MG faz poucos testes de coronavírus, mas se beneficia de isolamento

FERNANDA CANOFRE

BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - Enquanto oito estados brasileiros têm ocupação de leitos de UTI para Covid-19 acima dos 70% e os registros no país chegam a 13.149 mortes, os números oficiais de casos de coronavírus e mortes de Minas Gerais se mantêm relativamente baixos.

Até esta quarta-feira (13), o estado registrou 3.733 casos confirmados e 135 mortes -outras 123 estão em investigação. É o 11º estado em número de casos e o 12º em número de óbitos.

A testagem de casos é uma das mais baixas do país, mas a taxa de ocupação de leitos de UTI tem se mantido em 6% para internações relacionadas à doença.

Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo dizem que o número real de casos deve ser pelo menos 16 vezes maior e há necessidade de expandir os testes, mas também que isolamento precoce em comparação a outros estados e a adesão da população surtiram efeito.

O primeiro caso em Minas Gerais foi confirmado no dia 8 de março; em Belo Horizonte, no dia 16. A capital mineira -que concentra a maioria dos casos no estado e tem taxa de ocupação de leitos de UTI para Covid-19 em 44%- determinou medidas rígidas de isolamento e suspensão de aulas presenciais na mesma semana.

Apesar da determinação ter ocorrido na mesma época de São Paulo ou Rio de Janeiro, a epidemia pode estar cerca de duas semanas atrasada em Belo Horizonte, segundo o infectologista Carlos Starling, que faz parte do comitê da prefeitura da capital.

"Não estamos tendo a pressão [no sistema de saúde] que outros estados têm, o que é um indicativo de que a epidemia pode estar menor aqui. Os dados de velocidade de transmissão, dado pelo R0, o nosso tem se mantido em 1 ou pouco acima de 1", avalia ele. "Outro indicativo de que algo diferente ocorre em Belo Horizonte, segundo os parâmetros de trânsito, mostra que nosso índice de isolamento social está em torno de 55%, 60%".

Mas o número de casos suspeitos em Minas Gerais -101.572 até esta quarta- chama a atenção em contraste com o total de casos confirmados e com o número baixo de testes realizados no estado.

Segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde, até quarta-feira foram realizados 36.958 testes do tipo RT-PCR no estado -16.944 pela rede pública (Lacen e laboratórios parceiros) e 15.247 em laboratórios privados (considerando os maiores).

A taxa de resultados positivos nos grupos definidos para testagem é de 13,5%, segundo o governo, o que indicaria que seja semelhante no universo de casos notificados.

Em comparação, o Espírito Santo, que tem cerca de 4 milhões de habitantes, número quase cinco vezes menor que o da população de Minas, tem um total de 23.204 testes realizados. O estado vizinho tem 233 mortes e 5.401 casos confirmados do novo coronavírus.

O número alto de casos suspeitos em Minas, segundo o governo, se deve à recomendação de que toda síndrome gripal seja notificada. O secretário de saúde, Carlos Eduardo Amaral, defende que isso ajuda a aumentar a sensibilidade no estado para acompanhar a migração da pandemia. Há tendência de aumento de casos no interior.

O governo diz que adquiriu testes para ampliar a testagem, o que deve ocorrer entre o fim de maio e começo de junho, mas, passados quase dois meses desde o início das medidas de prevenção, diz que ainda busca o melhor caminho para essa estratégia.

"Quando ouvimos falar de países que testaram muito ou que testaram menos, todos tiveram algum dilema interpretativo. A dificuldade que se tem é fazer a pergunta correta, para que tenhamos a resposta correta e saibamos o que queremos", explicou Amaral em transmissão nas redes sociais na sexta.

Um relatório elaborado pela UFMG tentou apontar estas alternativas, mostrando que a testagem de toda a população não seria viável ou necessária no momento atual da pandemia. Os professores sugerem testagem de forma aleatória, como o modelo de pesquisas eleitorais, para compreender o cenário real.

O texto foi enviado ao governo do estado e à Prefeitura de BH -a capital planeja testar duas vezes mais que a Coreia do Sul, em breve. Atualmente, Minas Gerais trata como prioritários para realização de testes, pacientes internados com quadros graves, trabalhadores da saúde e segurança, além de presos e pessoas que vivem em asilos.

"Não adianta estimar quantos casos existem na população olhando apenas para casos graves e casos de profissionais da saúde", explica o professor Ricardo Takahashi, um dos integrantes do estudo. "Tem que ser uma mostra aleatória e em um conjunto de tamanho conhecido, a gente precisa saber quantas [amostras] foram examinadas".

Outro estudo elaborado pela UFMG aponta que a subnotificação em Minas Gerais é mais de quatro vezes maior do que a do país. Enquanto a média brasileira de subnotificação é de 3,6, em Minas Gerais ela chega a 16,5.

O cálculo é feito com base em hospitalizações por SRAG (síndrome respiratória aguda grave) de 2012 a 2019, comparadas ao mesmo período de 2020. Sem registros de surtos atípicos por outros vírus neste momento (Influenza, H1N1, MERS-Cov), com relação à série histórica, a conclusão dos pesquisadores é que o aumento estaria ligado à Covid-19.

Pelo boletim epidemiológico de quarta-feira, comparando o período das últimas 19 semanas com o mesmo do ano anterior, houve um aumento de 538% nas internações por SRAG em Minas.

"É um risco muito grande tomar qualquer tipo de decisão baseado em números oficiais, dado esse alto grau de subnotificação. Sendo que, devido a baixa testagem no estado, tem muitos casos de pessoas que estão contaminadas e não sabem, porque não foram testadas", explica o professor Leonardo Ribeiro, um dos responsáveis pelo estudo.

Sem testes, é complicado entender o que está acontecendo em cada região do Brasil, na avaliação do biólogo e colunista da Folha Atila Iamarino. Assim como os Estados Unidos, o Brasil têm uma heterogeneidade grande nas condições do sistemas de saúde, IDH (índice de desenvolvimento humano) e outros fatores que influenciam na evolução da pandemia em cada estado.

"O fato de termos poucos testes aqui para saber o que acontece momento a momento, em cada região do país, faz com que a gente possa ter números que indicam crescimento, estabilidade ou até uma queda, mas que por trás a gente tenha condições muito mais sérias e complicadas, regionais", explica ele.

Assim como os professores da UFMG, Iamarino também chama a atenção para os riscos de se orientar pelas taxas de ocupação de leitos de UTI. Quando os casos chegam a essa ponta do sistema, diz, significa que todo o resto já está sob estresse. Além disso, a ocupação dos leitos reflete um cenário atrasado de 15 dias atrás, aponta Takahashi.

Os números aparentemente confortáveis, comparados a outros estados, também tem aumentado a pressão quanto à reabertura e retomada das atividades econômicas em Minas. O governador Romeu Zema (Novo) determinou que a decisão cabe a cada prefeito; já o secretário de saúde, Amaral, defende que a manutenção do distanciamento social é a única medida para evitar o aumento de casos.

Minas se depara com o paradoxo da prevenção, na visão da professora da UFMG, Cristina Alvim: quando a medida é tomada no tempo certo, parece que é desnecessária, mas quando fica evidente que é necessária, pode ser tarde.

"A prevenção é invisível, quando ela funciona, a gente não vê", diz ela. "O que a gente conseguiu de achatamento da curva não é uma conquista definitiva. Não é porque conseguimos isso que nos autoriza a um movimento de reabertura e de afrouxamento do isolamento social".