Mercosul demonstra ruptura em meio às diferenças por maior abertura comercial

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Imagem fornecida pela Presidência da Argentina mostra o presidente argentino Alberto Fernandez (C), o ministro das Relações Exteriores Felipe Solá (E) e ministro do Desenvolvimento Produtivo, Matias Kulfas, em Buenos Aires

O presidente da Argentina, Alberto Fernández, pediu nesta quinta-feira (8) para manter o princípio do consenso para as decisões do Mercosul, um apelo que Brasil e Uruguai consideram "arcaico" e prejudicial e que demonstra uma ruptura no bloco de integração criado há 30 anos.

"O consenso é a coluna vertebral constitutiva do Mercosul, seu DNA, sua razão de ser. É uma regra. E não devemos esquecer essas regras em um contexto global de grande incerteza", disse Fernández, ao iniciar a cúpula em que transfere para o Brasil a presidência temporária do grupo.

Com essas afirmações, Fernández destacou a resistência da Argentina a uma maior abertura comercial, defendida pelo Uruguai e Brasil, países que sugerem a possibilidade de negociar individualmente com terceiros países ou blocos e também de reduzir a tarifa externa comum.

"O uso da regra do consenso como instrumento de veto e o apego a visões arcaicas com viés defensivo terão único efeito de consolidar o sentimento de ceticismo e dúvida quanto ao verdadeiro potencial dinamizador do Mercosul", respondeu Bolsonaro.

O presidente brasileiro também criticou a atual gestão da Argentina nesta quinta-feira pela falta de avanços na flexibilização do Mercosul e prometeu que, sob sua direção, vai trabalhar "pelo resgate dos valores originais do bloco", de abertura e integração.

- Uruguai, fora e dentro -

A tensão chegou ao máximo no Mercosul depois que o Uruguai anunciou, na quarta-feira, que avançará nas negociações comerciais extrazona, apesar de uma decisão adotada no ano 2000, conhecida como 32/00, pela qual os sócios devem ter o consentimento de suas contrapartes para selar acordos comerciais com terceiros países.

O governo de Luis Lacalle Pou "entende que a decisão 32/00 não está em vigor", expressou o Ministério das Relações Exteriores uruguaio em um comunicado posterior a uma reunião virtual de ministros da Economia e chanceleres do bloco.

Lacalle Pou tentou tranquilizar seus sócios nesta quinta-feira, mas sem mudar de ideia.

"O Uruguai quer avançar com o Mercosul, temos mais força, mais dimensão e mais poder negociador com o mundo", declarou o presidente uruguaio na cúpula, ao garantir que seu país vai "respeitar o ordenamento jurídico vigente do Mercosul".

No entanto, ressaltou que o Uruguai não vai hesitar nas negociações comerciais. "Com tranquilidade e com um conceito mercosuliano, queremos dizer a vocês, como já foi anunciado ontem, que o Uruguai caminha para isso. Espero que possamos ir todos juntos, mas o que está claro é que nós vamos", enfatizou.

- "Quatro países, não três ou dois" -

Neste contexto, o presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, fez um apelo à coesão e pediu uma cúpula presencial que ajude a aproximar as posições.

"Tenho certeza de que vamos encontrar o caminho para continuarmos avançando juntos. O Paraguai vê o Mercosul formado por quatro membros, não um Mercosul de três ou de dois. Não quero que, no final desta cúpula, a percepção seja de que houve um retrocesso", afirmou.

Em meio às tensões, cada país transmitiu separadamente o discurso de seu próprio presidente, ao contrário do hábito histórico do bloco de transmitir ao vivo os discursos para todos os países sócios.

Criado em 1991, o Mercosul representa um mercado de 300 milhões de pessoas, com um território de mais de 14 milhões de quilômetros quadrados.

Além de seus quatro sócios plenos, também conta com a Bolívia como Estado livre associado. A Venezuela está suspensa.

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