Michelle Bolsonaro, na linha de frente para atrair o voto evangélico e feminino

Jair Bolsonaro "é um escolhido de Deus" para salvar o Brasil e ajudar as mulheres, afirma sua esposa, Michelle. Antes uma acompanhante discreta, a primeira-dama ganhou protagonismo na campanha para reter evangélicos e conquistar o voto feminino, com resultados desiguais.

Até pouco tempo atrás, atribuía-se à esposa de Bolsonaro, uma evangélica fervorosa, uma influência silenciosa no governo, sobretudo na nomeação do pastor presbiteriano Milton Ribeiro como ministro da Educação e de André Mendonça, primeiro ministro evangélico no Supremo Tribunal Federal (STF).

Mas quando o presidente, de 67 anos, lançou sua campanha há um mês, Michelle, de 40, virou protagonista.

Apesentada por Bolsonaro como "a pessoa mais importante" durante um comício em Juiz de Fora, Minas Gerais, a primeira-dama dirigiu-se a centenas de seguidores, com louvores a Deus e ataques aos "inimigos" do governo em declarações que suscitaram o entusiasmo similar ou inclusive maior ao do discurso do presidente.

Em julho, em outra intervenção no Rio de Janeiro, Michelle qualificou Bolsonaro de "escolhido de Deus" para salvar o Brasil e defendeu que seu marido foi o "presidente da história que mais sancionou leis para a proteção das mulheres", por exemplo com melhorias na saúde.

As mulheres são a maioria (53%) dos mais de 156 milhões eleitores brasileiros, que vão decidir em outubro se vão dar o segundo mandato ao ex-capitão do Exército, candidato à reeleição pelo Partido Liberal (PL), ou se trarão de volta ao poder o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), favorito nas pesquisas de intenção de voto.

Segundo última pesquisa Datafolha, publicada nesta quinta-feira (15), Bolsonaro segue em segundo lugar, com 33% das intenções de voto, contra 45% para Lula. A diferença é ainda maior entre as eleitoras mulheres (29% vs 46%).

Por isso, segundo analistas, a terceira esposa de Bolsonaro entrou em cena.

"Ela tem o papel de torná-lo mais palatável às mulheres", diz Sergio Praça, analista político da Fundação Getúlio Vargas.

- Uma estratégia eficaz? -

Sobre Bolsonaro, que costuma usar uma linguagem informal e diz palavrões, chovem acusações de machismo. Só na semana passada, durante as comemorações do bicentenário da Independência, vangloriou-se de sua virilidade diante de uma multidão de apoiadores.

Segundo analistas, os eleitores também o criticam pela falta de políticas para contrabalançar o efeito desproporcional nas mulheres da crise econômica que se seguiu à pandemia de covid, que matou mais de 685.000 pessoas no Brasil.

Mas Michelle envia a mensagem de que o presidente é "um homem de família, conservador" e um candidato "confiável", afirma Carolina Botelho, pesquisadora de comunicação política e opinião pública da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Seu crescente protagonismo foi notado, inclusive, pelas autoridades eleitorais, que a repreenderam por superar o tempo permitido a aliados dos candidatos na propaganda eleitoral.

A duas semanas do primeiro turno, a inclusão de Michelle, no entanto, tem se mostrado insuficiente: Bolsonaro melhorou timidamente o desempenho com o eleitorado feminino nas pesquisas.

Michelle "pode ter reforçado [o voto das mulheres] que já estavam com o presidente, mas não conseguiu aproximar as que estavam contra Bolsonaro", afirma Botelho à AFP.

"Fala bem com um público fanático, radical, mas não com o resto da população", acrescenta.

- "Deus acima de todos" -

As aparições da primeira-dama também buscam afiançar a aproximação entre o católico Bolsonaro e os eleitores evangélicos, atraídos por sua defesa da família "tradicional".

Michelle tem um histórico de trabalho social em igrejas e uma relação próxima com pastores e líderes da bancada evangélica no Congresso.

"A principal força dela é o eleitorado evangélico", afirma Adriano Laureno, analista político da consultoria Prospectiva. Inclusive sua forma de falar "se assemelha muito à dos pastores", com alusões constantes a Deus e noções como o bem e o mal, assegura.

E tem dado certo.

Bolsonaro aumentou sua vantagem e tem 51% das intenções de voto entre os evangélicos, frente a 28% para Lula, segundo pesquisa de 10 de setembro do Datafolha.

Segundo estimativas, quase um terço da população brasileira é evangélica e seus líderes calculam que serão maioria em uma década.

Além disso, consultas mostram que a maioria dos eleitores acredita que política e religião devem andar de mãos dadas.

Algo que Michelle leva em conta em suas falas, ao repetir o lema da campanha que elegeu o marido, "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos".

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