Mesmo sob investigação políticos baianos tentam reeleição; maioria é alvo da Lava Jato

Deputado Lúcio Vieira Lima (Fátima Meira/Futura Press)

Por Ana Paula Lima

Salvador (BA) — Na véspera de um feriado, em abril de 2017, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator da Lava Jato, Edson Fachin, divulgou uma lista que tirou o sono de muitos parlamentares. O ministro autorizou a investigação de 83 políticos (oito ministros, 12 governadores, 24 senadores e 39 deputados) com base nas delações premiadas de executivos e ex-executivos da Odebrecht. Entre os denunciados, 12 políticos baianos: Lídice da Mata (PSB), Antônio Brito (PSD), Cacá Leão (PP), Daniel Almeida (PCdoB), José Carlos Aleluia (DEM), Jutahy Júnior (PSDB), Mário Negromonte Júnior (PP), Nelson Pellegrino (PT), João Carlos Bacelar (PR), Arthur Maia (PPS), Edvaldo Brito (PSD) e Lúcio Vieira Lima (MBD).

No intervalo de mais de um ano, muitos tiveram o processo arquivado pela Justiça por falta de provas. Outros, apesar de ainda investigados, tentam uma vaga nas eleições deste ano, como é o caso dos seguintes candidatos à Câmara dos Deputados: Lúcio Vieira Lima, Cacá Leão e José Carlos Aleluia. Dos três, o caso mais emblemático é o da candidatura de Lúcio, irmão do ex-ministro Geddel Vieira Lima e liderança importante do MDB no estado. Além de ser suspeito de ter recebido repasse de R$ 1 milhão da Odebrecht para ajudar na aprovação de legislação que favorecia a empreiteira, ele, juntamente com o ex-ministro e com a mãe, Marluce, responde pelos crimes de lavagem de dinheiro e associação criminosa.

No ano passado, a Polícia Federal (PF) descobriu em um apartamento em Salvador, ligado à família, a quantia de R$ 51 milhões em dinheiro vivo. Nas caixas do montante, os peritos encontraram indícios de digitais dos irmãos. Atualmente, Geddel está preso em Brasília. Mesmo respondendo ao processo, Lúcio optou tentar se reeleger como deputado federal. E continua como um dos líderes do MDB baiano, dando as cartas na divisão das verbas do fundo partidário, por exemplo. O recurso tem provocado confusão no diretório estadual.

Candidatos da legenda alegam que a maior parte do dinheiro está sendo empregado na campanha de Lúcio, em detrimento dos outros correligionários. O também candidato a deputado federal pela sigla, Ruy Lima, por exemplo, acusa o MDB de não repassar as verbas de campanha do fundo partidário. Lima  afirma que já tentou marcar uma audiência com o presidente da legenda na Bahia, João Santana, para discutir a questão, mas sem sucesso. O candidato afirma também ter buscado um diálogo com Lúcio Vieira Lima. “Já tentei falar com ele (Lúcio) e ele disse que só ia nos dar R$15 mil, foi a resposta dele. Isso é inadmissível. Não se faz campanha com R$15 mil. Ele segurou o recurso prejudicando os outros candidatos só para a campanha dele”, reclama.

O MDB nacional recebeu mais de R$ 234 milhões do Fundo Especial de Financiamento de Campanha. O partido tem autonomia para decidir sobre a distribuição para as representações estaduais. Ao todo, Lúcio Vieira Lima já foi beneficiado com R$ 1,5 milhão doado pela direção nacional; o valor é três vezes maior que o recebido pelo candidato ao governo do estado, o emedebista João Santana. Entre os candidatos baianos da legenda, apenas Lúcio foi beneficiado com recursos do diretório nacional. Já a direção do MDB baiano doou cerca de R$ 100 mil a 11 candidatos em todo o estado.

Santana, presidente do partido no estado, afirma que o MBD recebeu cerca de R$ 2,3 milhões do diretório nacional. Do total, cerca de 90% do valor já foi distribuído entre 39 candidatos. Ele acrescenta que o partido vai repassar recursos para todos os que disputam as eleições e comentou a acusação do dinheiro ter sido empregado majoritariamente para a candidatura de Lúcio. “Esse fundo é decido pelo diretório nacional, a gente aqui apenas faz a distribuição de acordo com o potencial (de cada candidato). Com relação ao deputado Lúcio, ele e eu fazemos parte de uma comissão que determina quem é que vai receber (as verbas) e quem não vai”, explicou.

Lava Jato

Outro político que disputa as eleições este ano, mas segue investigado pela força-tarefa, é o deputado José Carlos Aleluia (DEM). Ele é suspeito de ter recebido, de forma ilícita, a quantia de R$ 300 mil da Odebrecht. De acordo com um relatório do Ministério Público Federal (MPF), a empreiteira realizou o pagamento no dia 17 de setembro de 2010, em favor do codinome “Missa”, que, segundo executivos da empresa, identifica Aleluia. O político nega ter recebido o valor, e mesmo com o processo ainda em andamento não desistiu da candidatura para deputado federal.

Outro que insiste em disputar uma vaga na Câmara Legislativa, apesar de estar na mira da Lava Jato, é o deputado Cacá Leão (PP). O processo contra ele foi transferido do Supremo Tribunal Federal (STF) para o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), no início do ano. Leão é suspeito de ter recebido R$ 30 mil para a campanha eleitoral de 2014, por meio por meio do Setor de Operações Estruturadas da empreiteira, responsável pelo pagamento de propinas.

Arquivados

Por falta de provas o STF arquivou as investigações contra Daniel Almeida (PCdoB), Lídice da Mata (PSB), Nelson Pelegrino (PT), Mário Negromonte Júnior (PP), Jutahy Júnior (PSDB), Edvaldo Brito (PSD) e Antônio Brito (PSD).

Disputa por vaga

Cerca de 79% dos 63 deputados que integram a Assembleia Legislativa da Bahia tentam a reeleição nestas eleições. No total, são 50 parlamentares. Já a disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados será a mais concorrida dos últimos 20 anos. De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) são 486 candidatos a deputado federal para 39 cadeiras destinadas à Bahia no Congresso — uma concorrência de 12 candidatos por vaga.