'Meu filho vai crescer sem referência de pai', diz viúva de Cadu Barcellos

Pedro Medeiros*
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Hermes de Paula / Agência O Globo

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Hermes de Paula / Agência O Globo

RIO - “É preciso de muita força para seguir em frente e criar nosso filho. Infelizmente, ele vai crescer sem a referência paterna”, declarou muito emocionada Gabriela Alves durante velório do marido, o cineasta Cadu Barcellos, de 34 anos, no Cemitério da Penitência, no Caju.

Muito consternada, uma mulher que se identificou como tia do rapaz gritava que uma vida do sobrinho fora retirada por causa de um aparelho celular. Outros parentes afirmam da necessidade de unir forças em nome da criação do filho de Cadu, de dois anos.

— Participo da criação do Cadu desde os dois anos de idade ao lado da mãe dele. Ele me considerava como um pai e eu sinto que perdi um filho. Um grande homem que também se tornou pai e que batalhava pela família com sua esposa. Compraram casa, tinham sonhos, projetos. Agora só resta buscar forças para exaltar e continuar o legado dele — disse William da Silva, padrasto da vítima.

Amigos de Cadu Barcellos também estiveram presentes no adeus ao cineasta. Bastante abalada, Yrone Santiago, mãe de um dos melhores amigos da vítima, questionou a política de Segurança Pública do Rio.

— É um grande mistério para mim como existe todo um lobby para incursão em favelas em nome da segurança e um garoto bom, trabalhador e cheio de sonhos é morto em pleno centro da cidade. Em uma dessas operações, meu filho foi alvejado e ficou para paraplégico. O Cadu esteve sempre ao lado dele. Hoje, para ele, o sentimento é de quem perdeu um irmão — desabafou.

Amigo de Cadu, o artista plástico Marcelo Augusto contou que tinha um encontro marcado com o cineasta para a manhã seguinte ao crime e não sabe qual será o futuro do projeto que iriam tocar juntos

— Ontem, era para ser um dia de encontro, de risos e muito afeto para discutir um projeto voltado às comunidades. E eu passei chorando a morte de um irmão que a vida me deu. É uma perda muito grande para a favela, para as causas justas e necessárias. Foi embora um exemplo de homem que batalhou para chegar aonde chegou num país que tão pouco colabora com sua cultura, principalmente, negra — comenta Marcelo Augusto.

Codiretor de "Cinco vezes favela - agora por nós mesmos" foi esfaqueado por volta de 3h de terça-feira (10) na região do Centro, próximo à Uruguaiana. Cadu havia saído da Pedra do Sal, no bairro de Santo Cristo, de carona em um carro de aplicativo com uma amiga, que seguia para a Zona Sul, e o deixou no meio do caminho para que ele pegasse um transporte para casa.

Segundo relatos, ele já teria vindo da Rua da Conceição ferido e solicitando ajuda, vindo a cair na Avenida Presidente Vargas, esquina com a Rua Uruguaiana.

Campanha de arrecadação

Amigos e colegas de trabalho criaram, na tarde desta quarta-feira, uma campanha de arrecadação pela internet para dar apoio financeiro à família do jovem. Uma das organizadoras da iniciativa é a diretora-geral do programa "Greg News", no qual Cadu trabalhava há um ano, Alessandra Orofino. Ela explica que a ideia foi de arrecadar recursos para garantir os estudos do filho do cineasta. O recurso arrecadado será repassado integralmente à família, já com o pagamento dos impostos.

Ao longo do dia, amigos e coletivos sociais lamentaram a morte de Cadu Barcellos e falaram sobre a influência do cineasta nas artes e no dia a dia através de sua produção e seu engajamento.

Engajamento dentro e fora das artes

Carlos Eduardo Barcellos Sabino, de 34 anos, dedicou-se às artes para mostrar a vida real nas favelas cariocas. O cineasta Cadu Barcellos, como ficou conhecido, imprimia em seu trabalho as referências como morador do Complexo da Maré. Uma de suas obras de destaque é a participação no longa “Cinco vezes favela – Agora por nós mesmos”, de 2010, produzido por Cacá Diegues e Renata Almeida Magalhães, em que participou como diretor e argumentista no episódio "Deixa voar".

Dançarino, produtor, roteirista e professor, Cadu Barcellos também voou por meio de suas produções engajadas. O longa foi escolhido para a Seleção Oficial do Festival de Cannes, em 2010, e premiado em festivais como o Biarritz, na França, e o de Paulínia.

A vida em comunidades sempre fez parte de sua carreira. No currículo, produções como a da série “Mais x favela” (2011), do canal a cabo Multishow, na qual foi diretor e roteirista, e do documentário “5x Pacificação”, de 2012, em que assina direção e roteiro ao lado de Wagner Novais, Rodrigo Felha e Luciano Vidigal.

Por trás de suas obras nas telas, Cadu foi o criador do Maré Vive, um canal de mídia comunitária feito de forma colaborativa por moradores do Complexo da Maré. Desde os 17 anos, ele promovia cursos de internet e audiovisual em ONGs do Rio. Coordenou o projeto Jpeg, na ONG Promundo, em que liderava um grupo de jovens que promovia ações ligadas à saúde e à equidade de gênero.

Como dançarino, Cadu Barcellos participou do Corpo de Dança da Maré dirigido pelo coreógrafo Ivaldo Bertazzo, por 3 anos, com espetáculos que rodaram o país, no qual atuava e dançava.

Ele era assistente de direção no Porta dos Fundos, no programa “Greg News”, na HBO. Em nota, a equipe do Porta dos Fundos ressaltou o talento do cineasta e disse que espera por justiça.

"Hoje nós do Porta dos Fundos acordamos profundamente tristes com a notícia do falecimento de Cadu Barcellos, um profissional amável, gentil, talentoso e dedicado, que trabalhou com a gente como assistente de direção na temporada de 2020 do programa "Greg News" (HBO). Aguardamos a apuração dessa tragédia e esperamos pela justiça, cientes de que nada pode reparar a perda da vida de uma pessoa tão jovem e querida."

*estagiário sob a supervisão de Cláudia Meneses

*Estagiário sob a supevisão de Claudia Meneses e Luciano Garrido