Milícia formada por PMs pode ter sido responsável por três mortes, além de atentado a inspetor que os investigava

Rafael Nascimento de Souza
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RIO – A disputa de uma quadrilha de milicianos formada por policiais militares pelo controle da venda ilegal de cigarros brasileiros e paraguaios falsificados e comercializados na Feirinha da Pavuna, na Zona Norte do Rio, pode ter sido a motivação para o assassinato de pelo menos três pessoas nos últimos meses. De acordo com a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio, o grupo formado por pelo menos 20 agentes – entre eles dois oficiais — da PM estaria por trás das execuções. Eles estariam por trás, também, de um atentado a um inspetor da 39ª DP (Pavuna), que os investigava desde setembro de 2019. O ataque aconteceu no dia 14 de abril deste ano, com mais de 20 tiros disparados na direção do policial civil Bruno Rodrigo da Silva Rodrigues, quando chegava em casa, em Vila Valqueire, na Zona Oeste. Ele acabou atingido apenas na perna.

Na manhã desta quinta-feira, a Polícia Civil e o MP-RJ fizeram uma operação e prenderam seis pessoas do grupo, todos PMs. Foram presos os cabos Sérgio Berbereia Basile e Mauro Simões de Castro, os sargentos Fagner Alves da Silva e Joamilton Tomaz Ribeiro, todos lotados no 7º BPM (São Gonçalo). Além do cabo Euclydes José do Prado Filho, o Dinho, atualmente no Batalhão de Vias Expressas (BPVE).

Batizada de Operação “Todos Por Um”, a ação cumpriu também outros 15 mandados de busca e apreensão – 13 deles contra PMs, sendo um capitão e um tenente, que ainda não tiveram as prisões decretadas.

— Essa foi uma resposta firme contra uma tentativa de assassinato de um agente que estava investigando um crime. Uma tentativa que ameaça que é inadmissível, gravíssima, que representa uma verdadeira ao estado democrático de direito — afirmou o delegado Antenor Lopes Júnior, diretor do Departamento Geral de Polícia da Capital (DGPC), que completou:

— Eles são criminosos infiltrados dentro de uma instituição e (o que aconteceu) merecia uma resposta firme. Era um policial no exercício de sua função, que investigava algo contrário aos interesses desses bandidos. Por isso eles acharam no direito de mata-lo.

A investigação, que motivou a tentativa de assassinato de Bruno Rodrigo da Silva Rodrigues, já vinha acontecendo desde setembro de 2019, quando a 39ª DP recebeu informações de comerciantes de que policiais militares estariam coagindo empresários e vendedores da Feirinha da Pavuna a venderem apenas uma marca de cigarro de origem brasileira. O fumo estaria sendo produzido pelos próprios milicianos em bairros como Santíssimo e Sepetiba, ambos na Zona Oeste, e oferecido para que fossem revendidos na Pavuna.

Bruno e sua equipe, no começo do ano, foram até a Feirinha da Pavuna. Lá encontraram policiais militares do Batalhão de Vias Especiais (BPVE) que estariam ditando regras para os comerciantes.

— (No dia que o inspetor foi ao local) encontramos agentes do BPVE ali. Na delegacia, não explicaram direito a motivação para a presença no local, já que lá não abrange a jurisdição daquela unidade. Eles, então, alegaram que estavam fazendo uma missão para apurar o contrabando de cigarros e apresentaram uma ordem genérica de dois meses antes — lembra do delegado Rodrigo Barros, titular da 39ª DP.

Ao longo da investigação, o maior comerciante de cigarros da região, o empresário Gerson Luís Silveira, o Zinho, foi assassinado dentro de casa, na comunidade do Chapadão. Gerson havia prestado depoimento na delegacia e detalhado parte do esquema.

Já no dia 5 de fevereiro, David Pereira da Silva, o David Show, foi executado no centro de São João de Meriti, na Baixada. Ele também tinha um negócio de venda de cigarros na feira e acumulava diversas dívidas com fornecedores. Oito dias depois, o bombeiro reformado Edson de Souza, de 64 anos, foi executado dentro de seu carro, no Conjunto Habitacional da Marinha, na Pavuna. Ele era um dos responsáveis pela segurança da feira e tinha estreita ligação com David. Nenhum desses crimes foram desvendados pela Polícia Civil.

Ao notarem que o inspetor estava no encalço da quadrilha, o bando resolveu mata-lo, diz a Civil. Durante dois meses o agente foi vigiado e seguido, inclusive, dois dias antes do crime.

— No dia do crime o “informante” fez a vigilância do policial na delegacia. Ele então avisou aos PMs (Mauro, Joamilton e Sérgio) que ficaram na sua porta por mais de trinta minutos o aguardando — lembra Rodrigo Barros.

Quando o inspetor chegou em casa ele foi atacado com mais de 20 disparos, reagiu, mas acabou sendo baleado. Num primeiro momento a Polícia Civil pensou que fosse uma tentativa de assalto. No entanto, descobriu-se que era uma tentativa de execução. Após fugirem do local, Mauro, Joamilton e Sérgio abandonaram o veículo do crime a pouco mais de três quilômetros. No entanto, os investigadores acharam o carro e descobriram uma digital de Joamilton.

Nesta quinta, os investigadores estiveram em quatro batalhões: 7º BPM (São Gonçalo), 15º BPM (Duque de Caxias), 35º BPM (Itaboraí), Batalhão de Vias Especiais (BPVE).

“Eles se dedicaram exclusivamente para mata-lo”, diz promotora

A promotora do Grupo de Atuação ao Crime Organizado (Gaeco) Carmen Eliza Bastos de Carvalho, afirmou que o bando “se dedicou exclusivamente durante dois meses somente porque o policial civil estava investigando suas atuações”.

— Eles orquestraram a morte do agente. Eles se dedicaram dois meses a monitorar, seguir, investigar e fotografar a vítima para, finalmente, no dia que eles escolheram propício para executa-lo. Foram no mínimo seis pessoas nessa empreitada. Um assassinato tão somente porque esse policial civil estava investigando a atuação de personagens da policial militar que estavam naquele crime. Eles utilizaram vários veículos nessa vigilância — contou a promotora.

O major Ivan Blaz afirmou que “esses agente atentaram contra a vida de um policial civil” e que “não se pode permitir que homens e mulheres que combatam a ilicitude sejam ameaçados e mortos”. Por fim, o porta-voz da PM afirmou que “desvio de conduta se pune”.

O Ministério Público afirmou que dois oficiais da corporação estão sendo investigados e poderão ser presos nas próximas fases da investigação. O grupo preso nesta quinta-feira foi indiciado por homicídio triplamente qualificado, associação criminosa armada e adulteração de sinais de veiculo automotor. Caso condenados poderão pegar até 25 anos de cadeia. Os policiais não quiseram prestar depoimento e foram levados para o Batalhão Prisional da Polícia Militar, no Fonseca em Niterói. Já o “informante” foi levado para a Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica.