Mesmo em períodos de cheia, áreas alagadas no Pantanal estão cada vez menores, aponta MapBiomas

O ano de 2021 foi o mais seco no Pantanal desde 1985. A área úmida do bioma não passou de 1,6 milhão de hectares (ha), 76% a menos do que os 6,7 milhões de hectares verificados no início da série do projeto MapBiomas, que monitora as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil. O estudo mostra ainda que a maior área úmida de água doce do mundo tem encolhido mesmo em períodos de cheia. Na última cheia, em 2018, as águas cobriram 5,1 milhões de hectares, 2,1 milhões a menos se comparada à área alagada na cheia de 1988.

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-- O que vemos é uma queda preocupante dos campos alagados. Além de menos extensas, as áreas têm permanecido alagadas também por menos tempo. Em geral, o período de cheia durava cerca de seis meses. Hoje, dura no máximo dois ou três meses -- afirma o geógrafo Marcos Rosa, que integra a rede de pesquisadores do MapBiomas.

O fluxo de águas do Pantanal é determinado pelas chuvas e pela capacidade de nascentes e rios que estão situados na área de planalto, a Bacia do Alto Paraguai. As águas do Rio Paraguai são essenciais para as inundações nos períodos de seca e cheia, quando vastas se alagam. O desmatamento no entorno das nascentes, com ocupação por extensas monoculturas; o assoreamento dos rios e as mudanças no ciclo de chuva, atribuídas à menor umidade levada para a região pelos "rios voadores", como é chamada a umidade trazida da Amazônia pelos ventos, estão entre as explicações para as alterações ocorridas na planície pantaneira.

Enquanto o Pantanal tem 83% de sua área ainda preservada, na Bacia do Alto Paraguai restam apenas 43% das chamadas Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Fora o desmatamento, inúmeras Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) implantadas nos rios da região são apontadas também como responsáveis por alterar o fluxo de águas que alcança o Pantanal.

-- Mesmo nas épocas de seca, as áreas alagadas ficavam em torno de 2 milhões de hectares. Agora, estão abaixo da metade -- diz Rosa.

O impacto de pastos exóticos

Segundo Rosa, a formação de menos campos alagados tem facilitado também a interiorização do desmatamento no Pantanal, que costumava ficar restrito às bordas. Pastos naturais, antes protegidos pela cobertura de água durante parte do ano, têm sido trocados por pastos exóticos, mudando completamente a paisagem e a biodiversidade da região.

O geógrafo diz que ainda não é possível afirmar se o encolhimento da área alagada no Pantanal é um novo padrão ou se pode ser revertido. Para ele, o que há de real é a necessidade de recuperação de áreas de vegetação em nascentes e nos cursos dos rios, que foram desmatados pela ação humana:

-- É preciso monitorar, mas ainda não sabemos se este é um novo padrão de fluxo de águas, fruto do desmatamento na região e na Amazônia, ou até da mudança climática. A recuperação de APPs existe, mas ainda há muito o que ser feito.

Em 2020 o Pantanal registrou o pior ano de queimadas da história. Segundo dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foram queimados 3,9 milhões de hectares, o correspondente a 27% da área total do bioma. Pelo menos 80% foram provocados por ações humanas. No ano passado, a ação preventiva e de combate por brigadas de incêndio reduziu danos. Foram 1,94 milhão de hectares, cerca de 12% do bioma.