Mais migrantes menores e desacompanhados cruzaram o Canal da Mancha desde o início da pandemia

Por Pauline FROISSART
Policiais franceses com máscaras ajudam garota de um grupo de migrantes que tentaram atravessar o Canal da Mancha para chegar à Inglaterra, que incluía outras quatro crianças e um bebê, em 16 de maio de 2020 em Calais, noroeste da França

O número de migrantes menores de idade que cruzam desacompanhados o Canal da Mancha para chegar ao Reino Unido aumentou durante a pandemia de coronavírus, enquanto as restrições de movimento os impelem a tentar atravessar de barco em vez de caminhão.

"Estamos vendo um número crescente de jovens atravessando por via marítima o Canal da Mancha para pedir asilo no Reino Unido", disse à AFP Roger Gough, que preside o conselho do condado de Kent, na região sudeste da Inglaterra, onde está localizado o porto de Dover.

Há um ano, o município lidava com "230 a 250 jovens" migrantes, "esse número quase dobrou e está perto de 470", apontou. E "as novas chegadas não param".

As tentativas dos migrantes de cruzar o Canal da Mancha aumentaram desde o final de 2018, apesar do perigo representado pelo denso tráfego marítimo, correntes fortes e baixas temperaturas da água.

Em 2019, as autoridades francesas e britânicas resgataram 2.758 migrantes, quatro vezes mais que em 2018.

A pandemia reforçou essa tendência, pois a diminuição do tráfego de veículos pesados levou os migrantes a tentar a travessia em pequenas embarcações.

"Costumávamos ver esses jovens atravessando em caminhões. Essa era a rota típica", disse Gough. Mas recentemente, "com as medidas de confinamento na Europa, a redução dos fretes, eles estão chegando ao país em barcos".

- Mil desde o confinamento -

Pelo menos 1.000 migrantes chegaram ao Reino Unido em pequenos barcos desde o anúncio do confinamento em 23 de março, segundo uma contagem da agência britânica PA, com pelo menos 145 somente no dia 8 de maio.

Desde o início do ano, as forças de segurança francesas registraram 230 tentativas de travessia, 79 delas em abril.

"O novo fator desde o confinamento é o clima, que é muito mais favorável para viagens marítimas, com noites calmas e um pouco de nebulosidade. Como resultado, a taxa de sucesso aumentou de 60% a 80%, o que também atrai migrantes para Calais, na costa norte da França, explica a autoridade francesa François Guennoc.

Além disso, "com o confinamento, as praias foram fechadas e os migrantes se beneficiam indiretamente do fato de que muitos moradores locais que nos informavam sobre tentativas de travessia não podem mais fazê-lo", acrescentou uma fonte policial francesa especializada em questões de migração em Calais.

Segundo Gough, "os jovens que chegam agora têm geralmente 16 e 17 anos", a maioria deles iranianos, iraquianos e afegãos.

Seu condado enfrenta o delicado desafio de hospedá-los, respeitando as medidas de distanciamento físico para impedir a transmissão da COVID-19, aumentando a "pressão financeira".

O condado, que costumava ter apenas um centro de acolhimento de migrantes, agora possui três.

Além de cuidar de 469 menores, também é responsável por apoiar 932 jovens migrantes com entre 18 e 25 anos de idade que estão fora do sistema de atenção estatal.

Questionado pela AFP, um porta-voz do ministério do Interior britânico se limitou a dizer que "o governo leva muito a sério o bem-estar de crianças desacompanhadas e fornece financiamento às autoridades locais, incluindo Kent".

No ano passado, a polícia britânica fez 418 prisões por crimes de imigração e 111 traficantes de seres humanos foram condenados à prisão.

Para desencorajar os migrantes a atravessar o Canal, os governos britânico e francês estão trabalhando na ideia de aumentar o número de migrantes reencaminhados para a França.