Milícia do Rio acessa bancos de dados da polícia para fazer 'matança', diz Promotoria

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro e da Polícia Federal que resultou na prisão de oito suspeitos de pertencerem à maior milícia do estado aponta uma estrutura de corrupção ativa entre milicianos e agentes das forças de segurança, com pagamento de propina a policiais militares e até acesso ao banco de dados oficiais dos órgãos de segurança pública.

Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho, 42, apontado como líder da milícia, não foi encontrado. A polícia não informou o nome do advogado dos suspeitos, e a reportagem não conseguiu localizar a defesa deles.

"Nessa investigação vimos a milícia a pleno vapor, em todas as suas vertentes, especialmente na corrupção de agentes das forças de segurança, com pagamento de propina aos baldes, inclusive troca de mensagens com policiais militares", disse a promotora Roberta Laplace, subcoordenadora do Gaeco (Grupamento de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público.

A investigação também descobriu uma espécie de setor de inteligência da milícia, que além de levantar dados atuava em esquemas de vigilância, inclusive se infiltrando nos grupos criminosos rivais.

"Eles fazem assinatura de bancos de dados privados e têm acesso à informação privilegiada por conta dos agentes que eles corrompem. Acesso, por exemplo, a fotografias de bancos de dados oficiais", complementa Laplace.

O grupo de Zinho é suspeito pelo assassinato do ex-vereador carioca Jerônimo Guimarães Filho, 73, o Jerominho, no último dia 4, em Campo Grande. Jerominho era considerado o fundador da primeira milícia organizada do Rio, a Liga da Justiça.

"Eles estavam enfurecidos com a tentativa do Jerominho de resgatar áreas de domínio que estavam sob controle dessa milícia há muito tempo. A milícia do Zinho está em mais de 50 lugares do Rio, tem atuação em São Paulo, estão gigantescos. Eles diziam nas mensagens que tinham que resolver de alguma forma. Há suspeita, mas não dá para afirmar de forma categórica que há participação desses integrantes", afirma a promotora do Gaeco.

Além da ordem de prisão temporária para Zinho, outros 22 mandados foram expedidos pelo Tribunal de Justiça do Rio. Entre os oito presos está Geovane da Silva Mota, o GG, preso em um hotel na cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul.

GG é apontado como o segundo mais importante na hierarquia da milícia. As demais prisões foram feitas em Campo Grande, Paciência, Guaratiba e Santa Cruz, bairros da Zona Oeste do Rio. Quatro alvos já estavam na cadeia, cumprindo pena por outros crimes.

Os outros presos são Geovane da Silva Mota, o GG, Luis Fillipe dos Santos Maia, Vanderlei Proença de Souza, Alexandre Silva de Almeida, Vitor Eduardo Cordeiro Duarte, Douglas de Medeiros Alves, André Costa Bastos, e Rodrigo dos Santos, o Latrell.

Os suspeitos são investigados por extorsões, desde postos de combustíveis até barraquinhas de lanches, tráfico de armas de fogo e corrupção ativa de agentes das Forças de Segurança, além de diversos homicídios --uma "matança desenfreada", segundo Laplace, promotora do Gaeco.

Os confrontos entre milicianos na zona oeste e na Baixada Fluminense se acentuaram desde que o grupo se dividiu em dois, especialmente após a morte de Wellington da Silva Braga, o Ecko, em junho de 2021. Boa parte dos bairros da zona oeste permaneceu sob controle do irmão, Luis Antônio da Silva Braga; outra ficou com Danilo Dias Lima, o Tandera.

Desde então, as milícias de Zinho e Tandera acumulam homicídios. No último sábado (20), uma operação da Polícia Civil em um sítio em Nova Iguaçu (RJ) terminou com quatro suspeitos de serem milicianos mortos, entre eles Delson Lima Neto, irmão de Tandera. A polícia suspeita que o grupo foi responsável pelo desaparecimento e morte de quatro jovens, no último dia 12.

Em uma segunda ação contra o grupo de Tandera, na terça (23), policiais civis apreenderam um veículo chamado pela própria polícia de "caveirão da milícia". O carro-forte, com sistema de cofre e proteção interna, estava em um galpão em Nova Iguaçu. A Polícia Civil investiga a origem.