Foi golpe? Com as palavras, Michel Temer

Michel Temer no Roda Viva (Reprodução/TV Cultura)

O professor de ciências cognitivas da Universidade da Califórnia Benjamin Bergen disse, certa vez, haver evidências claras, a partir de experimentos, de que o que pensamos secretamente pode emergir por meio da fala de um jeito, digamos, não intencional. Autor de um livro sobre o que os palavrões revelam sobre a maneira como pensa nosso cérebro, ele ensina ser possível que os tropeços na língua sejam resultados de fadiga, pressão, estresse ou efeito de álcool.

Não parece ser o caso de Michel Temer, que costuma selecionar palavras no dicionário como nossas avós catavam os melhores feijões para o almoço. Batidos, alguns desses feijões formavam o mais puro caldo do latim.

Ato falho ou não, o ex-presidente usou a palavra “golpe” ao se referir ao processo que derrubou Dilma Rousseff e permitiu sua chegada à Presidência durante entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura.

Quase três anos depois do fim do processo, que para muitos abriu uma caixa de pandora, Temer disse que jamais apoiou ou fez “empenho pelo golpe” – assim, no singular, como um bom artigo masculino definido.

Leia mais no blog do Matheus Pichonelli

Empenho mesmo quem fez foi Eduardo Cunha, que por um breve reinado operou como uma espécie de primeiro-ministro de um país à reboque da possibilidade do impeachment e das chamadas pautas-bomba. E que, no fim, rompeu de vez não só com um governo eleito, mas com o escopo do PMDB, hoje MDB, como fiel da balança no chamado presidencialismo de coalizão.

Sem trocadilhos, o que se tem hoje é um presidencialismo de colisão, mas isso é outra conversa.

Ou não.

Na entrevista, Temer negou ter conspirado contra a companheira de chapa, e admitiu que Lula, se fosse nomeado ministro da Casa Civil, talvez tivesse capitaneado outro destino ao governo a partir da reconfiguração das relações com o Congresso.

Recentemente, revelações do site The Intercept Brasil mostraram que a Polícia Federal tinha em mãos uma troca de mensagens entre Lula e Temer com este tema em pauta. Faltou combinar com Gilmar Mendes e com a Lava Jato.

Na versão oficial, a Casa Civil serviria apenas como bunker à prerrogativa do foro do petista em uma casa que fatalmente cairia. O resto é história.

Lida hoje, a análise de Temer serve como documento para a posteridade. Se tanto. Da mesma forma como evita o confronto com Jair Bolsonaro, ele se esquiva da análise mais óbvia de que um não existiria sem o outro.

Preso temporariamente duas vezes, ele segue investigado sob a acusação de receber propina da JBS e da Odebrecht. Seu partido não tem o peso de outros tempos. Não é base aliada nem de petista nem de tucanos. Nem tem bala para eleger os próprios presidentes pelo voto.

A preocupação sobre seu destino individual, em um país onde um ex-presidente pode ser preso antes de se defender de uma acusação, parece ser o único assunto que o tira do sério em bom português. (“Você pode imaginar o que acontece com o cidadão comum?”, perguntou ele. Pois é. Alguém já imaginou?).

O mesmo não acontece com o risco de o país rumar para o autoritarismo. O que importa, disse, numa espécie de sincericídio, é se os embates patrocinados pelo presidente podem ou não tirar a confiança de investidores estrangeiros.

“Se o empresário perceber que a economia está decolando, ele aplica o dinheiro independente do estilo do governo”.

Isso não é ato falho.