Milícia de ex-PM que fez campanha para ministra do Turismo ameaçou Freixo de morte, diz MP

A milícia comandada pelo ex-policial militar Juracy Alves Prudêncio, o Jura, que fez campanha lado a lado com Daniela Carneiro, a Daniela do Waguinho, ministra do Turismo do governo Lula, ameaçou o então deputado estadual Marcelo Freixo na época da CPI das Milícias. A informação está na denúncia do Ministério Público oferecida à Justiça em agosto de 2009 contra Jura e mais 13 comparsas acusados de integrar sua milícia, o Bonde do Jura. Segundo o documento, "policiais da 3ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar que investigavam a quadrilha foram alvos de ameaças de morte, assim como o deputado que presidiu a CPI das milícias".

A CPI foi presidida por Freixo, que será subordinado a Daniela no novo governo. O ex-deputado é o novo presidente da Embratur, agência vinculada à pasta do Turismo.

A denúncia do MP, que culminou na condenação de Jura pelo crime de associação criminosa, também relata que sua milícia ameaçava "de mortes as autoridades que 'ousam' investigar seus componentes". Além de Freixo, outro ameaçado pelo grupo foi o delegado da Polícia Federal Robson Dartagnan Nunes Barbosa, "responsável pela apuração da denúncia de que Jura realizava segurança clandestina".

Jura é um dos milicianos citados no relatório final da CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Segundo o documento, o miliciano — condenado a 22 anos de prisão por homicídio — chefiava um bando "formado por 70 pessoas, incluindo policiais militares” que atuava nos bairros Comendador Soares, Jardim Nova Era, Jardim Pernambuco, Palhada e Rosa dos Ventos, todos em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Ainda segundo o relatório, a milícia de Jura cobrava taxas de segurança R$ 20 a R$ 30 dos moradores, e de R$ 20 a R$ 40 de comerciantes. A quadrilha também tinha o monopólio da venda de gás, do sinal clandestino de TV a cabo e do "gatonet". Denúncias compiladas pela CPI apontavam que o ex-PM "estaria ameaçando os moradores a votarem nele dizendo que 'cabeças vão rolar' se ele não se eleger" e que homens armados de sua quadrilha obrigavam "moradores a colocar cartazes do candidato Jura nos postes, dizendo que os moradores têm que votar nele".

No período eleitoral de 2018, Jura entregou santinhos ao lado da ministra numa passeata na Baixada Fluminense. Na época, Jura estava preso em regime semiaberto, mas conseguiu autorização da Justiça para sair da cadeia para trabalhar e ganhou o cargo de Diretor do Departamento de Ordem Urbana na Prefeitura de Belford Roxo, comandada pelo marido de Daniela, Wagner dos Santos Carneiro, o Waguinho. Daniela conseguiu ser eleita deputada federal.

A ministra, o marido e o miliciano também posaram juntos para fotos feitas em outros momentos, como uma festa infantil. Segundo as sentenças que condenaram o ex-sargento da PM entre 2010 e 2014, Prudêncio era chefe do Bonde do Jura, uma milícia acusada de uma série de homicídios na Baixada Fluminense. Ele está preso desde 2009, quando foi o principal alvo da Operação Descarrilamento, da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), que levou para trás das grades nove PMs acusados de integrar a milícia que ele chefiava.

Freixo foi procurado, mas não comentou. Anteriormente, ele havia afirmado que caberia à ministra se pronunciar sobre o assunto e que a relação com ela era de "muito diálogo". Já a ministra, em nota, afirmou que "apoio político não significa que ela compactue com qualquer apoiador que porventura tenha cometido algum ato ilícito".