‘Meu pai foi caçar e nunca mais voltou’: A dor após 1 ano da chacina dos indígenas chiquitanos pela polícia do MT

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Yonas Pedraza Tosube, Arcino Sumbre García, Pablo Pedraza Chore e Ezequiel Pedraza Tosube Lopes foram mortos por policiais do Gefron. (Foto: Vitória Lopes/Yahoo Notícias)
Yonas Pedraza Tosube, Arcino Sumbre García, Pablo Pedraza Chore e Ezequiel Pedraza Tosube Lopes foram mortos por policiais do Gefron. (Foto: Francisco Fernandes/Yahoo Notícias)

“Meu pai foi caçar e nunca mais voltou”. Essa é a última memória que o filho do meio de Yonas Pedraza Tosube tem dele. 

Aos 4 anos, José Antonio é muito novo para entender que o pai e os familiares Arcino Sumbre García, Pablo Pedraza Chore e Ezequiel Pedraza Tosube Lopes foram mortos por policiais do Grupo Especial de Fronteira (Gefron) da Polícia Militar de Mato Grosso.

A chacina dos indígenas chiquitanos completou um ano no dia 10 de agosto, na fronteira entre Cáceres, em Mato Grosso, e a Bolívia. Eles costumavam caçar em uma fazenda do município boliviano de San José de La Frontera. 

Juntos com cinco cachorros e armados com um estilingue, uma pistola calibre 22, foice e facão, eles partiram para o território da caça. Sempre voltavam para casa por volta das 17h. Mas naquele dia, apenas os cachorros retornaram desesperados, e um deles com manchas de sangue. 

Na época, o Gefron afirmou que os policiais patrulhavam a zona rural, quando viram diversos homens armados na mata. Conforme o boletim de ocorrência, os policiais deram ordem de parada aos homens, quando foram recebidos por tiros. 

Os militares acharam que eles fossem traficantes ou “mulas”. A polícia alega que revidou os disparos, matando os 4 homens. Eles não apreenderam drogas na ocorrência, apenas 4 armas.

Além da impunidade, pois até hoje o caso não foi esclarecido, fica a saudade dos familiares, que cobram por justiça até hoje.

“O maiorzinho já entendeu, mas o do meio fala ‘meu pai foi caçar e não voltou’. É uma lembrança de cortar a alma”, conta Giza Pedraza, irmã de Yonas, sobre os sobrinhos de 6, 4 e 2 anos que ficaram sem o pai.

Todos eles eram relacionados, então Giza é sobrinha de Arcindo e Paulo, além de prima de Ezequiel. Ela relata que, após a morte do irmão, Yonas, as crianças ficaram com os avós. Entretanto, por conta das circunstâncias em que perdeu o filho, o pai deles entrou numa depressão profunda e parou de trabalhar.

“A situação é muito difícil, mais difícil ainda porque [Yonas] ajudava dentro de casa. Meu pai então caiu numa depressão e não quis mais saber do serviço, que era do lado brasileiro.A depressão continua, porque foi um filho que era tudo pra ele”, lamenta.

As mortes já foram denunciadas por três vezes às entidades internacionais como uma chacina. Dois inquéritos seguem em andamento, sendo um na Polícia Civil e outro na Polícia Federal.

As mortes já foram denunciadas por 3 vezes às entidades internacionais como uma chacina. Dois inquéritos, um na Polícia Civil e outro na PF, seguem em andamento. (Foto: Vitória Lopes/Yahoo Notícias)
As mortes já foram denunciadas por 3 vezes às entidades internacionais como uma chacina. Dois inquéritos, um na Polícia Civil e outro na PF, seguem em andamento. (Foto: Vitória Lopes/Yahoo Notícias)

Giza, inclusive, acreditava que pelo crime ser apurado na Polícia Federal, teria mais celeridade na resolução. Mas não foi o que aconteceu. 

“Está cada vez mais difícil a gente querer justiça. Pensamos que tirando da mão da Polícia Civil, poderia andar mais rápido o processo. Falamos com o delegado tudo o que ele precisava saber”, disse.

'NÃO TEM MAIS FUTEBOL'

Melania Pedraza é irmã de Pablo Pedraza. Um ano após a chacina, ela recorda que o irmão costumava ligar para ela todos os dias. Ela mora em Cáceres e ele residia na Bolívia.

“Sinto muita falta do meu irmão, porque todo fim de semana ele me ligava. E agora que fez um ano, já não tem ligação. E mais a minha mãe, que sofreu muito porque perdeu primeiramente o meu pai e agora ele. Vejo a minha cunhada, meu irmão e meus dois irmãos, muito acabados. Muito triste de ver eles”, descreve.

A única alegria dos familiares que ficaram na comunidade de San José de La Frontera é quando os parentes de Cáceres os visitam. Mas Melania relata que o cenário lá é desolador. As crianças não brincam mais, sem contar o medo de retaliações da polícia que os cercam. 

O campo de futebol, por exemplo, está inutilizado. “Eu mesma sou uma que chego lá e parece que vou encontrar eles, sabe? E quando a gente chega lá está só o vazio. Acabou, não tem mais brincadeira de futebol na comunidade, parece que até os meninos mais não conseguem brincar”. 

ARRIMO DA FAMÍLIA

Fora o luto, a família sofre financeiramente com a perda dos quatro homens, pois eles ajudavam no sustento da casa. Uma das viúvas começou a andar pela comunidade, oferecendo para fazer faxina. A esposa de Yonas, Fabíola, conseguiu um emprego em um mercado na Bolívia.

“Ela chora, ela sempre desabafa mais comigo, falando que sente muita falta. Os meninos agora estão mais apegados com os avós um pouquinho. Ela está trabalhando agora porque quem mais vai dar ajuda pra ela, né?”, conta Giza.

A caça era um meio de subsistência entre eles. Agora, ninguém se arrisca mais nas matas. “Tem vontade os mais jovens, mas não vão por medo”, relata Melania. Eles estão criando porcos e galinhas para sobreviver. 

INQUÉRITOS CORREM EM SEGREDO DE JUSTIÇA

Todos os órgãos procurados alertam que o processo corre em segredo de justiça, portanto, para não atrapalhar o andamento das investigações, não podem passar mais detalhes.

É o da Corregedoria da Polícia Militar, que afirma que o inquérito policial segue em andamento, próximo da fase de conclusão. Os policiais acusados seguem no trabalho ostensivo. O inquérito tem prazo de 60 dias, com possibilidade de prorrogação.

A chacina dos indígenas chiquitanos completou um ano no dia 10 de agosto, na fronteira entre Cáceres, em Mato Grosso, e a Bolívia. (Foto: Vitória Lopes/Yahoo Notícias)
A chacina dos indígenas chiquitanos completou um ano no dia 10 de agosto, na fronteira entre Cáceres, em Mato Grosso, e a Bolívia. (Foto: Vitória Lopes/Yahoo Notícias)

Já a Polícia Federal também é incisiva, alegando que as investigações estão em curso e em segredo de justiça. O Ministério Público Federal (MPF) também.

O padre e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Aloir Pacini, é uma figura que costuma trabalhar na defesa dos povos chiquitanos. Ele pontua que a justiça que tarda falha, pois até hoje as famílias estão desamparadas. 

"O genocida diz que bandido bom é bandido morto, e parece que estão primeiro querendo provar que os chiquitanos são bandidos [mulas do tráfico] para dizer que a vida dessas pessoas não vale nada. O braço dos militares é muito forte e se organizam para se protegerem, até nas coisas erradas, mas os braços dos chiquitanos são frágeis. A sensação de terra arrasada diante do massacre fica pulsando dentro da gente, não serão esquecidos", disse.

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