásia em 1997, as economias emergentes liberaram suas moedas e o mercado de capitais, e suas empresas deixaram de depender dos créditos baratos em dólares.

"Naquela época, foi derrubado um castelo de cartas. Mas hoje, as taxas de câmbio podem funcionar como uma válvula de segurança", disse Song Seng Wun, economista do CIMB Private Banking, da Malásia.

Reformas bancárias rigorosas

No Japão, na Europa e nos Estados Unidos, fontes da crise de 2008, os bancos foram reformados e recapitalizados e estão melhor posicionados para enfrentar desafios.

Os respectivos bancos centrais continuam em alerta com suas taxas de juros próximas de zero e, no caso do Japão e da Europa, permanecem injetando liquidez para estimular o crescimento.

Desde 2008, trilhões de dólares foram usados para estabilizar bancos e incentivar o consumo, os investimentos e o emprego.

"Há tempo que o que evita outra crise são os bancos centrais e as intervenções gerais de autoridades mundiais, e esperamos que tudo isso continue", disse Jim Reid, analista do Deutsche Bank.

O apoio pode ser facilmente sustentado, inclusive se a economia desacelerar ainda mais. Tóquio e o Banco Central Europeu podem expandir seus programas de redução das tensões financeiras, Pequim pode agregar apoio ao crescimento, e o Federal Reserve dos Estados Unidos pode adiar o aumento da taxa de juros, próximas de zero para estimular a economia.

Ubide alega que seria prematuro que os bancos centrais fora o da China tomaram medidas.

"É claro que é aterrador. Mas, em momentos como esses, os bancos centrais devem mostrar pulso firme e manter a calma", acrescentou.

"O que deveriam fazer é esperar e ver quanto tempo isso dura, como a situação ficará dentro de duas ou três semanas, e depois reagir", afirmou.

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