Merkel toma vacina da AstraZeneca/Oxford, e busca aumentar confiança no imunizante

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BERLIM — A chanceler alemã, Angela Merkel, disse nesta sexta-feira que recebeu primeira das duas doses da vacina da AstraZeneca/Oxford, em um tentativa de aumentar a confiança pública no imunizante. O anúncio da chanceler vem após semanas de idas e vindas sobre a aplicação do inoculante, enquanto a Europa enfrenta uma terceira onda da pandemia.

Ao contrário de outros líderes globais, que levaram as câmeras consigo, Merkel, de 66 anos, divulgou apenas um curto comunicado afirmando que foi inoculada. A nota foi compartilhada em um tuíte por seu porta-voz, Steffen Seibert:

"Eu estou muito feliz de ter recebido minha primeira dose da vacina da AstraZeneca. Eu agradeço a todos os envolvidos na campanha de vacinação — e todos que se vacinarem. A vacina é chave para combater a pandemia", disse a chanceler.

A chanceler recebeu a vacina em um centro no antigo aeroporto Tempelhof, que trabalha unicamente com doses da AstraZeneca. Na Alemanha, as doses do laboratório são apenas aplicada em pessoas com mais de 60 anos, devido a riscos muito pequenos de trombose.

De início, o imunizante havia sido aprovado apenas para pessoas com menos de 60 anos, devido a falta de dados sobre sua eficácia entre idosos — estudos posteriores comprovaram seu efeito entre faixas etárias mais avançadas. Nos últimos meses, no entanto, os raros relatos de complicações, especialmente entre mulheres jovens, fizeram com que o cenário se invertesse.

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) reconheceu pela primeira vez no último dia 7 que os coágulos podem ser causadas pela vacina da AstraZeneca, mas disse que a probabilidade disso acontecer é baixíssima e que os benefícios de aplicá-la são muito superiores. A EMA deverá divulgar nos próximos dias seu parecer sobre o imunizante de dose única da Janssen, cujo uso foi paralisado nos EUA por motivos similares

As injeções dos dois laboratórios são algumas das mais baratas no mercado, tidas como essenciais para controlar a pandemia especialmente em países pobres e de renda-média.

Apesar dos avais para o uso, os questionamentos sobre as vacinas ameaçam minar a confiança pública em sua segurança. O problema é bastante significativo em países europeus como a Alemanha e a França, onde o movimento antivacina é forte: segundo um levantamento feito pelo Imperial College no fim de março, apenas 40,1% dos franceses e 58,3% dos alemães afirmaram que tomariam a vacina se pudessem.

Na quarta, a Dinamarca foi o primeiro país europeu a parar completamente a aplicação das doses da AstraZeneca, algo que deverá atrasar bastante sua campanha de vacinação. Nas últimas semanas, diversas nações europeias, entre elas França, Alemanha e Itália, chegaram a suspender sua aplicação temporariamente. Após o parecer da EMA, a maior parte dos países voltou a aplicá-la com idade similares às alemãs.

Há semanas, Merkel era questionada se pretendia se vacinar contra o coronavírus e, especificamente, se iria tomar o inoculante da AstraZeneca. Sua resposta era sempre que sim, mas apenas quando chegasse sua vez. Os políticos alemães têm ressaltando com frequência a importância de não fular a fila de vacinação — e a impressão de que estariam passando na frente poderia por si só ter impactos significativos.

A União Democrata Cristã (CDU), partido de Merkel, enfrenta uma das piores crises de sua história recente, envolta em escândalos de corrupção, acentuada pela lentidão inicial da vacinação no país. Até o momento, apenas 17% da população recebeu ao menos uma dose. No Reino Unido, este percentual é de 49%. Nos EUA, de 39%.

Em paralelo, o país lida com um novo surto de Covid-19, que levou a chanceler a apresentar um projeto para centralizar em si as medidas de controle da pandemia. A iniciativa permite que o governo federal tenha poderes de implementar regras específicas mesmo sem o aval das autoridades estaduais — até o momento, devido ao modelo federativo alemão, a maior parte das políticas de contenção da pandemia está na mão dos estados.

Merkel chegou a declarar uma quarentena total durante a Páscoa, mas se viu pressionada a recuar diante da hesitação dos Estados, fez um apelo nesta sexta para que o Parlamento aprove o projeto, ressaltando que toques de recolher e quarentenas são fundamentais para conter a nova onda da doença:

— A terceira onda da pandemia pegou nosso país com firmeza — disse ela durante o discurso, que foi interrompido por parlamentares da sigla de extrema direita Alternativa para a Alemanha. — Funcionários de unidades de tratamento intensivo estão enviando um chamado de socorro atrás do outro. Quem somos nós para ignorar seus apelos?

A Alemanha viu, nas últimas duas semanas, um aumento de 19% nos novos casos de Covid-19, com mais de 25 mil novos diagnósticos na quinta-feira. As mortes no país, em paralelo, cresceram quase 41% no mesmo intervalo. Ao todo, mais de 3 milhões de habitantes do país já foram contaminados, com mais de 76,6 mil mortes.