Mexicanas preparam receitas para escapar do desemprego e da violência de gênero

Yussel GONZALEZ
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Enquanto Alma acende o fogão, Gris amassa o milho e Leticia lava as verduras. A pandemia roubou delas o trabalho e as expôs à violência de gênero, mas juntas reuniram coragem e montaram uma cozinha onde puderam voltar a sonhar.

Elas pertencem ao coletivo Mulheres da Terra, uma pequena cooperativa que vende tortilhas, tlacoyos, tamales e outras receitas de milho nas redes sociais.

O projeto devolveu a elas a esperança, já que o coronavírus as levou ao desemprego, às humilhações e outras formas de violência doméstica sobre as quais preferem não se aprofundar.

A cozinha funciona em Milpa Alta, uma populosa localidade do sudeste da Cidade do México com vastos campos de cactos.

Com a venda dos alimentos, Alma, Gris, Leticia e outras três mulheres buscam sua autonomia econômica e refletem sobre a violência. A epidemia e principalmente os confinamentos fizeram com que percebessem que conviviam com agressores.

- Múltiplas violências -

Todas evitam dar seus nomes completos e cobrem o rosto. Motivos não faltam, já que o México viveu nos últimos anos um constante aumento da violência de gênero, acentuada durante a pandemia.

Em 2020, foram cometidos cerca de 940 feminicídios, enquanto as autoridades receberam 260.067 ligações de auxílio por violência contra a mulher, o maior número nos últimos cinco anos. Dessas ligações, 10% foram registradas em março, quando começou o confinamento.

Junto a um fogão ainda fumegante onde cozinha tlacoyos e tortilhas, Alma reconhece essa realidade.

"Infelizmente, todas sofremos violência, algumas de um jeito, outras de outro jeito (...). É violência psicológica, física, econômica", relata.

Em março de 2020, quando a epidemia chegou no México, as integrantes do coletivo ficaram desempregadas.

Segundo a Cepal, as demissões reduziram a participação de mulheres latino-americanas no mercado de trabalho de 52% para 46% entre 2019 e 2020.

Gris, de 34 anos e com quatro filhos, conta que diante do difícil panorama elas recorreram ao ofício que conhecem muito bem: "colocar tortilhas, tlacoyos, gorditas" no forno.

O caminho não é fácil em uma economia que retrocedeu 8,5% em 2020, sua pior queda desde a Grande Depressão, mas que crescerá 4,3% em 2021, de acordo com o FMI.

Mesmo as projeções mais pessimistas não conseguem abalar a alegria que se respira nesta cozinha, animada com música e decorada com a cor púrpura das espigas colhidas por suas protagonistas.

A confiança que construíram tornou possível para essas mulheres apoiarem umas às outras para drenar sua dor e curá-la.

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