Migrantes expressam ceticismo, apesar da visita de Kamala Harris ao México

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Migrantes jantam no Ginásio Kiki Romero, transformado em abrigo improvisado para migrantes em Ciudad Juárez, 6 de abril de 2021

Irma, uma hondurenha expulsa há pouco tempo dos Estados Unidos para o México, não fazia ideia da visita nesta terça-feira (8) da vice-presidente americana, Kamala Harris, mas ao tomar conhecimento, não conseguiu esconder o ceticismo sobre uma mudança na situação dos migrantes.

Sua precariedade em um abrigo na mexicana Ciudad Juárez (fronteira norte), onde permanece com dois de seus quatro filhos, e um passado de pobreza e violência em Honduras lhe deixam pouco espaço para criar ilusões com o plano americano de atender as causas da migração ilegal.

"Somos tirados de repente (dos Estados Unidos) e ninguém nos diz nada", conta à AFP Irma Escobar, de 33 anos, sobre sua expulsão há quatro meses sob o Título 42.

Essa norma foi instaurada em março de 2020 pelo então presidente Donald Trump para prevenir a propagação da covid-19.

Irma conta ter emigrado de Honduras com os filhos de 4 e 12 anos porque uma gangue pretendia recrutar o mais velho à força.

Em seu país, ela trabalhava como cozinheira de dia e lavadeira de noite. Deixou outros dois filhos, de 7 e 9 anos, com sua mãe porque não tinha dinheiro suficiente para levá-los à fronteira entre o México e os Estados Unidos.

"Saímos fugidos", diz a mulher, para quem a migração irregular talvez pudesse ser detida "mandando ajuda, com fábricas, porque lá (em Honduras) não há trabalho".

- Desconfiança -

Harris e o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, se reuniram nesta terça para conversar sobre a crescente migração irregular - especialmente de centro-americanos -, que se propõem a resolver atendendo as suas causas.

Na segunda-feira, na Guatemala, a vice-presidente admitiu que embora seu país esteja comprometido em ajudar a resolver a problemática, a solução não está próxima.

"Não vamos ver um retorno imediato. Mas vamos ver progressos", disse à rede NBC.

"Embora digam que estão combatendo (as causas), sempre há violência", diz à AFP Laurent Nicole Bueso, uma hondurenha de 19 anos, também refugiada em Ciudad Juárez.

A jovem e sua mãe, que emigrou em agosto de 2019, se registraram nos Programas de Proteção a Migrantes (MPP), o que lhes permitiria obter asilo nos Estados Unidos.

Laurent assegura ter emigrado assim que sua mãe, que trabalhava como professora, foi ameaçada por um aluno membro de uma gangue. A jovem diz sentir desconfiança.

"No nosso país falta um bom presidente (...), há mais migrantes de Honduras do que de outros países. Não se pode confiar nem no presidente, nem na polícia, em ninguém ali", disse.

- Deter a violência -

Para o padre Francisco Javier Calvillo, diretor do abrigo Casa do Migrante em Ciudad Juárez, o mais urgente é atender o problema da violência no Triângulo Norte, formado por Guatemala, El Salvador e Honduras.

"Não vai servir de nada as pessoas levarem suas empresas quando a maioria das pessoas saiu fugindo precisamente porque estavam em risco de vida (...) ou porque inclusive já mataram" um familiar, advertiu Calvillo.

Em abril foram registradas nos Estados Unidos cerca de 178.000 detenções de migrantes sem documentos na fronteira com o México, a maioria centro-americanos, a cifra mais alta em 20 anos, segundo autoridades daquele país.

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