Mesmo após conserto de elevatória, drama da falta d'água continua para muitos no Rio

Marcelo Antonio Ferreira*
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Foto: Cléber Júnior

Apesar da elevatória do Lameirão, em Senador Vasconcelos, operar com 100% da capacidade desde o dia 21 de dezembro, segundo divulgou a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), a falta d'água ainda é a realidade de moradores de diversos pontos da Região Metropolitana do Rio. Moradores da comunidade do Santa Marta, em Botafogo, na Zona Sul, estão desde o início de dezembro com problemas no abastecimento

Apesar da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) ter anunciado que a elevatória do Lameirão voltou a operar com capacidade total desde o dia 21 deste mês, moradores de diferentes pontos da Região Metropolitana do Rio ainda convivem com problemas no abastecimento. Em novembro, a queima de uma das bombas da elevatória, localizada em Senador Vasconcelos, na Zona Norte, provocou a redução da vazão de água para 75%, atingindo mais de um milhão de pessoas com a falta d'água.

O cenário não é novidade para algumas famílias que encaram essa situação há décadas e veem na privatização da estatal uma esperança. No bairro de Vila Central, em Queimados, na Baixada Fluminense, a falta de saneamento e a irregularidade no abastecimento de água é um problema de muito tempo. Há 11 anos, Pablo Eduardo dos Santos, de 27 anos, mora lá com a família, composta por quatro filhos, que dependem da água de um poço:

— Não tem saneamento, a água não escoa. Qualquer chuva que dure cinco minutos gera esse constrangimento, tudo tomado de água misturada de esgoto, chuva e rua transbordando aí. A gente acaba expondo as crianças. Nesse entra e sai, elas acabam pisando na água. Meu caçula teve uma alergia gravíssima na pele por causa disso. Isso é um descaso imenso com a população queimadense. Não temos água potável. Dependemos do poço, que tem um solo contaminado — conta o morador.

Também moradora de Vila Central, Celene Santos é uma das pessoas à frente da batalha por água no bairro. Em situação precária, a área ainda está em expansão, o que dificulta a oficialização de certos endereços, o que, por sua vez, complica a possibilidade de obras por parte da Cedae.

Nesta terça-feira (29), depois de três semanas, a água voltou, mas com o fluxo ainda fraco. Porém, de acordo com ela, as tentativas de diálogo para que a Cedae instale uma tubulação que alcance o bairro todo, já que partes da localidade ainda não são atendidas, o que leva os moradores a usar os poços. No local, o lixo também não é coletado regularmente.

— O solo é muito contaminado por ferro, então todo mundo que furava o poço tinha problema de saúde por causa da ferrugem. Por falta de informação, a população fazia filtros manuais. A água saía sem ferrugem, mas com cheiro forte. As pessoas achavam que estava boa para consumo, mas não estava.

A comunidade Santa Marta, na Zona Sul do Rio, desde o início de dezembro sofre com escassez e imprevisibilidade no abastecimento, com um revezamento sendo feito entre a parte alta e baixa do morro. A assistente administrativa Zete Lima, de 45 anos, vive com o marido, o filho e o pai, de 95 anos e, para não ficar totalmente desabastecida, tem que gastar um valor maior no orçamento mensal.

— Eu moro na parte baixa. Todo santo dia tem revezamento. Hoje, por exemplo, estou sem água. A hora que voltar não sei qual vai ser. Hoje a parte alta está abastecida. Não tem que ter revezamento, eu pago conta todo mês. Por que temos que ter isso? — questiona ela — No Natal, dia 24, estávamos sem água. Tínhamos que limpar tudo, fazer comida, mas não deu, porque simplesmente não tinha água — reclama Zete.

Procurada, a Cedae informou que uma equipe irá ao local em até 24 horas para atuar na solicitação, mas que não havia registro de reclamação de falta d'água no endereço nas últimas duas semanas.

Por conta do problema na elevatória do Lameirão, a Cedae firmou um acordo com o Ministério Público e a Defensoria Estadual para reduzir as cobranças em 25%, além de reembolsar gastos extras com carros-pipa e outras alternativas de abastecimento. Os dois órgãos pedem ainda, na Justiça,m uma indenização coletiva de R$ 51 milhões, a ser creditada igualmente em todas as contas dos consumidores de pelo menos 30 bairros e quatro cidades da Baixada Fluminense.

Segundo a Companhia, a redução nas cobranças será automática, sem necessidade de solicitação pelos clientes. As solicitações de reembolso devem ser encaminhadas para o e-mail revisaodecontalameirao@cedae.com.br, com nome completo, CPF, número de matrícula e motivo da solicitação e anexar documentação comprobatória (notas fiscais, CPF e outros).

*Estagiário sob supervisão de Leila Youssef