Meu pai virou presidente: como foi o ano de 2019 de Carlos Bolsonaro

REUTERS/Ueslei Marcelino

No dia da posse do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), aliados ficaram surpresos ao ver o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) desfilando junto ao pai e à primeira-dama, Michelle, no Rolls Royce presidencial pela Esplanada dos Ministérios.

Dias antes da cerimônia, Bolsonaro já dizia a pessoas mais próximas que tinha a intenção de reconhecer em público a atuação do filho “zero dois” durante a campanha presidencial. As ações de Carlos nas redes sociais foram consideradas fundamentais para aumentar a popularidade de Bolsonaro e fazê-lo chegar ao mais alto cargo do país. 

A cena de Carlos sentado atrás do pai, como um guarda-costas, também foi considerada simbólica por pessoas próximas ao presidente: era, na avaliação delas, uma demonstração do poder e influência que o filho mais próximo de Bolsonaro viria a ter no governo. 

O pitbull da família 

Carlos foi o primeiro dos três irmãos a ingressar na vida política, incentivado pelo pai, de quem é muito próximo. Além de ter uma tatuagem com o rosto de Jair, o “zero dois” era vizinho do pai em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, até a mudança dele para o Palácio da Alvorada. 

Foi eleito vereador em 2000, dois meses antes de completar 18 anos. Apelidado de “pitbull” pelo pai e pelos irmãos devido ao seu temperamento mais agressivo, principalmente nas redes sociais, tornou-se um influenciador de peso nas decisões do presidente. 

Ele se licenciou do mandato para acompanhar de perto a campanha do pai. Ao vereador se atribuiu boa parte do sucesso de Bolsonaro, que de um deputado do chamado “baixo clero”, com 27 anos de legislatura, se transformou em “mito”. 

Em novembro de 2018, antes de tomar posse, Bolsonaro admitiu em entrevista ao site O Antagonista que estudava nomear Carlos ao cargo de ministro. Sua ideia era devolver o status de ministério à Secom (Secretaria de Comunicação Social). Na ocasião, ele disse que era “importante ter o filho ao seu lado” e que ele é “fera nas mídias sociais”. 

Após críticas de nepotismo, no entanto, a ideia foi abandonada. Carlos atribuiu a Gustavo Bebianno a desistência do pai de nomeá-lo. A relação entre Bebianno, homem forte da campanha de Bolsonaro, e o filho “zero dois” já não ia bem desde o período eleitoral. Carlos não gostou de não participar das gravações de programa eleitoral, algo que ficou a cargo de pessoas próximas a Bebianno. A relação se deteriorou durante o governo de transição. 

Apesar de ser figura onipresente durante a campanha do capitão reformado, Bebianno demorou para ser nomeado ministro. A escolha não foi publicada no Twitter do presidente, como ele fez com quase todos os demais escolhidos. 

O vereador não escondeu a frustração com a nomeação de seu desafeto para a Secretaria-Geral da Presidência e já no dia seguinte anunciou que deixaria de contribuir diretamente para a comunicação do pai e abandonaria a atualização das redes sociais do presidente eleito. 

“Complemento aos amigos que desde ontem não tenho mais, por iniciativa própria, qualquer ascensão às redes sociais de Jair Bolsonaro. O meu ciclo de tentar ajudar diretamente chegou ao fim. São 18 anos de vida pública dedicados ao que acredito. Estes últimos 3 meses de licença não remunerada para acompanhar o que sempre acreditei se encerram. Semana que vem volto às atividades na Câmara de Vereadores do Rio”, escreveu no dia 22 de novembro em sua conta no Twitter. 

Carlos também costurou para esvaziar os poderes de Bebianno. Operou para que saíssem do guarda-chuva da Secretaria-Geral a Secom e o PPI (Programa de Parcerias de Investimentos), que acabaram sob o guarda-chuva da Secretaria de Governo, órgão que até então, segundo Bebianno, seria extinto.

Queda de ministro

Menos de dois meses depois da posse, em fevereiro, o governo enfrentou sua primeira crise. Bebianno acabou demitido depois que reportagem do jornal Folha de S. Paulo revelou a existência de um esquema de candidaturas laranjas do PSL para desvio de verba pública. Presidente do partido durante a campanha de 2018, ele negou responsabilidade sobre quaisquer irregularidades. 

A crise no governo piorou após Bebianno dizer que mantinha contato com o presidente enquanto este estava internado em São Paulo, onde se recuperava de cirurgia. No dia 12 de fevereiro, em entrevista ao jornal O Globo, o então ministro negou a existência de uma crise. “Só hoje falei com o presidente três vezes”, declarou. 

Pelo Twitter, Carlos classificou a afirmação de Bebianno como “mentira absoluta”. “Ontem estive 24h do dia ao lado do meu pai e afirmo: ‘É uma mentira absoluta de Gustavo Bebbiano que ontem teria falado 3 vezes com Jair Bolsonaro para tratar do assunto citado pelo Globo e retransmitido pelo Antagonista’. Não há roupa suja a ser lavada! Apenas a verdade: Bolsonaro não tratou com Bebiano o assunto exposto pelo O Globo como disse que tratou”, escreveu.

Para sustentar o que chamou de "mentira", o filho do presidente divulgou uma gravação em áudio do pai na qual ele supostamente conversa por telefone com Bebbiano -- somente a voz de Bolsonaro é reproduzida. 

"Ô Gustavo, está complicado eu conversar ainda. Então, não vou falar, não vou falar com ninguém, a não ser estritamente o essencial. Estou em fase final de exames para possível baixa hoje, tá ok? Boa sorte aí", afirma o presidente na gravação.

A gota d'água, no entanto, foi Bebianno ter colocado na agenda um encontro com o vice-presidente de Relações Institucionais da Rede Globo, emissora vista pela família Bolsonaro como “inimiga” do governo.

O compromisso foi tema de bate-boca entre o então ministro e o presidente por meio de áudios de WhatsApp. 

Bebbiano reclamou então do ataque de Carlos Bolsonaro no Twitter, se dizendo um “pacificador”. 

"Capitão, eu só prego a paz, o tempo inteiro. O tempo inteiro eu peço para a gente parar de bater nas pessoas. O tempo inteiro eu tento estabelecer uma boa relação com todo mundo", disse o então ministro. Tira isso do lado pessoal. Ele (Carlos) não pode atacar um ministro dessa forma. Nem a mim nem a ninguém, capitão. Isso está errado. Por que esse ódio? Qual a relevância disso? Vir a público me chamar de mentiroso? Eu só fiz o bem, capitão”, defendeu-se. 

No dia 18 daquele mês, o porta-voz da presidência, Otávio Rêgo Barros, confirmou a exoneração de Bebianno, sem dar maiores detalhes. “O motivo da exoneração do ministro Bebianno é de foro íntimo do nosso presidente”.

Em entrevista à rádio Jovem Pan, Bebianno afirmou que Carlos “inflamou” a cabeça do pai” e disse que a influência dele sobre o presidente é nociva para o governo. “Eu fui demitido pelo Carlos Bolsonaro”, afirmou, acrescentando que o filho do presidente "tem um nível de agressividade acima do normal". 

Ataques a Maia

Em março, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), avisou ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que deixaria a articulação política pela reforma da Previdência após ler um post de Carlos com críticas a ele. “Eu estou aqui para ajudar, mas o governo não quer ajuda”, disse o presidente da Câmara, segundo reportagem do jornal do O Estado de S. Paulo. 

Carlos havia compartilhado nas redes a resposta do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, à decisão de Maia de não dar prioridade naquele momento ao pacote anticrime, conjunto de medidas para combater o crime organizado e a corrupção. “Há algo bem errado que não está certo!”, escreveu o vereador no Twitter em 21 de março. No Instagram, Carlos também lançou dúvida ao escrever: “Por que o presidente da Câmara está tão nervoso?”

Rusgas com Mourão

As rusgas entre Carlos e o vice-presidente Hamilton Mourão começaram ainda na campanha eleitoral. Depois que Bolsonaro foi esfaqueado durante um ato de campanha em Juiz de Fora (MG), Mourão quis participar dos debates, o que irritou o clã Bolsonaro, que encarou a ação como um protagonismo excessivo do vice e barrou a ideia. 

Mas em abril a rodada de ataques de Carlos ao vice-presidente se intensificou depois que Mourão respondeu às críticas do escritor Olavo de Carvalho, guru da família Bolsonaro, aos militares. Carlos saiu em defesa de Olavo.

O vereador também se irritou com o convite de uma palestra do vice no instituto Wilson Center, nos Estados Unidos. O texto dizia que os primeiros cem dias do governo haviam sido marcados pela paralisia do governo Bolsonaro devido a "sucessivas crises geradas pelo próprio círculo interno do presidente" e que Mourão surgia como uma “voz moderada”. 

"Se não visse não acreditaria que aceitou (o convite) com tais termos", escreveu Carlos em 23 de abril de 2019.

O presidente precisou entrar em cena e usou o porta-voz para tentar debelar a crise. No dia 23 de abril, Rêgo Barros reproduziu, em declaração à imprensa, uma frase atribuída ao presidente sobre o filho. "É sangue do meu sangue”, teria dito Bolsonaro. “Carlos foi um dos grandes responsáveis pela vitória nas urnas, contra tudo e contra todos. O presidente enfatiza que estará sempre ao seu lado."

Ao falar sobre o vice-presidente, o porta-voz disse que ele terá o apreço de Bolsonaro. "É o subcomandante do governo, topou o desafio das eleições e terá a consideração e o apreço do presidente", afirmou Rêgo Barros.

Ataques a Heleno e demissão de Santos Cruz

Em abril, Carlos também passou a criticar a comunicação do Palácio do Planalto. O vereador é alinhado com a ala ideológica do governo, a mesma de Olavo de Carvalho, que disputa poder de influência com os militares. O grupo reivindicava que Bolsonaro diminuísse o poder do ministro da Secretaria de Governo, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, à qual a Secretaria de Comunicação é subordinada. 

“Vejo uma comunicação falha há meses da equipe do Presidente. Tenho literalmente me matado para tentar melhorar, mas como muitos, sou apenas mais um e não pleiteio e nem quero máquina na mão. É notório que perdemos oportunidades impares (sic) de reagir e mostrar seu bom trabalho”, escreveu o vereador em 29 de abril no Twitter. 

O ministro passou a ser alvo de uma fritura pública -- a hashtag #ForaSantosCruz se tornou um dos assuntos mais comentados do Twitter, o que o levou a reclamar pessoalmente com Bolsonaro. Na reunião, ele argumentou que era alvo de uma ação coordenada, com a participação dos filhos do presidente. 

Santos Cruz acabou demitido em 13 de junho, minutos depois de ter feito uma defesa enfática do governo no Senado. Sem mencionar nomes, em entrevista à revista Época, ele comentou os ataques que sofreu.

“Não é porque você tem liberdade e mecanismos de expressão, Twitter, Facebook, que você pode dizer o que bem entende, criando situações que atrapalham o governo ou ofendem a pessoa”, afirmou o general.

Depois de Mourão e Santos Cruz, o alvo de Carlos foi o ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) da Presidência da República, general Augusto Heleno. 

Sem citar nominalmente o ministro, o vereador levantou suspeitas sobre a conduta do GSI no episódio do militar da Aeronáutica preso com 39 kg de cocaína em voo da FAB (Força Aérea Brasileira). 

“Por que acha que não ando com seguranças? Principalmente aqueles oferecidos pelo GSI?”, respondeu o vereador Carlos Bolsonaro em um comentário. “Sua grande maioria podem (sic) ser até homens bem intencionados e acredito que sejam (sic), mas estão subordinados a algo que não acredito. Tenho gritado em vão há meses internamente e infelizmente sou ignorado. Estou sozinho nessa, podendo a partir de agora ser alvo mais fácil ainda tanto pelos de fora tanto por outros”, comentou nas redes sociais em julho. 

Na época, o porta-voz informou aos jornalistas que não comentaria a declaração do filho do presidente, mas destacou o profissionalismo do GSI. Heleno não se pronunciou. 

Sem mudanças por vias democráticas 

Em setembro, mais uma declaração de Carlos provocou reações de políticos e setores da sociedade civil, que viram na fala uma ofensa ao sistema democrático brasileiro. Ele escreveu no Twitter que, por vias democráticas, não haverá as mudanças rápidas desejadas no país.

"Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos... e se isso acontecer. Só vejo todo dia a roda girando em torno do próprio eixo e os que sempre nos dominaram continuam nos dominando de jeitos diferentes!", disse Carlos. 

"Não há como aceitar uma família de ditadores. É hora dos democratas darem um basta. Chega”, declarou Felipe Santa Cruz, presidente nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) ao jornal Folha de S. Paulo. 

No dia seguinte, justificou a declaração, chamando jornalistas de “canalhas” por terem, segundo ele, interpretado de forma equivocada a frase. O “zero dois” argumentou que a declaração se tratava de uma justificativa aos que pedem mudanças urgentes, e não era uma defesa da ditadura militar.

Em nome do pai 

Em outubro, horas antes de o STF (Supremo Tribunal Federal) iniciar a sessão que tratava sobre o julgamento da prisão em segunda instância, o vereador usou a conta no Twitter do pai para publicar uma mensagem — apagada minutos depois — defendendo a medida.

No texto, lia-se: "Aos que questionam, sempre deixamos clara nossa posição favorável em relação à prisão em segunda instância. Proposta de Emenda à Constituição que encontra-se no Congresso Nacional sob a relatoria da Deputada Federal Caroline De Toni".

No começo da tarde, após a repercussão, Carlos tuitou: "Eu escrevi o tweet sobre segunda instância sem autorização do Presidente. Me desculpem a todos! A intenção jamais foi atacar ninguém! Apenas expor o que acontece na Casa Legislativa!”

Caso Marielle 

Também em outubro, Carlos foi às redes sociais para criticar uma reportagem da TV Globo. A matéria, veiculada pelo Jornal Nacional, reportou que o porteiro do condomínio onde Bolsonaro mantém uma casa no Rio de Janeiro afirmou que Élcio de Queiroz, um dos suspeitos de matar a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e seu motorista, Anderson Gomes, pediu para ir à casa do presidente no dia do crime, em março de 2018.

O filho do presidente postou um vídeo em que exibe supostos registros internos do condomínio, com uma série de arquivos de áudio, e afirma que a solicitação de entrada não foi feita para o imóvel de Bolsonaro no dia 14 de março de 2018, dia em que Marielle foi assassinada. 

O Ministério Público do Rio também negou versão apresentada pelo porteiro e afirmou que não foi Bolsonaro o responsável por autorizar a entrada de Élcio no condomínio, e sim Ronnie Lessa, outro acusado dos crimes, que mora no local.

Em novembro, o procurador-geral da República, Augusto Aras, indicado ao cargo por Bolsonaro, se posicionou contra a abertura de inquérito no STF para apurar se o presidente e Carlos cometeram crime de obstrução de Justiça no âmbito das investigações sobre os assassinatos ao obterem as gravações da portaria. 

Sumiço das redes

Em 12 de novembro, as contas nas redes sociais do vereador amanheceram fora do ar, mas ele não explicou o motivo do sumiço na internet. Voltou a usar sua conta no Twitter menos de um mês depois. 

Na biografia, descreve-se como “Vereador da cidade do Rio de Janeiro (ainda podendo opinar sobre o que achar pertinente)”. O “pitbull” dos Bolsonaro voltou.