Metrô de Nova York fechado na madrugada: o sintoma de uma cidade doente

Por Catherine TRIOMPHE
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Funcionário da MTA, a agência que administra o transporte público em Nova York, limpa vagão na estação de Coney Island, no Brooklyn, na madrugada de 6 de maio de 2020

"Estamos em uma cidade que vive 24 horas, o metrô não foi projetado para ficar vazio, mas cheio", diz Gary Dennis, nova-iorquino.

Pela primeira vez desde 1904, o metrô "cidade que nunca dorme" parou à noite para ser desinfetado devido à pandemia de coronavírus. Uma decisão muito triste para quem vê no metrô um indicador da saúde da capital econômica americana.

O fechamento do metrô de uma a cinco da manhã desta quarta-feira deve permitir a eliminação de todos os vestígios do vírus em 6.500 vagões, através de diferentes técnicas que variam do uso de desinfetantes simples a lâmpadas ultravioletas, disseram autoridades da MTA, a agência que gerencia o transporte público da cidade.

Embora os casos de vírus e hospitalizações estejam em declínio em Nova York, a cidade continua sendo o epicentro da pandemia no país, com mais de 19.000 mortes, e ainda não há data para o fim das medidas de confinamento.

Para Dennis, 59, um guia que ama a Big Apple e suas 420 estações de metrô, trens cinzentos, barulhentos e envelhecidos, tão emblemáticos quanto os táxis amarelos ou a Estátua da Liberdade, são um excelente indicador de saúde da cidade.

A decisão de parar os trens à noite o chocou. "Sem metrô, Nova York morre", opina. "Com um metrô forte, a cidade está em forma".

O prefeito Bill de Blasio afirma o mesmo com frequência: o metrô é "o sopro da vida" que anima esta cidade de 8,6 milhões de habitantes.

Desde o início da pandemia, contudo, o serviço foi reduzido e o metrô nunca esteve tão vazio. A frequência caiu 90%, para menos de 500.000 passageiros por dia, de acordo com a MTA.

Imagens recentes de vagões ocupadas por pessoas sem-teto à noite causaram comoção. O fechamento noturno também é uma tentativa de incentivar essas pessoas a procurar abrigo.

Empresários e corretores, que agora trabalham de suas casas, desapareceram. Apenas os trabalhadores considerados essenciais permanecem no metrô: cerca de 800.000 funcionários de hospitais, supermercados ou restaurantes, geralmente jovens latinos ou negros, que correm pelos corredores, usando máscaras.

- "Vetor gigante do vírus" -

"Está vazio!", exclamou Will Ramos, 33 anos, encanador e reparador de todos os tipos, enquanto caminhava pela estação Union Square, uma das maiores da rede, na hora do rush, com um amigo que trabalha em um hospital

Para ele, o metrô é Nova York: um lugar onde você se aperta e se esforça, mas também onde vê "muita cultura e talento".

A epidemia, no entanto, transformou o metrô em um "vetor gigante do vírus", de acordo com uma de seus motoristas, Sujatha Gidla, que teve COVID-19 e denunciou a falta de proteção dos funcionários em uma carta aberta ao jornal New York Times, publicada na terça-feira.

Segundo o presidente da MTA, Patrick Foye, 109 dos 50.000 funcionários morreram de coronavírus desde março.

Embora ninguém saiba quando a pandemia terminará, o extenso projeto de reforma iniciado nos últimos anos, considerado urgente, está em risco devido à falta de recursos. As perdas são estimadas entre US$ 4 bilhões e US$ 8 bilhões, segundo alguns especialistas.

Nem a cidade nem o estado de Nova York, cujas receitas tributárias também estão em queda livre devido à paralisia da economia e à explosão do desemprego, não serão capazes de cobri-las. E muitos duvidam que o governo Donald Trump tenha pena do metrô em sua cidade natal.

"Os problemas de financiamento serão enormes", avalia Bruce Schaller, ex-chefe de transporte de Nova York e agora consultor sobre o assunto.

O especialista, assim como muitos outros, não duvida que o metrô acabará recuperando sua efervescência depois de se adaptar ao aumento do tráfego de ônibus e bicicletas.

"Ainda estamos longe da crise fiscal da década de 1970", diz Schaller. O infeliz estado do metrô naquela época, com criminalidade endêmica, era apenas um dos sintomas de "uma cidade gravemente enferma", explica.

Para ele, o problema atualmente é como sair da pandemia. "A vitalidade a longo prazo da cidade não está em questão."