Mesmo preso, Gabriel Monteiro poderá manter influência política

Preso na última segunda-feira acusado de estuprar uma jovem de 23 anos, o ex-vereador Gabriel Monteiro poderá manter sua influência na política mesmo dentro do sistema penitenciário. O youtuber, que se mostrou um forte cabo eleitoral nas últimas eleições, ajudou sua irmã e seu pai a conquistarem vagas no legislativo estadual e federal, respectivamente. Os dois ficaram entre os 20 mais votados. Após a divulgação dos resultados, a família chegou a publicar um vídeo onde afirmava que os três trabalhariam juntos nas fiscalizações.

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Monteiro foi cassado em decisão quase unânime (48 a 2) no plenário da Câmara de Vereadores do Rio, em 18 de agosto, por quebra de decoro parlamentar. Ele é acusado de assédio sexual, importunação sexual, coação no curso do processo, armazenar vídeo de sexo com menor de idade, além de um outro caso de estupro.

Por causa da cassação, ele ficou inelegível e teve sua candidatura indeferida pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) já no fim de agosto, durante a campanha eleitoral, o que não lhe impediria de continuar concorrendo até que o caso fosse julgado em segunda instância. Em 10 de setembro, no entanto, ele optou por não recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e entregar sua renúncia ao TRE.

A manobra foi pensada por Monteiro, já que ele corria o risco de ser eleito e ter a vaga na Câmara negada pelo TSE, que possivelmente julgaria o caso somente após o pleito. Em vez disso, o ex-vereador decidiu voltar suas forças para sua família e lançou seu pai, Roberto, como candidato a deputado federal, de modo a transferir seus votos para ele. A candidatura de Roberto foi lançada na data-limite imposta pelo TSE para substituição de candidaturas, em 12 de setembro.

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Com uma campanha conjunta, sempre com a presença de Gabriel Monteiro, seu pai, que foi às urnas como “Roberto Monteiro Pai”, foi eleito com 94 mil votos. Já a psicóloga Giselle Monteiro, irmã do youtuber, recebeu 95 mil votos e foi a 10ª mais votada para uma vaga no legislativo estadual.

Gabriel Monteiro também tentou retomar seu cargo na Câmara de Vereadores do Rio já no fim de outubro, passado o primeiro turno da eleição. Conforme divulgado pela coluna do jornalista Ancelmo Gois, do GLOBO, Monteiro chegou a apresentar, no último dia 27, uma ação para anular o ato administrativo que confirmou a sua expulsão do Legislativo municipal.

Em 2 de outubro, após o fim das apurações, ao lado da família, o youtuber publicou um vídeo comemorando a vitória: “Foi a campanha mais rápida do Rio de Janeiro. Meu pai teve 15 dias de campanha. Minha irmã um pouco mais que isso. Políticos vagabundos que acharam que tinham acabado com a minha carreira, podem esperar: vamos virar um trio de fiscalizadores. A Justiça vai reconhecer que fui covardemente retirado de lá. E parceiro, pode esperar o que vou fazer com os corruptos e funcionários fantasmas. Deus venceu”, disse.

Preso por estupro

Gabriel Monteiro foi preso no fim da tarde de segunda-feira, dia 7. Ele teve o mandado de prisão expedido pelo juiz Rudi Baldi Loewenkron, da 34ª Vara Criminal, que aceitou a denúncia do Ministério Público. O youtuber é acusado pelo crime de estupro contra uma mulher de 23 anos. O crime teria acontecido no dia 15 de julho.

Em depoimento à 42ª DP (Recreio), a jovem contou que conheceu Monteiro na reinauguração de uma boate na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, e que ele a levou para a casa de um amigo no bairro do Joá, onde o crime teria sido praticado.

Ainda segundo a mulher, o ex-vereador a constrangeu ao lhe apontar uma arma antes das relações sexuais — que, segundo ela e uma amiga que a acompanhava no dia, foram forçadas — e chegou a agredi-la com tapas no rosto durante o ato. Monteiro também teria se negado a usar preservativos, mesmo com os apelos feitos pela jovem.

O ex-vereador passou por audiência de custódia na tarde de terça-feira, e foi transferido para a Cadeia Pública Joaquim Ferreira de Souza, no Complexo de Gericinó, em Bangu, na manhã desta quarta-feira.

Após sua prisão, Giselle e Roberto publicaram um vídeo da sobrinha do youtuber com um desenho para o tio. Além disso, a psicóloga também repostou mensagens de apoio ao irmão.

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Sob o pretexto de fiscalizar as condições de funcionamento, Gabriel Monteiro — eleito vereador em 2020, o terceiro mais votado do Rio — passou a entrar em instalações públicas ao lado de seus assessores, produzindo imagens para vídeos que seriam publicados nas redes sociais e monetizados.

O vereador cassado se envolveu, no início deste ano, em confusões com a vereadora Laura Carneiro, então secretária de Desenvolvimento Social, ao tentar invadir um abrigo para crianças e adolescentes durante a noite. Ela foi seguida por quase um mês por assessores de Monteiro, que buscavam flagrá-la em alguma situação desconfortável. Além disso, o youtuber também acusou um empresário de tentar suborná-lo para não fiscalizar as instalações da empresa que prestava serviços de reboque e de depósito de veículos para a prefeitura.

Em março deste ano, uma reportagem do "Fantástico" exibiu depoimentos de ex-funcionários que o acusaram de manipulação de vídeos, inclusive com menores de idade, e de mulheres que acusaram o então vereador de estupro e abuso sexual.

Dias depois, começaram a circular vídeos nas redes sociais em que Gabriel aparece fazendo sexo com diversas mulheres. Um deles com uma adolescente de 15 anos que frequentou a casa de Gabriel por dez meses, e era recebida ao som da trilha do infantil ''A Galinha Pintadinha''. Gabriel afirma que acreditava que a garota tinha 18 anos, mas o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define como crime filmar relações sexuais com menores.

Em meio às investigações do Conselho de Ética, a Câmara do Rio aprovou uma resolução que afetou os rendimentos extras de Monteiro — que, segundo seus assessores, faturava cerca de R$ 300 mil por mês com as produções de vídeos.

As acusações que pesaram contra Gabriel incluíram o fato de expor menores em situações sensíveis e as identificando nas redes sociais. A mesma tese se aplicou a um outro vídeo em que Gabriel orienta uma criança de 12 anos sobre como proceder para a família receber doações em dinheiro. Além disso, pesou contra o ex-vereador a denúncia de agressões contra um morador de rua por parte de um segurança durante a produção de um vídeo na Lapa.