Milícia: novos prédios ilegais na Pedra Branca

Lucas Nascimento e Rafael Nascimento de Souza
Condomínio que está sendo contruído junto ao Maciço da Pedra Branca

RIO - A milícia que teria erguido as casas arrasadas pelas últimas chuvas, no bairro Barata, em Realengo, estaria construindo novos condomínios no local. Segundo moradores da região, o grupo paramilitar invadiu há cerca de um ano uma área de mata no Parque estadual da Pedra Branca, vizinha a dos imóveis destruídos domingo, para dar início a um empreendimento. As obras de pelo menos cinco prédios estão em andamento.

O grupo espalhou dentro do parque cartazes anunciando os apartamentos de quarto e sala. Cada um custará R$ 100 mil, segundo os anúncios. A obra, segundo moradores, foi embargada pela prefeitura, mas os trabalhos não pararam.

— Já ligamos várias vezes para a prefeitura, e nada. A obra segue a todo vapor. Estão fazendo isso para ganhar dinheiro, mas não pensam nas outras pessoas — disse um morador, que, pediu para não ser identificado.

Ele contou que as casas do bairro foram invadidas pela lama no domingo porque uma manilha, instalada pela milícia para desviar o curso de um rio, arrebentou, e a água levou tudo o que encontrou pela frente.

"Nova Muzema"

Depois da tragédia provocada pela enxurrada, moradores de Realengo já apelidaram o condomínio que está sendo erguido pela milícia de "Nova Muzema", numa referência aos prédios que desabaram, no Itanhangá, ano passado, matando 24 pessoas. Nesta terça-feira, a prefeitura derrubou um edifício na Muzema e, nos próximos dias, promete botar abaixo mais dois.

A Secretaria municipal de Urbanismo disse que já foram emitidas multas e embargos contra a construção do condomínio irregular em Realengo, mas ressaltou que cabe ao Inea licenciar obras no local. O instituto, por sua vez, afirmou que realiza regularmente fiscalizações para reprimir construções irregulares e desmatamentos no Parque da Pedra Branca. Mas alegou que é competência do município fiscalizar loteamentos em zonas de amortecimento da unidade, como é o caso dos prédios da milícia.

Em outras partes dos Maciço da Pedra Branca, ocupações irregulares também preocupam. Em Vargem Grande, loteamentos avançam sobre a encosta, com desmatamentos na zona de amortecimento e até dentro da área do parque. Um deles tem afetado um condomínio na Estrada dos Bandeirantes 28.600, invadido por um rio de lama no domingo.

— Às vezes, aparece algum órgão fiscalizador e param as obras. Mas, logo depois, voltam os tratores e queimadas. Já existem casas grandes, com gente morando. Não sabemos quem está por trás, mas estamos preocupados com nossa segurança. Ficamos abaixo dessas novas casas. Tememos o desmatamento e presença de possível milícia — diz um dos moradores.