Milícia perde espaço, e Câmara do Rio vê crescimento da esquerda

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
·5 minuto de leitura
***ARQUIVO***SÃO PAULO: LIVRO-LANÇAMENTO - O cientista político Bruno Paes Manso no lançamento do seu livro
***ARQUIVO***SÃO PAULO: LIVRO-LANÇAMENTO - O cientista político Bruno Paes Manso no lançamento do seu livro

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A nova Câmara Municipal carioca é um pouco mais de esquerda, menos povoada por políticos associados à milícia e com uma direita bolsonarista que inclui um legítimo Bolsonaro, o reeleito Carlos, um ex-PM influencer e o irmão do deputado estadual que dois anos atrás rasgou uma placa com o nome da vereadora assassinada Marielle Franco.

Marcello Siciliano (PP) e Zico Bacana (Podemos), nomes que orbitam o milicianismo, não entraram por pouco no rol de 51 vereadores que tomarão posse em 2021. São os primeiros suplentes na lista.

Policial militar citado no relatório final da CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio em 2008, Zico Bacana foi baleado de raspão na cabeça dias antes da eleição. Conseguiu 11,8 mil votos, que não bastaram para uma vitória.

Já Siciliano, que não teve a reeleição garantida com seus 17 mil votos, chegou a ser investigado no caso Marielle.

Carminha Jerominho (PMB) foi outra a ficar de fora. Ela é filha de Jerônimo Guimarães Filho e sobrinha de Natalino Guimarães, os irmãos condenados por chefiar a milícia Liga da Justiça.

Sorte diferente da que ela teve em 2008, quando ganhou uma cadeira na Câmara com 22 mil votos, mais que o quíntuplo do que amealhou em 2020.

Detalhe: estava presa quando foi eleita, alvo de operação da Polícia Federal que a apontou como beneficiária de um esquema miliciano que intimidaria moradores de comunidades a votar em determinados candidatos. Carminha, que negava as acusações, foi solta dias após o pleito.

Daniel Carvalho, filho do ex-vereador Luiz André Ferreira da Silva, o Deco, também não emplacou. Seu pai foi preso em 2011 em ação da Polícia Civil para combater milicianos. Três anos antes, Deco disse no plenário que tinha "vontade de dar um soco na testa" de Marcelo Freixo (PSOL) e depois foi acusado de tramar o assassinato do psolista, que presidiu a CPI das Milícias.

Ainda é cedo para comemorar o recuo de milicianos, diz Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP e autor de "A República das Milícias".

A CPI de 2008 mudou o modus operandi desses grupos, que passaram a "atuar mais nos bastidores" e "exercer influência muito mais sutil", afirma. A nova lógica: se antes os próprios chefes milicianos se candidatavam, agora colocam pessoas em quem confiam no lugar.

A família Brazão, do ex-deputado estadual Domingos Brazão, conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado cujo nome também quicou na investigação da morte de Marielle, teve novo triunfo eleitoral.

Waldir Rodrigues Moreira Junior, que nas urnas adotou o nome de Waldir Brazão, foi escolhido para estender a influência do clã na política. Ele é ex-chefe de gabinete de Manoel Brazão (PL), representante da família na Assembleia.

Domingos foi apontado como suspeito de organizar falso testemunho para incriminar Marcello Siciliano na morte de Marielle. Em 2018, seu irmão Chiquinho Brazão disputava com o vereador o eleitorado da zona oeste carioca, reduto miliciano.

Os dois concorriam à Câmara dos Deputados. Siciliano desistiu, Chiquinho se elegeu. Com a vitória de Waldir, o selo Brazão está agora nos Legislativos municipal, estadual e federal.

O vereador eleito integrará uma Câmara com peso considerável do centrão municipal e com três bancadas líderes. DEM e Republicanos, dos rivais de segundo turno Eduardo Paes e Marcelo Crivella, fizeram sete vereadores, assim como o PSOL.

A esquerda foi de 8 para 10 vereadores e agora representa 20% da Casa.

"Não é um salto gigantesco, mas aumenta do ponto de vista da representatividade", diz o psolista reeleito Tarcisio Motta, campeão de votos deste ano, com 86,4 mil. Outros nomes expressivos do PSOL na próxima legislatura serão Chico Alencar e Monica Benicio, a viúva de Marielle. "Eles vão dar uma qualificada no debate", diz Motta.

Já Carlos Bolsonaro (Republicanos) ficou em segundo lugar, com 71 mil votos, um terço a menos do que em 2016. Sua mãe, Rogéria, amargou a 229ª posição, repetindo a sina de 2000, quando também perdeu para seu caçula. A diferença é que daquela vez ela foi boicotada pelo hoje presidente Jair Bolsonaro, que lançou à vereança Carlos, então com 17 anos, para desidratar a candidatura da ex-mulher.

Ainda assim expressivo, o desempenho de Carlos beneficiou sua legenda, tida como costela partidária da Igreja Universal do Reino de Deus. Dois bispos evangélicos também se elegeram pela sigla: Inaldo Silva e João Mendes de Jesus.

Gabriel Monteiro (PSD) pegou o bronze da votação e deve compor a ala mais direitista da tribuna, com colegas como Rogério Amorim (PSL), irmão do deputado estadual Rodrigo Amorim e chefe da Clínica Neurocirúrgica do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle. Youtuber bolsonarista, Monteiro protagonizou um embate virtual com o perfil do PSOL carioca nesta segunda (16).

"Blogueirinho, a realidade vai bater e vc vai pedir pra sair. Não devia ter entrado. A gente vai te jantar todo dia. Bom apetite", disse a conta do partido à esquerda.

Rebateu o influencer: "Melhor ser blogueiro do que mamador. E se ponham no lugar de vocês, querem se comer, que façam no diretório de vocês, 'vai me jantar', papo de pederasta."

O pugilato começou após Monteiro postar uma foto de Tarcisio Motta fantasiado de mulher no Carnaval. "Excelentíssimo(a), espero que pare de correr do debate comigo, lembra da última vez, seu vexame intelectual? No que depender de mim, a baixaria vai acabar", escreveu. E 2021 nem começou.