De Michael a Douglas, comunidade do vôlei compra luta de atletas LGBTQIA+ com apoio de torcedores, atletas e patrocinadores: 'Movimentação incrível'

·6 min de leitura

A demissão do central Maurício Souza após uma postagem de teor homofóbico feita no último dia 12, consequência direta da pressão de patrocinadores sobre o Minas Tênis Clube, foi um capítulo histórico na luta pela causa LGBTQIA+ no esporte. No voleibol, em especial, a medida reflete um movimento de apoio que ganhou ainda mais visibilidade com as redes sociais: tanto torcedores que seguem fielmente a modalidade quanto aqueles que se sensibilizaram com o caso compraram a briga pela comunidade e engajaram-se na cobrança de medidas pela agremiação.

Noticiada no último dia 15 pelo GLOBO, a postagem de Maurício, em que o central criticava a bissexualidade do personagem Super-Homem, em nova edição dos quadrinhos da DC Comics, provocou uma troca de farpas indiretas entre atletas da modalidade, protagonizada por Douglas Souza, assumidamente homossexual e de voz forte nas redes sociais. Ele ganhou o apoio de atletas e ex-atletas como Sheilla, Fabi Alvim, Carol Gattaz e Gabi Guimarães. Na esteira do movimento, uma das principais torcidas do Minas, a Idependente, prometeu ignorar o atleta em quadra.

— Dentro das torcidas de vôlei sempre existiu um respeito maior com os LGBTQIA+ do que em outros esportes, como por exemplo o futebol. As torcidas cobram e possuem mais abertura com as diretorias dos clubes de vôlei do que geralmente acontece com as torcidas de futebol — diz Warley Santos, torcedor do Cruzeiro e integrante do movimento "Marias de Minas", que luta pela inclusão da comunidade nas arquibancadas esportivas.

A Olimpíada de Tóquio foi um movimento representativo nesse sentido. Nas redes brasileiras, a disputa "revelou" Douglas Souza como influenciador. Em quadra, o atleta já era considerado um dos melhores de sua posição e presença frequente na seleção brasileira. Mas foi em Tóquio que o atleta ganhou notoriedade como persona digital e voz ativista pelos direitos e respeito aos LGBTQIA+, uma posição externada com bom humor, espontaneidade e linguagem próxima das redes sociais. Tudo isso sem dar um passo atrás por ser quem é.

— Homofobia não é opinião. Grande dia! — comemorou o atleta, após o desfecho do caso Maurício. Uma de suas várias manifestações diretas sobre a repercussão do caso.

Para além de Douglas, os Jogos foram um marco para a comunidade. Segundo levantamento do site OutSports, estiveram no Japão 160 atletas lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer e não binários assumidos. Um número que superou as Olimpíadas do Rio e de Londres juntas. Esse novo cenário mundial desaguou em questões mais localizadas, como o cenário brasileiro do vôlei.

— Me surpreendeu essa repercussão. Não tinha me deparado com essa proporção antes. No vôlei, o debate sobre termos pessoas LGBTQIA+ é mais natural. Temos inúmeros jogadores e jogadoras assumidos jogando em alta performance em times de elite, inclusive na seleção. Exemplo disso é temos uma mulher trans jogando em um time feminino (Tiffany, do Osasco), que por mais que ainda seja uma polêmica e muitos nao aceitem, é um grande avanço pra nós — diz Yuri Senna, presidente da Canarinhos Arco-Íris, coletivo nacional de torcidas LGBTQIA+.

Yuri ressalta, porém, que o movimento vem depois de várias falas homofóbicas passarem "em branco" no esporte. Ele considera a atual resposta "atrasada, porém fundamental".

Vítima de homofobia em quadra, Michael comemora evolução

Em 2011, um caso grave de homofobia marcou o vôlei. Atuando pelo Vôlei Futuro em partida contra o Cruzeiro, em Contagem, o central Michael dos Santos foi vítima de gritos ofensivos da arquibancada. Na época, o atleta ganhou apoio de colegas de elenco e da diretoria do clube, mas o episódio virou um símbolo da luta da comunidade no esporte.

— Achei (a movimentação pelo caso Maurício) muito incrível. A gente vive na época das redes sociais, de posicionamento. Se a gente não se posiciona, estamos nos posicionando também. Eu já vi algumas mensagens do Maurício falando que é apenas opinião, mas se a gente validar essa opinião, acontece o que aconteceu comigo há dez anos atrás. Nada mais justo do que chegar nesse momento e falar sobre tudo isso — diz ele, que repostou o vídeo em suas redes e afirma não gostar de assistí-lo.

Aos 38 anos, o central hoje atual pelo BBVC, da cidade de Chalon-sur-Saon, na França. O episódio traumático foi parte pequena de uma carreira de sucesso, com passagens pelo Brasil Kirin e muito reconhecimento dos torcedores e fãs, que até hoje enviam mensagens de carinho para jogador.

— No vôlei do Brasil, o grande público que consome é a comunidade LGBTQIA+. No amador, temos muito jogadores. Quem assiste o vôlei é a comunidade. Somos (atletas) pessoas públicas e temos que estar muito cientes do que a gente vai falar, do que queremos no pronunciar. As falas do Maurício não são de hoje, então estava na hora disso acabar. Lógico, tudo ocorreu pela pressão da comunidade, dos atletas dela, e os patrocinadores e o Minas escutaram tudo isso. Nada mais justo de fazer o que tinha que ser feito.

Michael lembra que, na época, patrocinador e diretoria saíram em sua defesa. Hoje, comemora a massividade das redes sociais no auxílio aos posicionamentos e acredita que o vôlei tem enfrentado um cenário de menos homofobia em relação àquela época.

— Na minha época, não tinha o respaldo das redes sociais, mas o Vôlei Futuro e a Reunidas, que na época era o patrocinador, também se posicionaram. Me perguntaram se eu queria ir à imprensa porque eles soltariam uma nota na internet falando que aquilo era inadmissível. A gente já consegue ver esse movimento acontecendo naquela época. Faz dez anos e é tão atual que eu fico até em choque — diz o atleta.

Postura de patrocinadores é inédita, diz especialista

A montadora Fiat e a produtora de aço Gerdau, patrocinadora e marcas que dão nome ao time do Minas na Superliga, tiveram participação central no caso. Foi a pressão inicial delas que contribuiu para que o Minas buscasse uma retratação de Maurício em suas redes. Quando o jogador o fez em um perfil no Twitter com um número ínfimo de seguidores em relação a seu Instagram, onde havia feito a postagem original — que não apagou —, as marcas voltaram a se posicionar pedindo medidas mais concretas.

— A postura incisiva de ambas as marcas foi algo bastante novo, especialmente para o mercado brasileiro. Desde o início, ambas cobraram não só um posicionamento formal do clube, como também ações práticas. E deixaram claro que não se deram por satisfeitas com a reação inicial tanto do Minas quanto do atleta. Em mercados mais maduros, como nos Estados Unidos e na Inglaterra, hoje é mais comum ver marcas agindo assim, buscando que entidades e atletas patrocinados saiam do discurso para a prática, principalmente em situações de risco reputacional — diz Felipe Soalheiro, diretor da SportBiz Consulting, consultoria especializada em marketing esportivo.

Para Soalheiro, ainda que o ambiente político desfavoreça o diálogo e a discussão de direitos básicos, a tendência é que as marcas possam seguir o exemplo em outros esportes:

— Acredito que esta postura das marcas transcenda até mesmo o universo esportivo, alcançando todas as entidades e figuras públicas que de alguma forma representam uma empresa, seja na condição de patrocinado ou contratado, ou até mesmo funcionários. Quanto mais direta e pública for essa relação, maior será a cobrança, e consigo ver isso acontecendo mesmo no futebol ou qualquer outro esporte profissional — avalia.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos