Meu filho viu ou quer ver ‘Round 6’, e agora? Especialistas falam sobre o que fazer com crianças e adolescentes

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Clara, de 9 anos, jura para a mãe, a nutricionista paulistana Paola Preusse, que nunca assistiu à “Round 6”, a série mais badalada da Netflix em 2021, primeiro lugar do ranking em 90 países. Mas Paola tem lá suas dúvidas: a menina sabe tudo sobre a produção sul-coreana. Mas diz se abastecer pelo TikTok e YouTube. Nas duas redes há milhares de conteúdos: teorias, challenges (os desafios do TikTok), clipes e memes. Segundo o Google Trends, o termo “Round 6”, desde a estreia em 17 de setembro, é o termo de maior alta em buscas no país.

Tendo assistido ou não, o fato é que Clara – e muitas outras crianças – já estão impregnadas por um conteúdo que claramente não é próprio para crianças nem menores de 16 anos, como informa a classificação indicativa da produção. Com cenas e temáticas de assassinato, tortura, tráfico de órgãos e suicídio, a série conta a história de 456 pessoas que aceitam participar de um jogo misterioso em que o vencedor ganhará bilhões de wones que pagarão suas dívidas. São seis brincadeiras infantis em que quem perde morre - literalmente, com muito, muito tiro.

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O repertório de “batatinha frita 1,2,3” (comandada por uma boneca gigante), cabo de guerra e bolinha de gude agradou em cheio a criançada. E deixou muitos pais extremamente preocupados. A empresária paulistana Andrea Cardoso, por exemplo, diz que a filha, Giovanna, de 10 anos, achou na biblioteca da escola cartão semelhante aos que os jogadores da série ganham - inclusive com um número de telefone. Os pais ficaram apavorados.

Para a psicóloga Rosália Maria Duarte, coordenadora do Grupo de Pesquisa Educação e Mídia da PUC-Rio, os pais geralmente tendem a subestimar o poder cognitivo dos jovens. E salienta que, segundo pesquisas recentes, imagens de violência chegam com mais gravidade para quem vive num contexto real de violência.

– Nossas crianças hoje nascem audiovisuais. Elas não são necessariamente capturadas nesse sentido que as pessoas temem: “Elas viram a série e agora vão querer dar um tiro no coleguinha”. Porém, esse conteúdo não faz bem em hipótese alguma – diz Rosália. – Mas isso não nos exime da importante tarefa de permanentemente dialogar com nossos filhos sobre o que estão vendo.

Para a especialista, os pais precisam colocar na rotina (“do mesmo jeito que você dá banho e dá jantar”, diz ela) uma conversa sobre o que a criança assistiu no dia. Qual a série ela viu ou com qual o jogo brincou? Gostou? O que entendeu?

– Isso ajuda na relação delas com as mídias e nos ajuda a não ficar em pânico – diz Rosália.

A abordagem na hora da conversa também precisa ser cuidadosa, frisa a psicóloga e orientadora educional Ana Coquito. Cada criança absorve o conteúdo - dessa e de qualquer outra produção - de forma diferente. Primeiro, é preciso perguntar o que eles apreenderam e, a partir da resposta, discutir.

– Não dá pra chegar com o discurso pronto sobre tráfico do órgaos porque não sabemos o que um absorveu. Assim como para os adultos, para eles, muitas coisas não ficam claras. Vale mais a pena perguntar o que elas entenderam e conversar a partir daí. Para que tocar em suicídio, se, às vezes, eles nem captaram essa parte?

Papel da escola

Claudia Costin, diretora do Centro de Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas, acha interessante esse assunto ter vindo à tona para colocar em pauta o papel da escola na discussão de dilemas éticos. A série faz críticas profundas ao neoliberalismo e à cultura da competição, e a especialista acha que as instituições de ensino poderiam aproveitar esse sucesso para abordar essas questão com alunos do Ensino Médio e até do último ano do Ensino Fundamental.

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– Continuo achando que crianças pequenas não devem ser expostas a determinadas cenas na TV, no videogame. Mas, se fosse professora de adolescentes de 16 anos, discutiria isso na escola: por que essas pessoas em situações extremas por vezes se expõem a riscos tão grandes para poder sair de uma vida miserável? Paulo Freire falava que o ensino deveria dialogar com a vida, e nessa geração está presente o game, TV e internet. É importante usá-los para ensinar a pensar, formular os próprios julgamentos – diz Claudia.

Rosália concorda que o diálogo não é só para pais e filhos. É função também do corpo escolar.

– É bom que as escolas conversem sobre isso, já que tendem a ignorar sobre o que acontecem nas mídias – diz ela, comentando, na sequência a questão das brincadeiras no recreio, papo de muitos grupos de pais no WhatsApp. – Encenações constroem a concepção do mundo social. A criança encena para ver como é. Isso não é ruim. É um problema se a escola não conversar sobre quais os limites do corpo, qual o limite da brincadeira. 

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