Metade dos docentes e um terço dos alunos dizem ter sofrido violência em escolas de SP

Iniciativa de combate à depressão e ao bullying em escola; problema piorou nos colégios estaduais de SP, segundo pesquisa com alunos e professores

SÃO PAULO — Ao menos 37% dos estudantes e metade do corpo docente (54%) de escolas estaduais de São Paulo afirmaram já ter sido vítimas de um ato violento em seus colégios. Bullying e agressão verbal lideram os relatos sofridos.

Os dados são do estudo "Qualidade de educação e violência", divulgado nesta quarta-feira pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) e pelo Instituto Locomotiva. A pesquisa ouviu pessoalmente e por telefone mil estudantes e 700 professores em 14 regionais do estado, entre setembro e outubro.

Os números mostram uma piora da situação escolar: há cinco anos, 28% dos alunos e 44% dos professores declaravam ter sofrido violência dentro da escola.

Além de bullying, queixa mais frequente entre alunos, e agressão verbal, mais descrita por professores, a comunidade escolar relatou casos de agressão física, furto, roubo, assédio moral e roubo ou assalto à mão armada.

Casos de discriminação também cresceram: 6% dos alunos e 15% dos professores sofreram pessoalmente, contra 3% e 9% deles que relataram o mesmo em 2017.

Mesmo quem não sofreu violência diretamente afirma conhecer casos do tipo na escola. O percentual de estudantes e professores que souberam de casos violentos em suas escolas neste ano são ainda maiores, mostra a pesquisa: chega a 81% dos alunos e 90% dos professores. Há cinco anos, a percepção era de 77% entre estudantes e 84% entre professores.

O estudo avaliou, ainda, o grau de violência percebida. Mais de 70% de alunos e professores classificaram como "intermediário" e "alto".

— Os números demonstram que o Estado não tem uma política para prevenir e reduzir o índice de violência nas escolas paulistas — diz a presidente da Apeoesp e deputada estadual, Professora Bebel. — Sei que não há condições de zerar essas ocorrências, mas é necessário que a Secretaria de Educação tome medidas para que esse assunto seja debatido nas unidades escolares.

Suzano

Um dos maiores casos de violência com repercussão nacional foi o ataque à escola estadual Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo. Na tragédia, em março, oito pessoas morreram e onze ficaram feridas.

Depois, em maio, em Carapicuíba, também na Grande São Paulo, uma professora foi atacada por alunos que arremessaram carteiras e livros contra ela em sala de aula. Em setembro, um aluno esfaqueou um professor em uma escola municipal na Zona Leste da capital.

A pesquisa mostra que há mais conscientização a respeito de atos violentos. Entre os tipos abordados, cresceu o percentual de professores que reportam os casos em suas escolas. Ao menos 70% deles citaram casos de bullying e 54% de discriminação nas escolas em que trabalham.

Segundo a pesquisadora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Unesp/Unicamp), Luciene Tognetta, os resultados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) já mostravam atenção aos casos de violência. Ela pondera, porém, que nem tudo pode ser colocado na mesma ordem.

— Nem todos os casos de violência são iguais, nem têm o mesmo remédio. A violência com arma de fogo e agressão física não aumentou. O que cresceu foram as pequenas violências, os episódios de violência entre pares. E eles estão relacionados também a questões de violência auto-infligidas, como pensamentos suicidas, exclusão, automutilação, presentes no cotidiano da escola — afirma Luciene.

O estudo revela ainda que diminuiu a percepção dos estudantes sobre a realização de campanhas de prevenção contra a violência nas escolas.

Entre os alunos, 57% relataram que suas escolas já fizeram ou fazem campanha contra a violência. Há dois anos, esse índice era de 78%. Entre os professores, o número se manteve estável: é de 83% hoje, contra 84% em 2017. A margem de erro da pesquisa é de 2,4 pontos percentuais.

Por outro lado, aumentou consideravelmente o percentual de alunos que declaram que a escola realiza campanhas e conversas contra discriminação e preconceito. O número é de 67% entre alunos e 84% entre professores. Há dois anos, o índice era de 36% entre alunos e 82% entre professores.

Constrangimento de ideias

Os pesquisadores também abordaram como professores e alunos se sentem em relação à exposição de ideias nas escolas do estado.

Ao menos 88% dos estudantes ouvidos e 92% dos professores concordam que deveria ser possível conversar sobre todos os assuntos na escola. Apesar disso, cerca de 1/3 disseram já ter se sentido constrangidos ao expor alguma ideia.

— Uma escola onde não existe bom espaço para diálogo, onde alunos e docentes reconhecem que professores não são valorizados e não ganham o que deveriam, é um ambiente fortemente favorável ao crescimento da violência — diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.

A presidente da Apeoesp comentou ainda sobre o canal de denúncias que a ministra Damares Alves (Mulheres, Direitos Humanos e Família) afirmou que está sendo formatado com o MEC para receber queixas de conteúdos que seriam considerados inadequados nas escolas.

— Em vez de ficar inventando espaço de denúncia sobre professores, a reflexão deveria ser por que há cortes de verbas para políticas de educação — disse Bebel.

Para a grande maioria (97%) dos estudantes e professores ouvidos, a escola é um lugar que proporciona oportunidades de fazer amigos e dividir experiências.

Eles também acham que a educação, ao lado da saúde, deveria ser a área mais protegida de cortes em períodos de crise — 67% dos alunos e 97% dos professores citaram a educação.

Cortes na área já motivaram protestos ao longo deste ano em várias cidades do país.

Em contrapartida, apenas 22% dos estudantes e 7% dos docentes consideraram o salário do professor da escola pública ótimo ou bom. E 82% dos alunos e 97% dos professores afirmam que os professores são menos valorizados pelo governo do que deveriam.

Secretaria vê 'viés político' em pesquisa

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo afirmou que a pesquisa tem "viés político" e que não contribui para a melhoria da educação "por estar ligada a uma entidade que possui interesses políticos partidários".

"A maioria dos dirigentes da Apeoesp é ligada ao PT. A própria presidente, inclusive, é filiada ao Partido dos Trabalhadores", afirmou a secretaria, em comunicado.

Além disso, a pasta afirma que o universo ouvido, de mil estudantes nas escolas estaduais, "corresponde a ínfimos 0,028% dos 3,5 milhões de alunos da rede" e "induz respostas que só dão margem ao que a Apeoesp deseja legitimar".

Sobre os professores, diz que hoje há cerca de 190 mil docentes na rede. "Construída de maneira enviesada, a pesquisa não reflete a realidade da rede estadual de educação", acrescenta a pasta, em nota.

A Secretaria da Educação destacou que lançou, em outubro, o programa Conviva SP, que busca identificar vulnerabilidade nas escolas e promover melhorias de convivência.

Também citou a apresentação de um plano de reestruturação de carreira dos professores da rede estadual, com aumento de salário, e a criação de um gabinete de planejamento das estratégias de segurança em toda a rede.

"A principal alteração é que em 2022, um professor com a carga horária de 40h terá salário inicial de R$ 4 mil, um aumento de 54,7% em relação à remuneração atual", diz o texto.