Mesmo com novo auxílio emergencial, renda total do brasileiro deve cair R$ 157 bilhões em 2021, diz estudo

Fernanda Trisotto
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BRASÍLIA - A renda total dos brasileiros pode recuar R$ 157 bilhões em 2021 por causa da redução do auxílio emergencial e das incertezas que rondam a economia, principalmente a recuperação do mercado de trabalho diante da nova onda da Covid-19. A projeção está em relatório da Tendências Consultoria, obtido com exclusividade pelo GLOBO.

“Diante do enxugamento das políticas sociais compensatórias e da perspectiva de recuperação moderada do mercado de trabalho neste ano, a massa de renda total domiciliar no Brasil deve apresentar retração de 3,5%, após alta de 5,2% em 2020”, diz o documento, assinado pelo economista Lucas Assis.

A conta leva em consideração a chamada massa de rendimentos, que é o total recebido por todos os trabalhadores no país. No ano passado, esse montnate foi de R$ 4,460 trilhões. Neste ano, a projeção é de 4,303 trilhões. Os R$ 157 bilhões são a diferença entre esses dois valores.

As projeções da consultoria consideram todas as fontes de renda, como rendimento de trabalho, aluguel, benefícios previdenciários e programas sociais — como o Bolsa Família e o auxílio emergencial. O maior recuo será sentido nas transferências aos vulneráveis, que vão diminuir 62,2%, depois de avanço de 221,7% em 2020.

Isso é reflexo direto da redução do valor do auxílio emergencial nesta reedição do programa. Em 2020, o auxílio teve cinco parcelas de R$ 600 e mais quatro de R$ 300. O governo desembolsou R$ 293,1 bilhões e alcançou quase 68 milhões de pessoas.

Neste ano, será pago em quatro parcelas de R$ 250. Mulheres chefes de família recebem cota de R$ 375 e quem mora sozinho, R$ 150. Só uma pessoa por domicílio pode receber os valores.

Ainda assim, a Tendências estima que para 73,7% dos beneficiários do Bolsa Família a parcela do novo auxílio será mais vantajosa.

A partir de agosto, a consultoria trabalha com a reformulação do programa, que já foi confirmada pelo ministro da Cidadania, João Roma, em entrevista ao GLOBO.

“Ao ampliar a cobertura de proteção social entre os considerados “invisíveis”, o novo desenho do PBF (Bolsa Família) deve atender 17,0 milhões de famílias (2,5 milhões a mais ante março de 2021) por meio de um benefício médio nominal de R$ 250 — acima do creditado atualmente (R$ 186)”, pontua Assis.

Para a Tendências, somente em janeiro de 2022 é que o benefício médio do Bolsa Família poderia ser reajustado para R$ 300.

Incerteza no mercado de trabalho e Covid-19

O desempenho da economia brasileira diante do recrudescimento da pandemia da Covid-19 também provoca efeitos adicionais que impactam a renda total.

— Como a economia está patinando, o mercado de trabalho não recupera o quanto poderia. Ou ainda, via ausência de reajuste do salário mínimo, uma vez que a crise fiscal impede valorização real dos benefícios previdenciários – explica Assis.

O rendimento de trabalho é o componente de maior peso na composição da massa de renda. A Tendências estima que esse conjunto avance 1% em 2021, ante queda de 3,6% no ano passado, principalmente por causa do agravamento da situação sanitária, diminuição de incentivos a famílias e empresas e incertezas em relação ao cenário fiscal.

“A piora do balanço de riscos para a atividade econômica deve restringir o ímpeto de contratações, sobretudo no segmento de serviços, cuja tendência de crescimento deve ser interrompida à vista do recrudescimento do isolamento social em diversas localidades do Brasil”, diz o relatório.

A expectativa é de que a retomada de programas de auxílio, como o Pronampe e o programa de manutenção do emprego e renda (BEm), associados à vacinação em massa proporcionem ganho de tração para a atividade econômica no segundo semestre, com maior abertura de postos de trabalho formais e informais.

Auxílios retomados

O avanço da Covid-19, com aumento de casos e mortes em todo país e colapso simultâneo de sistemas de saúde em vários estados, obrigou o governo federal a reeditar ações de socorro que foram bem sucedidas no ano passado. Na última semana, foi publicada a medida provisória (MP) que autoriza a nova rodada do auxílio emergencial.

A reedição do benefício está limitada a um gasto de R$ 44 bilhões, mas o texto da Medida Provisória destaca que há possibilidade de extensão dos pagamentos, condicionada à disponibilidade de recursos.

Ainda em março, o Senado aprovou projeto que torna o Pronampe uma política de crédito permanente para as micro e pequenas empresas, e estabelece as condições dos financiamentos do programa. O texto será analisado na Câmara dos Deputados.

O governo ainda vai reeditar o programa de manutenção de emprego e renda (BEm), que vigorou no ano passado por meio da MP 936 e permitia a suspensão de contratos de trabalho e redução de salário e jornada.

Ainda é preciso definir como a medida será financiada: o presidente Jair Bolsonaro não gostou da proposta da equipe econômica de mudar as regras do seguro-desemprego para viabilizar a iniciativa.