Milícia fatura R$ 4 milhões por prédios na região de Rio das Pedras

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RIO — Um esquema criminoso, envolvendo policiais e outros servidores públicos, está — direta ou indiretamente — por trás de tragédias recentes envolvendo a negociação de imóveis construídos de forma ilegal que, às vezes, tem a própria milícia como “incorporadora”. Escutas telefônicas que fazem parte de uma investigação sobre a atuação do grupo de paramilitares que controla parte da Zona Oeste, obtidas pelo GLOBO, revelam que os negócios rendem mais de R$ 4 milhões por prédio em comunidades como Rio das Pedras, onde duas pessoas morreram num desmoronamento na quinta-feira, e na vizinha Muzema, que, em caso semelhante ocorrido em abril de 2019, foi palco da morte de 24 moradores. As duas favelas são dominadas pela mesma quadrilha de milicianos.

Os diálogos, que constam de investigação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público estadual, revelam que a milícia conta com a cumplicidade de policiais civis, militares, funcionários da prefeitura e até de um juiz para a negociação de empreendimentos, erguidos sem um engenheiro responsável ou licença da prefeitura. Tanto no caso de Rio das Pedras — em que o prédio de quatro andares era uma construção familiar de 15 anos, que cresceu à sombra da falta de fiscalização — quanto no da Muzema, os imóveis que ruíram estavam em terrenos inadequados e foram erguidos sem respeito a parâmetros técnicos.

A investigação da especializada e do MP culminou na decretação das prisões de nove pessoas pela Justiça em dezembro do ano passado. Entre os presos, estão dois empreiteiros e um homem apontado como arquiteto da milícia, Clayton Luiz Vieira. Um diálogo entre Vieira e um interlocutor, gravado em julho de 2019, apenas três meses depois da queda de dois prédios na Muzema, chama atenção porque ele deixa explícito que as obras irregulares continuavam a ser tocadas, mesmo após o desastre ocorrido há tão pouco tempo. Sobre as construções na Muzema e em Rio das Pedras, ele sentenciou: “É à moda Bangu, é sem licença”. Vieira está preso.

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