Marcha de migrantes hondurenhos consegue chegar ao México em ida até EUA

Por Henry MORALES ARANA en Tecún Umán y Jennifer GONZÁLEZ COVARRUBIAS en Ciudad Hidalgo
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Vista aérea da caravana de migrantes em direção aos Estados Unidos, na ponte de Ciudad Hidalgo, no estado de Chiapas, em 19 de outubro de 2018

Milhares de migrantes hondurenhos que saíram em caravana de seu país com o objetivo de chegar aos Estados Unidos superaram nesta sexta-feira (19) um bloqueio de policiais e militares na Guatemala e conseguiram entrar no México, depois de forçar, com empurrões e gritaria, suas imensas cercas fronteiriças.

"Estou feliz, não estamos fazendo nada de errado, só queremos trabalho", disse à AFP uma mulher que segurava a mão de sua filha em meio à marcha maciça que entrou pela ponte internacional que cruza o rio Suchiate, que separa a Guatemala do México.

Os hondurenhos, que tentam escapar da violência e da pobreza em seu país, superaram aos gritos de "Sim, podemos!" uma barreira de dezenas de policiais e militares que estavam com veículos blindados. Também conseguiram, através de gritos e empurrões, derrubar uma cerca metálica que os impedia de passar pela fronteira.

O presidente do México, Enrique Peña Nieto, qualificou o incidente de "situação inédita" e advertiu que seu país não permitirá a entrada em seu território de maneira irregular, "muito menos de forma violenta".

"A entrada violenta no país não apenas atenta contra nossa soberania, mas também coloca em risco os próprios migrantes", disse Peña Nieto em um vídeo divulgado nas redes sociais.

Mas o presidente reafirmou que o México mantém a disposição de apoiar os migrantes que decidam entrar no país respeitando as leis.

A marcha reúne mais de 4.000 hondurenhos que saíram no sábado passado da cidade de San Pedro Sula, no norte de Honduras, após uma convocação divulgada pelas redes sociais.

A chegada do êxodo em massa ao México esteve marcada por momentos de tensão entre as famílias hondurenhas e as forças de segurança.

Vestida com uma camisa laranja, uma mulher de 27 anos gritava junto com seus compatriotas: "Somos migrantes, não criminosos!".

"Pedimos que nomeiem uma comissão para dialogar com funcionários do Instituto de Migração (do México). Não continuem colocando em risco crianças e mulheres", gritou um oficial em voz alta, enquanto a multidão forçava com dezenas de policiais para atravessar a fronteira.

Gás lacrimogêneo e balas de borracha foram disparados pela polícia contra os migrantes que estavam na margem do rio. Militares, migrantes e alguns jornalistas ficaram feridos nos confrontos.

- 'Um momento de crise' -

Esta onda migratória desencadeou a fúria do presidente Donald Trump, que ameaçou cortar a ajuda econômica para Guatemala, El Salvador e Honduras se não contiverem a caravana, cujo avanço também pediu para que o México impedisse, sob pena de fechar com militares a fronteira sul dos Estados Unidos.

"Estamos chegando rapidamente a um ponto que parece ser um momento de crise: números recorde de migrantes", disse o secretário de Estado, Mike Pompeo, ao chanceler mexicano, Luis Videgaray, durante uma entrevista coletiva conjunta na Cidade do México.

"A política migratória do México define o México, assim como a política migratória dos Estados Unidos define os Estados Unidos. Somos países amigos, somos sócios, vizinhos, somos países soberanos", respondeu Videgaray, que se reuniu na quinta-feira com o secretário-geral da ONU, António Guterres, para solicitar apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) para atender às solicitações dos refugiados da marcha.

"Não tivemos uma caravana deste tamanho que solicitasse de maneira simultânea refúgio, é um desafio logístico importante", comentou o chanceler à rede Televisa.

"Todos os que solicitam refúgio entrarão no território mexicano para processar, em território mexicano, a sua solicitação", disse Videgaray, assegurando ante Pompeo que México e Washington concordam com "a necessidade de abordar as causas profundas da migração centro-americana, particularmente de criar oportunidades de desenvolvimento".

- 'A mão no coração' -

Antes de cruzar para o México, os hondurenhos passaram a noite na localidade guatemalteca de Tecún Umán: igrejas, salões comunitários, quartéis do Corpo do Bombeiros e e até alçadas foram feitos de abrigo.

Muitos pediram a Trump que lhes desse a oportunidade de uma nova vida nos Estados Unidos.

"A minha mensagem para o presidente dos Estados Unidos é que coloque a mão no coração e nos ajude. Sabemos que esse país não é nosso, mas em nome de todos os hondurenhos que vêm aqui, peço ao presidente Trump que nos apoie", disse à AFP Doris Canales, de 54 anos, enquanto esperava para continuar a viagem.

"O caminho tem sido muito duro, muito difícil, mas não há trabalho em Honduras", assinalou Glenda Salvador, de 20 anos, entre a multidão reunida no parque local, a poucas ruas da ponte internacional que liga a Guatemala ao México.

Salvador decidiu deixar seu país com seus dois filhos pequenos, de 1 e 2 anos, e suas duas irmãs, Karen (17) e Dianixia (22), que também viaja com seu bebê. Os três desejam encontrar um emprego nos Estados Unidos.

No México, helicópteros das forças de segurança sobrevoaram a área da fronteira enquanto migrantes, funcionários e ativistas comentam sobre o seu futuro incerto.

Autoridades do Instituto de Migração do México estavam preparadas para receber migrantes em "pequenos grupos" para tramitar suas solicitações de refúgio ou visto humanitário, que é a única maneira pela qual o governo mexicano disse que vai permitir que passem pela fronteira.

Com uma taxa de homicídios de 43 por 100.000 habitantes, Honduras é considerado um dos países mais violentos do mundo.